Um abril, dois, três, quatro... e suas marcas. (Parte III)

"De García Márquez, que cometeu a indelicadeza de ir embora para sempre, tenho nítida no álbum de fotografias da minha memória infinitas imagens", escreve o jornalista Eric Nepomuceno ao relembrar a amizade com o escritor colombiano

(Foto: REUTERS/Edgard Garrido)
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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Continuando na série relacionada a abril, que o mestre T.S.Elliot chamou em um poema intocável de “o mais cruel dos meses”, chego enfim ao momento de falar da dor. Do vazio, da alma lanhada para sempre.

Falei, no primeiro texto, do 25 de abril de Portugal. No segundo, do 17 de abril de 1996, do Massacre de Eldorado de Carajás.

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Pois agora chego ao abril da dor.

Foi o mês em que perdi, no ano de 2014, dia 17 – vejam a coincidência: mesmo dia do Massacre de Eldorado do Carajás –, um amigo fundamental, essencial, na minha vida: o colombiano Gabriel García Márquez.   

Num outro abril, o de 2015, e no dia 13, uma segunda-feira, perdi não um amigo querido, mas o irmão mais velho que a vida me deu, o grande, imenso uruguaio Eduardo Galeano.

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De García Márquez, que cometeu a indelicadeza de ir embora para sempre, tenho nítida no álbum de fotografias da minha memória infinitas imagens. Mencionarei duas.

Uma: o dia, lá por 2012, em que fui até aquele endereço incerto da Cidade do México, o cruzamento, quase esquina, com as ruas Agua e Fuego.

Conversávamos, Mercedes, sua companheira e eterna guardiã, sobre temas domésticos.

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Ela sempre perguntava sobre meu filho Felipe e sobre Martha, e entrava em detalhes até mesmo como os gastos familiares. Quanto pagávamos de luz, o salário da moça que trabalhava aqui em casa, quanto de impostos, e por aí íamos os dois considerando o custo básico de viver no Rio e na Cidade do México (muito menos absurdo que aqui).

García Márquez, em silêncio absoluto, acompanhava a conversa. Até que disse: “Pois eu já não me preocupo com isso, não me preocupo com nada. E isso é o que me preocupa”.

Ele já estava indo embora. Uma das inteligências e uma das lucidezes mais brilhantes que conheci estava indo embora, devagarinho.  

Nos vimos pela última vez em fevereiro de 2014, dois meses antes da despedida. Mas ele já não estava.

A outra imagem é a primeira. Foi em Havana, nos últimos dias de julho de 1978, minha viagem de estreia à Cuba.  

Quatro anos antes eu havia ido ao Chile de Pinochet para entrevistar, na mais rigorosa clandestinidade, Jaime Gazmuri, o líder da resistência não-armada ao ditador. A entrevista foi publicada junto com um texto de García Márquez sobre o fim da democracia e de Salvador Allende.

Com base nisso tomei coragem, na ousadia dos meus 28 anos recém-cumpridos, para procurar García Márquez em Havana. Fui até o hotel onde ele estava hospedado, o glorioso Riviera, com a ideia de deixar um bilhete pedindo um encontro.

Assim que entrei, ele estava caminhando pelo saguão de entrada. Cheguei perto, me aproximei, García Márquez lembrava do meu nome. Sorriu um sorriso caribenho, o mesmo que carregou pela vida afora. E que continua na minha memória.  

Sua ausência é uma punhalada cotidiana na minha vida.

De Eduardo, o Galeano, nem sei o que dizer.

Não tive alma para ir ao seu velório. Fui à cerimônia de cremação, lá em Montevidéu. Foi a última vez que vi essa cidade tão minha desde a adolescência. Não sei se voltarei alguma vez à morada de outras ausências dolorosas, como as de Mário Benedetti, Juan Carlos Onetti, Alfredo Zitarrosa, Ernesto González Bermejo, Hugo Alfaro, Carlos Quijano.

Nenhuma, porém, como a do meu irmão.

Abril é, sim, o mais cruel dos meses. Ao menos, para mim.

Essa memória, essas lembranças, destroçam a minha alma.

E ainda não falei do que acontece neste abril deste pobre, pobre país destruído...  

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