Sonho da reeleição em chamas

(Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)

Desastre político

O salto da avaliação negativa do governo Bolsonaro de 19% para 39,5%, a queda da avaliação pessoal de 57,5% para 41% e o aumento da desaprovação, de 28,2% para 53,7%, no período de fevereiro a agosto desse ano, segundo pesquisa CNT/MDA, realizada entre 22 e 25 de agosto, acenderam sinal vermelho para reeleição do titular do Planalto em 2022. Os aliados da ultradireita podem estar firmes em torno do presidente, mas os do centro-direita, que apoiaram sua candidatura no segundo turno, em 2018, preparam-se para dar no pé.

O desgaste nacional e internacional de Bolsonaro, diante dos resultados da liberação das licenças para os desmatamentos na Amazônia que autorizou, revela-se desastre político. Quem quer ficar perto do desgaste popular? A popularidade bolsonariana em bancarrota, com expansão das chamas na floresta amazônica, estimulará ainda mais movimentações do centro-direita, iniciadas semana passada, para se afastar do capitão, de modo a não se queimar. DEM, PSDB, MDB e aliados penduricalhos buscam agenda bolsonariana neoliberal, mas sem Bolsonaro. Os centristas direitistas, que pensavam tomar distância da esquerda, que sai favorecida com as chamas amazônicas, tenderão ao que não gostariam, ou seja, posicionar-se, também, na centro-esquerda, no compasso do desgaste ultradireitista bolsonariano.

Impopularidade global

A impulsividade bolsonarista, politicamente, desgastante ganhou ressonância global no embate com as forças do G7, reunidos, na França, no último final de semana. Macron, presidente francês, radicalizou-se contra o presidente brasileiro, a fim de responder às pressões da opinião pública europeia, contra desmatamento da floresta. Cientistas americanos e europeus apostaram nas denúncias do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais(INPE), cujo presidente Ricardo Galvão, consagrado, internacionalmente, Bolsonaro demitiu.

O aval ao INPE, pelos europeus , respondeu às pressões da União Europeia, cujos representantes eleitos, recentemente, defendem políticas ambientais que Bolsonaro desdenha, para ira global. As retaliações ao fundo de investimento da Amazônia, que tende a generalizar-se, bem como pressões possíveis para boicote aos produtos brasileiros exportados pelo agronegócio, contribuem para aumento das tensões econômicas, políticas e sociais no Brasil, afetando o governo radical na desregulamentação ambiental.

No olho do furacão, Bolsonaro amarga impopularidade crescente, segundo pesquisa CNT/MDA, que vira centro das preocupações dos aliados, no Congresso. Crescem, portanto, risco de empacar reforma da Previdência, em tramitação no Senado, bem como reforma tributária, ainda, sem consenso algum, na Câmara. Sobretudo, causa temor ao mercado financeiro a possibilidade de as reações populares se ampliarem para a política econômica neoliberal, responsável pela expansão incontrolável do desemprego e da recessão.

Exagero bolsonarista

Até agora, o governo estava manobrando a sociedade com discurso identitário, ideológico de direita, convergente com expansão de ódio, preconceito, racismo e fundamentalismo religioso. Ele ajudava a desviar a atenção dela para facilitar decisões econômicas impopulares, como violento cortes de gastos sociais que, para favorecer credores da dívida, prejudicam educação, saúde, segurança, infraestrutura etc. O exagero bolsonariano em relação à política ambiental representou ponto fora da curva que pode colocar tudo a perder.

Foram incomodados interesses econômicos nacionais e internacionais, contra os quais Bolsonaro não tem bala na agulha para guerrear. Ficou em sinuca de bico. Como fugir do desastre ambiental que esvazia sua popularidade e ameaça sua reeleição? Acuado, aprofundaria guerras híbridas para manter sociedade alienada, politicamente, polarizada, de modo a facilitar o trabalho do desmonte neoliberal comandado pelo ministro Paulo Guedes? O espaço de manobra bolsonariano vai ficando cada vez mais curto.

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