Trump entre a Guerra e a Paz: o bombeiro que chega com cheiro de gasolina
O Oriente Médio chegou a este ponto não por excesso de diplomacia, mas por sua escassez
As imagens voltaram a ocupar os noticiários do mundo inteiro. Mísseis cruzando os céus do Oriente Médio, explosões em cidades iranianas, ameaças de retaliação e o temor crescente de uma guerra regional capaz de afetar toda a economia mundial recolocaram a região no centro das atenções internacionais.
À primeira vista, pode parecer apenas mais um capítulo da rivalidade entre Israel e Irã. Mas essa interpretação simplifica excessivamente uma história longa, complexa e cheia de paradoxos. O conflito atual não nasceu ontem. É resultado de quase meio século de transformações políticas, guerras indiretas, disputas geopolíticas e intervenções externas.
No centro desse cenário aparece uma figura particularmente controversa: Donald Trump. O presidente norte-americano tenta apresentar-se como mediador e defensor da paz. No entanto, a trajetória recente da região sugere uma pergunta inevitável: até que ponto ele está apagando um incêndio ou simplesmente tentando controlar um incêndio que ajudou a provocar?
Para responder a essa questão, é preciso voltar no tempo.
Quando Israel e Irã eram aliados
Uma das maiores surpresas para quem acompanha o conflito apenas pelos noticiários atuais é descobrir que Israel e Irã já foram aliados estratégicos.
Durante o reinado do xá Mohammad Reza Pahlavi, entre as décadas de 1950 e 1970, o Irã era um dos principais pilares da presença americana no Oriente Médio. Governado por uma monarquia fortemente alinhada a Washington, desempenhava papel central na contenção da influência soviética durante a Guerra Fria.
Israel, por sua vez, buscava romper o isolamento imposto pelos países árabes que rejeitavam sua existência. Nesse contexto, encontrou no Irã um parceiro valioso.
A cooperação era ampla. O petróleo iraniano abastecia Israel. Havia comércio, intercâmbio tecnológico, cooperação agrícola e coordenação política. Milhares de técnicos israelenses participaram de projetos de irrigação e desenvolvimento em território iraniano.
Mas a colaboração mais sensível ocorria na área de inteligência.
O Mossad, serviço secreto israelense, mantinha estreita colaboração com a Savak, a poderosa polícia política do xá. Criada com apoio dos Estados Unidos e de Israel, a Savak monitorava opositores internos e protegia o regime. Agentes dos dois países trocavam informações, realizavam treinamentos conjuntos e cooperavam em operações de segurança.
É difícil imaginar contraste maior com a realidade atual. Os países que hoje trocam mísseis e ameaças eram, há poucas décadas, aliados estratégicos.
A Revolução Islâmica e a ruptura
Tudo mudou em 1979.
A Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini derrubou o xá e transformou completamente a posição internacional do Irã.
Para os revolucionários, o antigo regime simbolizava dependência externa, submissão aos interesses americanos e abandono da soberania nacional. O novo governo construiu sua legitimidade política justamente em oposição a essa ordem.
Israel passou a ser visto como símbolo da influência ocidental na região.
A embaixada israelense em Teerã foi fechada e entregue à Organização para a Libertação da Palestina. O apoio à causa palestina transformou-se em um dos pilares da política externa iraniana.
Nascia uma rivalidade que marcaria as décadas seguintes.
Mas a história ainda reservaria ironias.
A guerra em que inimigos cooperaram
Durante a Guerra Irã-Iraque, travada entre 1980 e 1988, Israel forneceu armas ao próprio Irã.
A explicação era simples: para os estrategistas israelenses da época, Saddam Hussein representava uma ameaça mais imediata e perigosa do que a recém-instalada República Islâmica.
O episódio ficou associado ao escândalo Irã-Contras, que abalou a administração Reagan.
Esse fato ajuda a compreender uma característica fundamental do Oriente Médio: alianças e rivalidades raramente são permanentes. Interesses estratégicos costumam prevalecer sobre discursos ideológicos.
A longa guerra invisível
A partir dos anos 1990, Israel e Irã passaram a travar uma guerra indireta.
O Irã fortaleceu o Hezbollah no Líbano, ampliou seu apoio a grupos palestinos e expandiu sua influência na Síria e no Iraque.
Israel respondeu por meio de operações de inteligência, sabotagens, assassinatos seletivos e ataques contra forças alinhadas a Teerã.
Era uma guerra sem declaração formal. Uma guerra travada nas sombras.
Essa dinâmica permitiu que ambos os lados elevassem continuamente a tensão sem assumir os riscos de uma confrontação direta.
O fantasma nuclear
A partir dos anos 2000, o programa nuclear iraniano tornou-se o principal foco de tensão. Israel passou a considerar inaceitável a possibilidade de um Irã dotado de capacidade nuclear. O governo iraniano insistia que seu programa possuía fins pacíficos e acusava o Ocidente de utilizar a questão como instrumento de pressão política.
O resultado foi uma sucessão de sanções econômicas, ataques cibernéticos, assassinatos de cientistas e operações clandestinas.
A desconfiança transformou-se em elemento permanente das relações entre os dois países.
Gaza mudou o equilíbrio regional
Os acontecimentos iniciados em outubro de 2023 alteraram profundamente a dinâmica do Oriente Médio.
A guerra em Gaza deixou de ser apenas um conflito entre israelenses e palestinos.
O Hezbollah ampliou sua atuação no Líbano.
Os houthis passaram a atacar embarcações no Mar Vermelho.
Milícias alinhadas ao Irã intensificaram operações no Iraque e na Síria.
Conflitos antes separados passaram a integrar uma mesma crise regional.
As fronteiras entre guerra local e guerra regional tornaram-se cada vez mais tênues.
A contradição chamada Donald Trump
É nesse contexto que surge a figura do presidente estadunidense Donald Trump.
Durante anos, seu governo adotou uma política de máxima pressão contra o Irã. Sanções foram ampliadas. O isolamento diplomático foi aprofundado. A retórica tornou-se cada vez mais agressiva.
Em diversos momentos, integrantes de sua administração chegaram a sugerir que uma mudança de regime em Teerã seria desejável.
A mensagem era clara: o problema não era apenas a política externa iraniana. O problema era a própria existência do regime surgido da Revolução Islâmica.
Hoje, entretanto, Trump fala em moderação. Defende negociações. Pede cessar-fogo. Apresenta-se como mediador.
A mudança de tom chama atenção, mas não elimina a memória dos acontecimentos que contribuíram para trazer a região até aqui.
Talvez o objetivo não seja propriamente a paz. Talvez seja evitar que a crise ultrapasse determinados limites capazes de prejudicar interesses estratégicos americanos.
O aumento do preço do petróleo, os impactos sobre a economia mundial, o risco de envolvimento militar mais profundo dos Estados Unidos e os custos políticos internos de uma nova guerra ajudam a explicar a súbita valorização da diplomacia.
O bombeiro que chega com cheiro de gasolina
A política externa americana tem uma longa história de intervenções realizadas em nome da estabilidade que terminaram produzindo novas instabilidades.
Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria são exemplos eloquentes.
Em todos esses casos, a promessa era reorganizar a região, fortalecer a segurança ou promover a democracia.
Os resultados foram muito mais ambíguos.
A crise atual carrega elementos semelhantes.
Washington procura ocupar o papel de árbitro, mas continua sendo um dos principais atores do conflito. Apoia Israel militarmente, mantém forte pressão econômica sobre o Irã e, simultaneamente, reivindica para si a posição de mediador.
A contradição é evidente.
Não se trata de negar a importância de negociações ou de um cessar-fogo. Trata-se de reconhecer que a paz dificilmente será construída enquanto persistir uma lógica baseada na pressão permanente, no isolamento e na ameaça constante de uso da força.
Muito além de Israel e Irã
Outro erro frequente é imaginar que a crise envolve apenas dois países.
Na realidade, estamos diante de uma disputa entre projetos distintos de organização regional.
De um lado encontra-se Israel, apoiado pelos Estados Unidos e por uma rede de alianças construída ao longo de décadas.
Do outro está o chamado Eixo da Resistência liderado pelo Irã, envolvendo Hezbollah, grupos aliados no Iraque, forças presentes na Síria e os houthis no Iêmen.
Por trás desse confronto encontram-se petróleo, rotas marítimas, influência estratégica e o equilíbrio de poder em uma das regiões mais importantes do planeta.
China, Rússia, Índia e Europa acompanham os acontecimentos com preocupação porque sabem que as consequências ultrapassam em muito as fronteiras do Oriente Médio.
Uma lição para o século XXI
A história de Israel e Irã demonstra como alianças podem transformar-se em rivalidades e como conflitos indiretos podem evoluir para confrontações abertas.
Também revela os limites do poder militar como instrumento de construção da paz.
É relativamente fácil destruir pontes diplomáticas, impor sanções ou ampliar operações militares. Muito mais difícil é reconstruir confiança.
Talvez essa seja a principal tragédia da conjuntura atual.
Depois de décadas de hostilidade, os instrumentos militares tornaram-se cada vez mais sofisticados, enquanto os canais políticos tornaram-se cada vez mais estreitos. Nesse ambiente, cada novo ataque aumenta o risco de erro de cálculo.
Grandes guerras raramente começam porque alguém as deseja explicitamente. Muitas vezes elas surgem porque sucessivas escaladas tornam impossível o retorno ao ponto de partida.
Donald Trump simboliza essa contradição melhor do que qualquer outro líder contemporâneo. Apresenta-se como homem da paz, mas continua associado a políticas que contribuíram para aprofundar a confrontação.
Quando fala em paz, portanto, a pergunta não é apenas se a paz virá. A pergunta é em quais condições ela virá e a quem ela servirá.
A experiência histórica recomenda cautela.
O Oriente Médio chegou a este ponto não por excesso de diplomacia, mas por sua escassez. E dificilmente sairá dele enquanto a lógica da força continuar ocupando o lugar que deveria pertencer à política.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

