Tragédia mesmo seria perder fora de campo

O que aconteceu ontem no Mineirão foi apenas um jogo de futebol, onde quem se preparou melhor e jogou melhor venceu. Apenas isso



Eis que, novamente, os abutres sobrevoam a carniça nacional. Tentam, agora, transformar o fiasco de um time de futebol mal convocado, mal treinado e mal escalado por seu treinador num vexame nacional. Mas o que aconteceu ontem no Mineirão nada tem a ver com a capacidade brasileira de organizar grandes eventos, com os destinos da nação e muito menos com as eleições presidenciais de outubro. Foi apenas um jogo, onde quem se preparou melhor e, por isso, jogou melhor, venceu. Nada mais justo e merecido.

Tragédia real mesmo seria perder o jogo fora de campo. E nada disso aconteceu. A Copa do Mundo, sim, merece ser chamada de #copadascopas, porque, a despeito de todas as previsões catastróficas desses mesmos abutres, tudo funcionou a contento. Vários aeroportos foram reformados, as arenas encantaram o mundo e o nível técnico, salvo o da seleção brasileira, foi, talvez, o melhor desde a Copa de 1970. Os estrangeiros que aqui vieram se encantaram com a alegria do povo brasileiro, com a hospitalidade dos voluntários e também com a organização do evento. Certamente, a grande maioria está disposta a voltar. Nunca, em toda sua história, o Brasil obteve tanta propaganda positiva como durante o Mundial, um período em que até jogadores alemães como Schweinsteiger e Podolski se renderam ao fascínio brasileiro, postando mensagens favoráveis em suas redes sociais.

A derrota nos gramados, no entanto, deveria servir para algumas reflexões e autocríticas. A começar pelo próprio jornalismo. Antes da Copa, dizia-se que o Brasil chegava mal preparado fora de campo, mas com uma ótima seleção. O que se viu foi o contrário. Do lado de fora, as coisas funcionaram, mas o jogo da seleção foi sofrível. Basta recordar como foram os jogos. Contra a Croácia, o Brasil precisou de um pênalti inexistente para desempatar. Contra o México, teve menos de posse de bola e não saiu do zero a zero. Na vez de Camarões, o Brasil goleou, mas enfrentou uma adversário já desclassificado. No primeiro mata-mata, o Chile só não venceu porque se acovardou, tentando levar a decisão para os pênaltis. Apenas no primeiro tempo contra a Colômbia, houve algum lampejo de futebol. Quando chegou a vez da tricampeã Alemanha, menosprezada pelo Brasil (!!!), a realidade se impôs de forma dura, porém pedagógica.

Assim como erraram antes da Copa, ao dizer, iludidos que estavam com a vitória na Copa das Confederações, que a seleção chegava bem preparada para o Mundial, os cronistas esportivos erram novamente ao demandar uma guinada de 180 graus no futebol brasileiro, como se tudo aqui estivesse errado. O Brasil ainda é um dos maiores celeiros de craques do mundo e tem agora, com suas novas arenas, totais condições de trazer de volta os torcedores e suas famílias aos estádios. Com uma preparação consistente, ou seja, trabalho, a seleção terá plenas condições de conquistar novos títulos.

E nem mesmo à Confederação Brasileira de Futebol deve ser debitado o fracasso da seleção. Eleito para um mandato tampão após a tormentosa saída de Ricardo Teixeira, o presidente José Maria Marin buscou o caminho mais seguro, ao apostar no técnico Felipão. Pentacampeão em 2002, ele parecia ser, de fato, o nome mais propício para inspirar confiança na equipe e também na própria sociedade brasileira, que cobra resultados de sua seleção como se disso dependesse sua autoestima. Se tivesse sido derrotado com Mano Menezes, por exemplo, Marin seria criticado por não apostar num técnico experiente. Agora, com um horizonte de quatro anos pela frente até o Mundial da Rússia, o novo presidente da CBF, Marco Polo del Nero, terá o tempo e a tranquilidade necessárias para organizar uma boa equipe.

Erros graves mesmo foram os de Felipão. Um técnico que não se reciclou, que chamou jogadores desconhecidos dos brasileiros e não foi capaz sequer de dar uma chance a Evérton Ribeiro, meia cruzeirense, que, nos últimos anos, tem sido o melhor jogador do Brasileirão, atuando na melhor equipe do País. Apostar em Fred e ter no banco Jô era, realmente, flertar com a tragédia. Escalar Ramires, Fernandinho e William, deixando Hernanes no banco, também parece ilógico.

Mas o grande erro mesmo foi a pressão psicológica imposta à equipe. Antes mesmo da Copa, o assistente Carlos Alberto Parreira afirmou que o Brasil era favorito absoluto, adotando o discurso "ganhar ou ganhar". Mais prudente teria sido dizer que a seleção passava por uma renovação e que os jogadores dariam o melhor de si. Apenas isso. Colocar sob os ombros de jovens de vinte e poucos anos a responsabilidade de apagar o "Maracanazo de 1950", do qual ninguém mais, salvo os cronistas esportivos, se recordam, foi outro equívoco.

Toda essa pressão psicológica se refletiu em campo, seja no choro antes dos pênaltis contra o Chile, nas lágrimas de Julio Cesar após defendê-los, no hino cantado agarradinho, na camisa de Neymar segurada por David Luiz no Mineirão e no apagão sofrido contra os alemães, que talvez nem tenha sido um apagão, mas o próprio retrato da realidade. Nos últimos quatro anos, os alemães se prepararam para chegar onde chegaram. O Brasil acreditou que poderia vencer no embalo. Perdeu dentro de campo, mas venceu fora dele. E é isso que deve dar orgulho ao povo brasileiro nesta #copadascopas.

 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247