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Evandro Menezes de Carvalho

Professor da UFF, FGV-Rio e Professor da Cátedra Wutong da Universidade de Língua e Cultura de Pequim. Ganhador do Prêmio Amizade do Governo Central da China em 2023

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Trump e a Síndrome de Gulliver

Trump e a Síndrome de Gulliver expõe a tensão entre EUA e China e a aposta de Pequim em parcerias multilaterais diante da estratégia unilateralista americana

Xi Jinping e Donald Trump (Foto: Xinhua)
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No balanço da visita de Estado de Trump à China, um dos assuntos comentados foi o alerta de Xi Jinping contra a “Armadilha de Tucídides”, expressão popularizada pelo cientista político norte-americano Graham T. Allison para descrever a inevitabilidade do conflito entre a potência dominante e a potência emergente. O conceito inspira-se nos escritos do historiador grego Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta. Ao recorrer a uma analogia histórica, Allison chama a atenção para uma tendência estrutural à ocorrência de um confronto bélico direto entre as duas maiores potências. “Será que a China e os Estados Unidos conseguirão superar a chamada ‘Armadilha de Tucídides’ e forjar um novo paradigma para as relações entre grandes potências?”, questiona Xi em seu discurso de boas-vindas ao presidente dos EUA no dia 15 de maio passado.

Eu gostaria de acrescentar uma outra metáfora para uma compreensão mais ampla do desafio desta relação entre a China e os EUA. É o que entendo ser a “Síndrome de Gulliver”, que acomete o presidente americano. No clássico “As viagens de Gulliver” (1726), do irlandês Jonathan Swift, o gigante Gulliver é imobilizado por inúmeras pessoas minúsculas que habitam a ilha de Lilliput. A aliança dos mais fracos prevaleceu sobre o mais forte. A lógica da “união faz a força” nos remete às fábulas de Esopo (século VI a.C.) e à lição de que uma vara, sozinha, é frágil, mas várias juntas tornam-se inquebráveis. Trump nunca escondeu a preferência por negociações bilaterais em vez de cúpulas globais ou reuniões multilaterais. Sendo a maior potência do mundo, os EUA sabem que, numa negociação bilateral, estarão sempre em posição de vantagem e, consequentemente, terão maior poder de barganha. Entretanto, fora da ilha de Lilliput, alguns Estados não são tão pequenos; muitos estão unidos em torno de agendas comuns, e outros — é o caso da China — estão quase na mesma altura dos EUA.

Em 2005, o economista americano C. Fred Bergsten, que atuou como assistente de assuntos econômicos internacionais de Henry Kissinger, utilizou o conceito de G-2 (Grupo dos Dois) para se referir ao agrupamento informal composto pelos Estados Unidos e pela China. O conceito ganhou força durante a administração Obama e ressoou bem na China. Havia muitas razões para isso: são as duas maiores potências industriais, comerciais e, também, os dois maiores poluidores do mundo. Naquele momento, havia um ambiente diplomático ainda propício à cooperação entre as duas nações para lidar com a crise financeira de 2008, as alterações climáticas, o conflito Israel-Palestina, entre outros temas. Mas a proposta de um G-2 não foi bem recebida pelos demais países do G-7 nem pelos do G-20, que receavam ser rebaixados ou escanteados na discussão das grandes questões globais.

Nos últimos anos, a competição estratégica entre as duas potências tem se intensificado — sobretudo, é preciso admitir, pelas atitudes protecionistas e unilateralistas dos EUA contra a China. O governo de Xi Jinping, mais cauteloso, não embarca na ideia de um G-2 e desenvolve o conceito de “diplomacia de grandes potências com características chinesas”, que preconiza um papel mais ativo da China nas relações externas, baseado nos princípios de “não confronto”, “respeito mútuo” e “cooperação de ganhos mútuos”. Além disso, o governo chinês abraçou o Sul Global, em total convergência com o compromisso da diplomacia chinesa com os princípios da Conferência de Bandung (1955). A visita de Estado de Putin, quatro dias depois da visita de Trump a Beijing, é outro sinal claro de que a ideia de um G-2 é rejeitada pela China. Contudo, estaríamos diante de um G-3? A Europa dos 27 não iria gostar. E Trump tampouco.

Ao ser levado por Xi para conhecer Zhongnanhai, o lugar onde os líderes do governo central vivem e trabalham, Trump pergunta se alguma outra autoridade estrangeira teria sido levada para conhecer aquele local. “Muito raramente”, respondeu Xi, complementando: “Putin esteve aqui.” Em várias ocasiões antes deste encontro, Trump referiu-se aos encontros entre ele e Xi como o G-2. Em uma de suas mensagens, escreveu: “O G-2 SE REUNIRÁ EM BREVE!” Trump parece gostar dessa ideia pelo que ela traz de “exclusividade” na relação com a China. Mas a China parece entender que ela se impõe por necessidade. São visões e abordagens diferentes. E a China, diferentemente dos EUA, aposta no multilateralismo e no desenvolvimento de iniciativas que ampliam parcerias. É aqui que a Síndrome de Gulliver de Trump pode se agravar.

A China foi o primeiro grande país a adotar uma política de tarifas zero para todos os países africanos com os quais mantém laços diplomáticos. Na América Latina, tem sido um parceiro confiável e adotado uma agenda diplomática baseada na promoção do desenvolvimento econômico e social por meio de projetos de infraestrutura, investimentos e intercâmbios nas mais diversas áreas. O Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses no mundo em 2025, desbancando os EUA. Os aportes chineses foram distribuídos principalmente para transição energética, infraestrutura, mineração e setor automotivo. Na Quarta Reunião Ministerial do Fórum da China e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Fórum China-CELAC), Xi Jinping lançou cinco programas para um futuro comum: Programa de Solidariedade, Programa de Desenvolvimento, Programa de Civilização, Programa de Paz e Programa de Conectividade Interpessoal. Todos esses programas visam promover uma cooperação mais estreita entre a China e os países latino-americanos.

Por ocasião do Fórum China-CELAC, Xi Jinping enfatizou que a China estará sempre ao lado dos países da América Latina e do Caribe e trabalhará em conjunto para escrever um novo capítulo na construção de uma comunidade de futuro compartilhado. Afinal, como ensina a fábula “O Velho e o Feixe de Varas”, a união faz a força. Não há dificuldade em perceber que a política externa chinesa contrasta totalmente com o Corolário Trump exposto na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada no final do ano passado. A China não exige alinhamento incondicional nem ameaça com intervenção armada. A China tem sido, para a América Latina, uma potência construtora — com seus investimentos e projetos de infraestrutura — e construtiva, com sua diplomacia pacífica e de benefícios mútuos, e não uma potência destrutiva. Um caminho para desarmar a Armadilha de Tucídides é ajudar os EUA a se livrar da Síndrome de Gulliver. Ninguém quer amarrar o gigante. Mas também ninguém quer ser pisado por ele. O que se deseja é o bom convívio entre os países, não importa o quão pequenos sejam. Simples assim.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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