Trevas à vista

Não posso imaginar que os tempos tenebrosos aos quais sobrevivi a duras penas, perseguições, desempregos e interrogatórios estejam ressurgindo no triste cenário nacional

Não posso imaginar que os tempos tenebrosos aos quais sobrevivi a duras penas, perseguições, desempregos e interrogatórios estejam ressurgindo no triste cenário nacional. Não posso conceber que esteja para retomar o poder a conspiração retrógrada de 64, quando as marchas nas ruas tinham tanques de guerra e terços na mão.

Hoje, essas forças reacionárias já não vestem farda, mas toga, e trocaram o rosário pela camisa da seleção. Mas, tal como antes, contam com o apoio político-empresarial sob uma aparente legalidade. E me vejo na iminência de testemunhar a repetição da mesma farsa fascista. O impressionante é que naquela época ainda havia um pretexto ideológico: barrar o comunismo. Hoje, nem isso. As pessoas sofrem a lavagem cerebral da mídia, sempre comprometida com o que há de pior no sistema capitalista: o mando da elite.

E não se pense que pertencer à alta classe é garantia de bom comportamento. Ao contrário. É ela que sonega imposto o quanto pode, faz compras em Miami assim que pode, e julga que tudo pode: estacionar o carrão em lugar proibido, tripudiar da mucama que lhe serve à mesa, destilar o ódio contra o proletariado junto com o uísque diário, ter advogado e contador para burlar as leis desfavoráveis à sua ganância financeira, subornar o guarda de trânsito, contar piada indecente nos velórios depois dos pêsames tão falsos quanto as juras de fidelidade conjugal...

É essa "nata da sociedade" que deposita ganhos não declarados em paraísos fiscais e, sem qualquer vestígio de hipocrisia, veste o uniforme canarinho para bradar contra a corrupção "vermelha". É também usuária das redes sociais através das quais vem articulando (e promovendo) o golpe contra o governo constitucional, porque eleito sob a legenda demonizada. E demonizada porque mais protecionista das classes desfavorecidas.

A elite desvia para a corrupção – dos outros, em especial os "lulo-petistas" – o foco dos malefícios pátrios. E deixam no congelador de suas preocupações a fome, a miséria, o desemprego, o analfabetismo, o latifúndio improdutivo, a depredação ambiental, a (i)mobilidade urbana, numa lista de carências sociais, econômicas e culturais de fazer chorar quem tenha algum resquício de consciência cívica, de convívio democrático e de respeito à população silenciosa, porque sem voz e vez nos veículos de manipular notícias.

A grande imprensa provê a "opinião pública" do pensamento único, formando uma rede muito bem concatenada para conspirar pela submissão da política dominante ao capital. E dita as regras de um sistema que tem na especulação financeira sua principal fonte de renda, e não na produção de bens de primeira necessidade. Com o exército togado dos Mouros algemando o denunciado antes da obtenção de provas, numa inversão de conceitos jurídicos básicos, que atribuíam ao acusador a prova da acusação – hoje o acusado é condenado apenas por delação ou "indícios" – tem-se a montagem completa da tramoia golpista.

Estamos, assim, à véspera de retornar ao atraso, liberando a turma do andar de cima para cuspir à vontade na turma (bem mais numerosa, mas impotente) dos andares de baixo, sem medo de retaliação: os que contam com a proteção das becas (obrigatoriamente imaculáveis) para garantir-lhes os privilégios intocáveis, não vão se preocupar com os despossuídos, principalmente se nordestinos, favelados, pretos, gays e pouco, mal ou nada alfabetizados. Isto é, a massa (do miolo mole). Plim-plim.

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