Trânsito em julgado 3

Sempre fez questão de demonstrar sua insatisfação diante das migalhas que lhe eram oferecidas, e recusava a continuidade do que tentavam fazê-la acreditar, a possibilidade de um encontro verdadeiro

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

A história do encontro deles é ótima, mas ela nos diz que não há nada de mágico, do destino, ou de almas gêmeas, mas apenas a escolha de se conhecerem, de se respeitarem e considerarem o desejo um do outro. Eles não se veem como descartáveis.

Ela adora caminhar, não gosta de academias, como uma boa leonina adora sentir o sol em sua pele. E em uma dessas caminhadas um homem se aproximou, e com um sorriso lhe perguntou sobre sua tatuagem na panturrilha da perna esquerda. A tatuagem de Têmis, a Deusa grega da Justiça, mas a dela não possui venda, está com os olhos abertos, porque só assim poderá fazer Justiça, somente, assim, verá a desigualdade social, e enxergará a realidade do sistema, que explora e oprime seus cidadãos.

O sorriso estampou o rosto dela, ele sabia o significado da sua tatuagem!

Resolveram continuar a caminhada juntos, mas antes ele lhe mostrara que assim como ela, também na panturrilha esquerda, tinha uma tatuagem, Odin, o Deus que lhe representava, na força do caráter e na aparência física.

Ela Advogada e ele Policial Federal, os dois com a mesma formação, mas vão além, amam filosofia, política, sociologia, querem compreender o humano, são solidários e acreditam na cooperação e na humanidade, respeitam a individualidade um do outro, sem desrespeitar a parceria que constroem.

Não foi amor à primeira vista, nem uma paixão avassaladora, foram construindo o afeto, a cada encontro iam se desnudando, mostrando o humano de cada um, suas expectativas, desejos, manias e defeitos. Quanto mais se mostravam, maior se tornava o sentimento um pelo outro, a conexão acontecia e fluía com naturalidade, sem que eles permitissem a instalação de qualquer trava ou medo que adquiriram das relações anteriores; os superaram. Queriam o mesmo, o encontro de humanos, sem os jogos, sem a dominação, apenas com a reciprocidade e igualdade entre eles.

A Advogada sempre teve um lema e o repetia quando nos encontrávamos, nas nossas noites de encontro, dizia que nas relações “corria 100 metros rasos, nunca teve disposição de correr maratonas”, e a história dela com o Federal, retrata essa atitude.

Sempre que conhecia um homem, o observava atentamente, cada fala, atitude, gestual, e como a tratava. No início muitos elogios, mostravam muito interesse para encontros, e a tentativa de mostrar-lhe que tinham muito afinidade, mas percebia que fazia parte do jogo da conquista, e isso a entediava, observava que o movimento masculino era sempre o mesmo, seja com ela, conosco e com todas as suas amigas.

Nunca suportou o comportamento padrão, o qual tem poucas alterações, e, assim que iniciavam o movimento de deixá-la na disponibilidade, em que só o tempo deles seria considerado, a tentativa de sobrepor à vontade e o desejo deles, e culpá-la por uma incompreensão inexistente, se afastava. Mas sempre fez questão de demonstrar sua insatisfação diante das migalhas que lhe eram oferecidas, e recusava a continuidade do que tentavam fazê-la acreditar, a possibilidade de um encontro verdadeiro.

A maioria dos seus envolvimentos não chegavam a três meses, diz que se permitir no início ser desconsiderada, submetida, silenciada e sujeitada ao jogo, nada irá se alterar e a virada só acontecerá quando a mulher cansada e extenuada finalizar o que nunca se realizou. Ela não acredita que com o tempo seja possível alterar a relação de dominação, aquele que domina não renuncia à sua posição, e ao subjugado só cabe gritar para ser visto, entendido e compreendido, até que crie coragem e desista do que jamais teve.

Nos contou que sempre ouviu dos homens que passaram por sua vida o quanto ela os assusta, como a temem, chegou a pensar que era até uma nova modalidade de cantadas, pois era constante essa fala. Acho que na verdade, por ela desvelá-los e não permitir que a dominassem, eles se frustravam, porque jamais a conquistariam, nunca foi território, nem propriedade, e muito menos escrava. Entregou seu afeto quando encontrou o parceiro.

Inclusive, ela tem uma teoria ótima. Claro que devemos considerar sua história, personalidade, e o que entende servir a ela. 

Não sei se adotarei sua teoria, mas no mínimo rimos muito, e acabamos pedindo mais uma garrafa de vinho.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247

Apoie o 247

WhatsApp Facebook Twitter Email