Tem que chutar o tabuleiro do Jumanji

Só Dilma, que é a encarnação do anti-sistema político, a presidenta honesta derrubada por bandidos, pode liderar o movimento cidadanista do qual fala Janot. Volta, Dilma! É hora de o Brasil exorcizar seus demônios históricos, isolar quem quer acordo com o sistema político e quem quer superá-lo

Belo Horizonte - BH, 20/05/2016. Presidenta Dilma Rousseff participa do 5º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Belo Horizonte - BH, 20/05/2016. Presidenta Dilma Rousseff participa do 5º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR (Foto: Leopoldo Vieira)

Segundo a perícia do Senado, como todos leram, "pela análise dos dados, dos documentos e das informações relativos ao Plano Safra, não foi identificado ato comissivo da Exma. Sra. Presidente da República que tenha contribuído direta ou imediatamente para que ocorressem os atrasos nos pagamentos".

27 de junho de 2016 foi mais um dia em que há registro público e notório de que se trata de um golpe de estado, assim como o dia da divulgação dos áudios do Senador Romero Jucá, revelando que o Impeachment foi uma trama para obstruir a Justiça; e o da declaração da líder do governo (interino e golpista) no Senado Federal, Rose de Freitas (PMDB-ES) afirmando que as "pedaladas" foram apenas um pretexto para derrubar a presidenta e que a motivação real foi a impopularidade (conjuntural) do governo.

Hoje, as notícias centrais são duas:

-A coluna Painel afirma que o Planalto estuda retirar a urgência de parte das medidas anticorrupção propostas pelo Ministério Público. Motivo: elas trancarão a pauta da Câmara a partir desta terça-feira e, segundo ministros, ainda não estariam maduras para apreciação.

-Segundo o jornal Brasil 247, no mais político discurso de sua carreira, o procurador-geral Rodrigo Janot bradou contra praticamente toda a elite política brasileira, nesta segunda-feira (27), durante a abertura de um seminário que vai discutir os grandes casos criminais do Brasil e da Itália. Ele disse que "movimentações de políticos tentam frear as investigações da Lava Jato" e afirmou que "o Ministério Público não se sujeitará à condescendência criminosa em favor de uma pseudo estabilidade destinada a poucos". E, o mais importante: "A Lava Jato, por si só, não salvará o Brasil, nem promoverá a evolução do nosso processo civilizatório. Para tanto, é indispensável a força incontrastável da cidadania vigilante e ativa".

Alexandre Moraes, advogado do PCC (do PCC!), tornado ministro da Justiça por Temer, disse que Dilma não dava apoio ao combate à corrupção. Qualquer um fala mesmo o que quer e dane-se os escrúpulos, como dizia uma múmia da ditadura.

Por isso que Jucá disse que o golpe precisava ser dado para "barrar esta porra". Por isso que o chefe da Casa Civil, Padilha, disse que a operação tem que dizer quando vai acabar. Por isso que um impeachment do Janot está sendo "analisado" no Senado.

As prisões, conduções coercitivas e o espetáculo de busca e apreensão na sede do PT, na semana passada, são produto da aliança do Estado policial, que quer ser a regra, com o sistema político, que luta para sobreviver.

As ações mostraram uma fenda na Lava Jato: os que querem "dizer" quando ela acaba, com um belo espetáculo de encerramento contra o PT; e os que desejam implodir o sistema político.

A ordem de e para uns é isolar o Janot e "impichar" ele como entreguista (vejam a petição do menino do Massachusetts Institute of Technology-MIT, que o Renan recebeu para analisar). O problema do Moro é que ele não é contra a corrupção sistêmica do sistema político, ele é contra outro sistema: o de proteção social, luta liderada pelo PT.

O Brasil enfrentou, com êxito, uma das principais características de sua formação social, a desigualdade. Para tal, o PT fez uma escolha: priorizar os avanços sociais ao questionamento do pacto da Nova República, o atual sistema político.

Isso foi coerente com os antecedentes do partido antes de vencer as presidenciais de 2002, quando seus governos locais realizam um contraponto direto, na área social, à hecatombe de empregos, salários e condições de vida dos brasileiros.

Agora, derrubado do poder por um golpe de estado do sistema político contra o projeto constituinte, a partir de investigados contra uma presidenta limpa, tem que avançar contra a outra característica basilar da formação brasileira.

Não é hora de o campo anti-golpe ficar preparando terreno para discussões de trinta anos atrás - "partido tático ou estratégico?", "qual socialismo queremos?", "o caráter da revolução brasileira" - e muito menos de balancetes...

Só Dilma, que é a encarnação do anti-sistema político, a presidenta honesta derrubada por bandidos, pode liderar o movimento cidadanista do qual fala Janot.

Volta, Dilma! E para fazer do Planalto a tribuna pela Constituinte Exclusiva da Reforma Política, seguida, como em toda a constituinte digna do nome, de eleições gerais sob novas regras, a começar pela já determinada pelo Supremo: proibição do financiamento empresarial de campanha.

É hora de o Brasil exorcizar seus demônios históricos, isolar quem quer acordo com o sistema político e quem quer superá-lo.

E voltar para um plano emergencial de combate ao desemprego, como a ansiedade popular exige, sem direitos a menos, cuja destruição é o motivo pelo qual marketeiros de Temer já pedem para se dar tempo ao interino.

E voltar com o espírito dos últimos dias antes do golpe na Câmara: desenvolvimentismo no que Furtado conceituou como combinação intrínseca entre crescimento econômico e inclusão social, mas, antes de qualquer suposto progresso, os direitos plenos, pelo menos como uma defesa sem mediações de partida, para as mulheres, jovens, gays, índios, deficientes, idosos, crianças e adolescentes, negros etc.

Estas agendas são combustível puro para, inclusive, reescrever o desfecho das eleições municipais deste ano. Porta em porta, caminhadas, panfletagens em territórios populares por estas causas, sobretudo a Constituinte Exclusiva, não podem ser acusadas de campanha antecipada.

À luta!

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