Um ataque de nervos

Marx talvez esteja sorrindo em seu túmulo, repassando os fatos, diante de uma farsa de terceira e quarta gerações. Na próxima eleição, contudo, é bom registrar, convém escolher melhor nossos candidatos.

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 Karl Marx assinala, com agudo sentido de observação, o fenômeno da repetição na História. Primeiro, afirma ele, pensando em Napoleão Bonaparte, ocorre como tragédia. Em seguida, e aí já com Napoleão III, ao retornar, o faz como farsa. Mais de uma vez, de fato, na passagem das décadas (ou das épocas), assistimos a acontecimentos que nos levam a imaginar filmes que se rebobinam para que possamos rever cenas e atitudes. 

O que se verificou no Brasil em maio passado no governo Jair Bolsonaro, com os três militares e assessores diretos (Walter Braga Neto, Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, Secretaria do Governo, e Augusto Heleno, Gabinete de Segurança Institucional), traça paralelos, não como tragédia, mas como farsa, com situações que historiadores viram transcorrer para espanto de nossos espectadores.  O Presidente se achava enfurecido. Não é difícil colocá-lo numa tela da memória dando socos da mesa e dizendo aos gritos que não toleraria humilhações do Supremo. O assunto dizia respeito a uma decisão, depois não verificada, de obrigá-lo, e aos seus, incluindo filhos, entregar celulares por força de processos em tramitação. 

 Na França do século XVI, ao tempo de Carlos IX, filho de Catarina de Medici, por causa de um ataque de fúria, desencadeou-se o que se chamou de A Noite de São Bartolomeu, um massacre que vitimou o conjunto dos huguenotes que se hospedavam no Louvre. Em nome da paz religiosa, programara-se um casamento entre Henrique de Navarra (líder dos huguenotes) e Marguerite (representando os católicos), filha da Rainha Mãe. Para surpresa geral, alguém realizou um atentado contra o chefe militar dos huguenotes, homem de  prestígio, que, na oportunidade, se feriu no braço. Indignado, Carlos IX quis promover uma investigação. Foi contido pela mãe e pelo irmão, os autores da conspiração. Mais enfurecido ainda, decidiu que, nesse caso, eliminaria de uma vez todos os huguenotes. Foi A Noite de São Bartolomeu. Ataques de nervos e estados de fúria, por parte de mandatários, podem provocar consequências terríveis. 

Felizmente, estamos no lado da farsa – e não da tragédia. Entre nós, o exercício de temperamento de Jair Bolsonaro junto a seus militares no Palácio, traz à mente, antes de qualquer coisa, um romance hispano-americano ou, melhor, um filme de Pedro Almodóvar. O termômetro da fúria desce à condição de uma exibição de mau-humor. Claro que assusta. Nossa democracia é frágil, sujeita a chuvas e trovoadas. Não temos certeza de nada, muito menos da permanência de institutos como justiça e livre exercício da opinião. E o Primeiro Mandatário se elegeu com um gesto de fuzil nos braços, atirando sem pontaria no que lhe aprouvesse. De qualquer forma, a ironia dos entendimentos com os generais na conspiração palaciana, para concluir que não, não era hora de prender os magistrados, examinada a posteriori, se não nos afronta a inteligência, tem gosto de uma comédia pastelão.  Bolsonaro não é Carlos IX, nossos generais nada têm a ver com Cataria de Medici... Nem nos elevamos à condição de Napoleão III. 

Marx talvez esteja sorrindo em seu túmulo, repassando os fatos, diante de uma farsa de terceira e quarta gerações. Na próxima eleição, contudo, é bom registrar, convém escolher melhor nossos candidatos.
 

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