Sobre PIB, desemprego e fome



Assim como a guerra é assunto importante demais para ficar restrito aos militares, também o debate sobre a economia não pode e não deve ficar restrita aos economistas e jornalistas real ou pretensamente especializados no assunto.

Refiro-me, por óbvio, à perspectiva econômica que realmente importa, que é a geração de emprego e renda, o desenvolvimento sustentável da economia, o avanço científico e tecnológico, as conquistas sociais, a melhoria efetiva das condições de vida das pessoas.

Bem diferente dos parâmetros do neoliberalismo, cujo projeto estratégico para o Brasil alcança não mais do que 30% dos seus habitantes e a exclusão da imensa maioria. Daí a relevância que confere à jogatina da bolsa de valores e ao parasitismo do mercado financeiro.

E não é por outra razão que o mantra da responsabilidade fiscal domina o noticiário econômico do cartel da mídia, enquanto a responsabilidade social sequer é mencionada.

Sobre o anúncio do crescimento de 1,2% do Produto Interno Bruto brasileiro,  no primeiro trimestre de 2021, em relação ao último trimestre de 2020, propositalmente, é claro, os veículos de comunicação não fizeram as necessárias contextualizações. No máximo, as abordaram de forma lateral, preferindo soltar foguetes para o “avanço inesperado do PIB.”

Ficou faltando ênfase na constatação de que, pela confrontação mais usual e técnica dos dados, quando se coteja a variação do PIB dos últimos 12 meses com os 12 meses anteriores, o tombo ainda é significativo com uma redução de 3,8%. O resultado de 1,2% foi obtido por meio da comparação com um cenário de terra arrasada verificado no fim de 2020. Trocando em miúdos, quando você parte de menos do que nada, qualquer crescimento parece expressivo.

Não sem um certo espanto li declarações de economistas ligados aos campo progressista apontando o resultado do PIB como positivo para Bolsonaro, como se seu governo tivesse alguma participação nisso. A pergunta que faço é a seguinte: que políticas públicas foram concebidas e implementadas por Bolsonaro e Guedes para impulsionar os setores responsáveis pelo índice? Rigorosamente nenhuma. É só reparar no pífio investimento público registrado pela pesquisa do IBGE.

A “despiora” do PIB, expressão feliz que tomo emprestada do colunista Vinícius Torre Filho, da Folha de São Paulo, ocorreu apesar do governo Bolsonaro. Isso precisa estar no centro da argumentação da esquerda. A baixa qualidade do crescimento é outro ponto crucial.

É importante notar que houve uma queda em um dos principais motores da economia, que é o consumo das famílias, bem como um descompasso entre as curvas do PIB e do desemprego, que continua batendo recordes, dentre outros fatores, devido à precarização do trabalho e ao desalento. Lutar para não morrer de fome e com a espada da covid-19 sobre o pescoço têm sido a sina de milhões de seres humanos no Brasil.

Se poucas vezes na história do país tanta gente passou fome; se os preços proibitivos dos alimentos, inclusive de itens da cesta básica, punem os mais necessitados; se a concentração vergonhosa de renda e riqueza não se alterou; se a exclusão social não para de crescer; se as privatizações e a entrega do patrimônio público continuam a ameaçar a soberania da nação e se serviços públicos essenciais estão ameaçados, então, para que serve o aumento do PIB?

Do ponto de vista do interesse do povo brasileiro, com certeza, para p... nenhuma.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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