Trânsito em julgado 4

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Por Giselle Mathias

Vamos à teoria!

Diz a Advogada, que na criação do Universo, Deus criou a Terra e a habitou em pares, ao fazer isso criou o homem, Adão, e a primeira mulher, Lilith. Os dois foram criados do mesmo pó, mas Adão acreditava na ilusão de que seria superior e divino, pois imaginava ter sido criado a imagem e semelhança de Deus, portanto, diferente de Lilith. 

Segue ela: Lilith não aceita a submissão, não acredita que Adão mudará com o tempo, e por isso, desde o início o contesta, e exige ser tratada com igualdade, propõe a parceria, o chama para o diálogo, mas Adão recusa. Insatisfeito por não conseguir dominar Lilith, como um garoto mimado, vai reclamar com Deus o que considerava uma insubordinação, uma insurgência, pois não entendeu o que Lilith havia proposto.

Após ouvir a reclamação de Adão, Deus (aquele que é a imagem e semelhança do homem), mantendo a lealdade masculina, decide expulsar Lilith, e atender ao filhotinho mimado que precisa ter todas as suas vontades e desejos atendidos.

Adão se vê sozinho, Lilith fora expulsa, e seus dias passam a ser entediantes, o vazio se instala, e Deus o vendo isolado, entediado, e perturbando os outros animais, o faz dormir, retira uma costela e cria Eva, acreditando que assim Adão teria o que desejava, alguém dominável, submetido, que atendesse suas vontades e, ainda, o bajulasse.

No princípio Eva se encanta com Adão, até porque não tinha outro, ele a trata bem, elogia, diz que irá se apaixonar, que não há mulher como ela, o quanto ela é maravilhosa e dedicada. Mas o tempo passa, e ele já mostra que só o querer dele importa, ela deveria se silenciar e obedecê-lo, já que não passa de uma costela retirada do seu corpo, enquanto dormia.

Os dois sabiam que não poderiam comer o fruto da árvore do conhecimento, da sabedoria, Deus os avisara. Mas Eva já mostrava cansaço em apenas servir, e seus anseios serem desconsiderados, sua relação não era recíproca, não havia parceria, muito menos cumplicidade. A relação era desigual!

Então, no final da tarde de um dia qualquer, enquanto Adão brincava sozinho, entretido consigo mesmo, e envolto em seu próprio ego; Eva se aproxima da árvore do conhecimento e começa a admirá-la, quando de repente é chamada pela Serpente. Ela se assusta, mas ao observar aquele animal belo, em sua postura ereta, firme, segura, desejando a junção e integração de ambos, ela aceita à proposição feita pela Serpente e penetra na atmosfera da árvore do conhecimento, retira suavemente o fruto, leva-o a sua boca e, se alimenta daquilo que fora proibido ao masculino. 

Porém, Eva fora criada a partir da costela de Adão e, foi ensinada, constituída, construída para cuidar, silenciar, compreender, se submeter e não exigir nada em troca. Assim, a partir do padrão imposto, ela se dirige a Adão e partilha com ele o fruto da árvore do conhecimento, mas diferente dela, ele não quer partilhar e, sim, dominar.

Ao final da história, a Advogada ri e, diz: 

- Sou filha de Lilith, mas sobrinha de Eva, ainda cedo aos padrões, mas consegui apesar deles me construir e ter uma relação constituída na igualdade e parceria.

Ela recusou viver com os diversos Adãos que passaram em sua vida, mas estava aberta para o homem que quis partilhar o conhecimento, a vida, os desejos, respeitar a individualidade um do outro, e construir dia a dia o sentimento que os une.  

Adoramos a história, rimos muito quando a Socióloga disse que só encontra Adão por aí e, está esgotada deles. Tivemos que concordar com ela, mas acredito que a todos nós é possível refletirmos como nos colocamos no mundo, e como enxergamos o outro. É possível mudarmos, sermos mais verdadeiros, construirmos nossas relações com honestidade e respeito mútuo, sem que seja necessário olhar o humano apenas como um objeto a ser descartável quando perde a utilidade ou o interesse.

Nesse instante, a Jornalista diz que entende perfeitamente a história contada, e o quanto é difícil o Adão entender a proposta feita por Eva, estão tão centrados em si, que sequer percebem o convite feito para o compartilhamento, o crescimento e a construção. 

Perguntei a ela se estava falando do Escritor, pois percebi em seu tom de voz uma certa frustração. Ela confirmou que era dele que falava. Então, questionei o fato de que talvez ele apenas não quisesse uma relação, no que ela concordou, e disse que não era esse seu incomodo, mas o silêncio que lhe impôs, deixando aberta a possibilidade de poder retornar a qualquer momento como se nada tivesse acontecido, como se ela ainda estivesse a sua disponibilidade.

Estranhei a sua fala, e curiosa fiz uma última pergunta:

- Por que permanece na cela, apesar da porta estar aberta?

Ela me respondeu:

- Porque tenho medo de entender que o Escritor, aquele que tanto me encantou, na verdade é apenas o Carcereiro.

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