“Treinaram Moro nos EUA e agora mataram Teori”

Nos próximos dias, meses e talvez anos vai rolar uma estéril discussão a respeito da sabotagem que não houve em vez de ser investigado um fato que está na cara de todos: o que o probo, elogiado e cantado em verso e prosa ministro Teori estava fazendo no avião de um empresário envolvido em processos no Supremo Tribunal Federal?

Equipes de resgate atuam após queda de avião onde estava ministro do STF. 20/01/2017. REUTERS/Bruno Kelly
Equipes de resgate atuam após queda de avião onde estava ministro do STF. 20/01/2017. REUTERS/Bruno Kelly (Foto: Alex Solnik)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Tirando fora os dois casos clássicos e imbatíveis de teorias da conspiração – "os americanos não foram à Lua" e "os americanos derrubaram as torres gêmeas para pôr a culpa nos muçulmanos" – o Brasil deve ser o campeão mundial, disparado, em teorias da conspiração e em partir de falsas premissas para chegar a conclusões equivocadas.

As teorias da conspiração são criadas e espalhadas rapidamente porque não precisam de provas. E se fortaleceram depois que a imprensa foi substituída pela internet e ocupada por celerados travestidos de jornalistas.

Por exemplo: os americanos não foram à Lua, tudo aquilo foi uma simulação filmada no deserto do oeste americano.

Em que se apoia essa hipótese? A bandeira americana aparece tremulando numa foto, o que seria impossível acontecer na Lua.

As pessoas que entraram nessa (e creem nisso ainda hoje) nunca se perguntaram, por exemplo, o que aconteceu com o foguete e a cápsula espacial que, todo mundo viu, partiram de Cabo Canaveral. Em vez de ir para a Lua deram a volta ao mundo e aterrissaram no deserto? E como os astronautas voltaram do "deserto" para a Terra? Foram lançados novamente para o espaço, deram mais uma volta e chegaram triunfalmente? Outra coisa: se os americanos tivessem cometido alguma fraude os russos não seriam os primeiros a denunciá-los? Por que eles não disseram nada até hoje?

Esses argumentos sustentados em provas cabais não são levados em conta pelos lunáticos, pois teorias de conspiração são mais saborosas do que a realidade nua e crua.

O caso das torres gêmeas. Algumas pessoas completamente alucinadas difundiram que não foi Bin Laden quem comandou o ataque suicida e sim os próprios americanos o fizeram: mataram seus próprios cidadãos apenas com o intuito de culpar os muçulmanos. É uma tese delirante. Primeiro, porque os americanos não seriam idiotas a ponto de mostrar que a nação mais poderosa do mundo é facilmente vulnerável. Depois, o que ganhariam com isso? Sinal verde para invadir os países ricos em petróleo? Mas eles sempre tiveram um pretexto melhor para fazer isso, que é livrar a população de seus ditadores e fazer triunfar a democracia. Finalmente: quem foi o brilhante estrategista que concebeu esse plano diabólico? Ninguém sabe. E mais: se fosse verdade os russos não teriam, de novo, denunciado a fraude? Afinal, eles têm o melhor serviço de espionagem do mundo. Por que ficaram quietos?

Num muro perto de onde moro apareceu uma nova pixação há poucos dias: "Treinaram Moro nos EUA e agora mataram Teori". É uma frase tão sem nexo quanto aquela que ficou famosa nas pixações dos anos 60: "Celacanto evita terremoto". Mas cada vez mais brasileiros ou desconfiam ou têm certeza absoluta de que "mataram Teori".

Quem matou? Como? Não importa.

O mais extraordinário é que as próprias autoridades colaboram para, em vez de esclarecer, fortalecer a teoria conspiratória, determinando sigilo à investigação do acidente com o avião em que Teori viajava. Se a investigação é sigilosa, aí tem – conclui boa parte da população que prefere acreditar em bruxas e duendes.

Pouco importa se o tempo em Paraty estava péssimo, se o piloto não tinha condições de visualizar a pista de aterrissagem, se o aeroportozinho não tem sequer torres de controle, se testemunhas contaram que o avião não teve pane e sim bateu com a asa no mar ao voar baixo na tentativa de aterrissar. Os fanáticos por teorias da conspiração preferem se apoiar no depoimento de um pescador que viu sair fumaça de uma das asas. Aí tem – eis a "prova" de que mataram Teori, que prescinde de explicações mais profundas, tais como: de que modo alguém (quem? Um mecânico amigo do Lula ou do Temer?) colocou no aparelho algum dispositivo que provocou uma pane (a fumaça na asa) a dois minutos do destino?

A outra hipótese para o assassinato seria o piloto ser na verdade um terrorista treinado pela Al Qaeda ou um psicótico que resolveu matar o patrão para quem trabalhava e o seu amigo Teori e se matar também, talvez para ser recompensado ao chegar no céu com uma dúzia de belas amantes.

As pessoas que compraram a tese do homicídio sequer se preocupam em constatar que atentados com avião, em todo o mundo, são provocados por bombas e não por fumaça na asa do avião.

Nos próximos dias, meses e talvez anos vai rolar uma estéril discussão a respeito da sabotagem que não houve em vez de ser investigado um fato que está na cara de todos: o que o probo, elogiado e cantado em verso e prosa ministro Teori estava fazendo no avião de um empresário envolvido em processos no Supremo Tribunal Federal?

A respeito de "partir de falsas premissas para chegar a conclusões equivocadas" vou escrever no próximo post.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

WhatsApp Facebook Twitter Email