Um manifesto político para todo mundo é um manifesto para ninguém

(Foto: J Gonçalves)
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Entrou em cena mais um manifesto que busca alcançar a unidade de amplos setores da sociedade para defender ou conquistar a democracia. Falo do autointitulado “Estamos Juntos”.

Logicamente, quando se fala em frente, a ideia básica é a de somar forças com algum nível de identificação para combater alguma outra considerada o mal maior. Tomando em conta o que consta no citado texto, quem estaria em condições de assiná-lo e fazer parte da frente sem comprometer sua imagem pública e seus objetivos principais?

Tentando responder a pergunta recém estipulada, vamos procurar avaliar se o tal manifesto poderia ser assumido pela pessoa que ocupa o principal cargo político da nação no momento. Não há dúvidas de que me refiro a Jair Bolsonaro. Vejamos se ele também poderia lançar um manifesto semelhante ou, ao menos, aderir a este já lançado, sem sofrer grandes problemas de imagem junto a suas bases de apoio e sem abdicar de suas metas principais.

Para tornar factível o exercício proposto, listei numericamente os itens conforme eles aparecem no documento divulgado. Vamos, portanto, examinar item a item para ver a que conclusões chegamos quanto a possibilidade de incluir ou não a Bolsonaro.

_Somos cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras e fazemos parte da maioria que defende a vida, a liberdade e a democracia._

Bem, pelo visto, a introdução não vai ser motivo de nenhum impedimento. O que ali está escrito se mostra palatável a todo mundo. Quem é que vai dizer que não defende a vida, a liberdade e a democracia? Portanto, Jair Bolsonaro está incluído.

_1) Somos a maioria e exigimos que nossos representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país._

Em relação ao ponto nº 1, Jair Bolsonaro poderia demonstrar sua adesão sem hesitação, posto que ninguém esclarece o que pode significar isso de “exercer com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária”. Afinal, na opinião dele, o problema com o coronavírus está sendo gerado por governadores, prefeitos e outros aproveitadores, que não querem entender que a melhor maneira de combater as dificuldades é acabando com essa porra de quarentena (desculpem pela linguagem bolsonariana) e fazer a economia funcionar. Portanto, não há nada nesta parte do texto que não possa ser assinado por ele sem constrangimento.

_2) Somos a maioria de brasileiras e brasileiros que apoia a independência dos poderes da República e clamamos que lideranças partidárias, prefeitos, governadores, vereadores, deputados, senadores, procuradores e juízes assumam a responsabilidade de unir a pátria e resgatar nossa identidade como nação._

Já, no tocante ao segundo ponto apresentado, com exceção da referência a fazer parte da maioria, todo o restante poderia muito bem ser assumido por Jair Bolsonaro. Como se trata de palavreado vazio, que não estipula nem precisa o que deve ser feito e nem como, tudo vai depender do entendimento de cada um. Bolsonaro vive se queixando de que os outros poderes estão interferindo em sua área de competência, e está sempre criticando a falta de responsabilidade por parte de deputados, senadores, juízes, etc., os quais parecem não entender a necessidade de unir a pátria e resgatar nossa identidade como nação nas bases por ele propostas. Para Bolsonaro, a defesa da unidade e a identidade da pátria se fazem estreitando os laços de dependência com os EUA. Ou seja, não há nada que vá contra o texto.

_3) Somos mais de dois terços da população do Brasil e invocamos que partidos, seus líderes e candidatos agora deixem de lado projetos individuais de poder em favor de um projeto comum de país._

No terceiro item abordado pelo manifesto, Jair Bolsonaro poderia concordar com quase tudo, bastando apenas substituir os “dois terços” por “um terço”. No mais, tanto ele quanto qualquer outra pessoa escolhida aleatoriamente numa das ruas de qualquer cidade do país poderiam se dizer plenamente identificados com aquilo. Como ninguém especifica o que é defender interesses pessoais e o que significa ter projeto de país, por que Bolsonaro não poderia assinar?

_4) Somos muitos, estamos juntos, e formamos uma frente ampla e diversa, suprapartidária, que valoriza a política e trabalha para que a sociedade responda de maneira mais madura, consciente e eficaz aos crimes e desmandos de qualquer governo._

Com referência ao quarto ponto, a única coisa que deveria ser feita é eliminar a menção à tal “frente ampla e diversa”. Com o restante, Bolsonaro poderia se sentir plenamente à vontade. Não há nada ali que ele não pudesse interpretar da maneira como lhe interessasse.

_5) Como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia._

Ao abordar a quinta proposição, bastaria eliminar a referência desnecessária às “Diretas Já” e tudo ficaria perfeito. A bem da verdade, Bolsonaro adoraria encampar aquela parte que fala da “defesa da lei e da ordem”. Parece mesmo que foi algo escrito especialmente para ele. E, no que toca à defesa do meio ambiente e defesa da economia, ele também não teria porque se preocupar. Ninguém sabe o que se quer dizer por defesa do meio ambiente, então, por que não entender que expandir a monocultura e o avanço do gado melhora a situação ambiental? Quanto a defender a economia, o que é que o Paulo Guedes está fazendo ao impedir que o dinheiro público seja usado para sustentar a educação e a saúde de milhões e milhões de “vagabundos” que prejudicam o bom funcionamento dos bancos?

_6) Defendemos uma administração pública reverente à Constituição, audaz no combate à corrupção e à desigualdade, verdadeiramente comprometida com a educação, a segurança e a saúde da população. Defendemos um país mais desenvolvido, mais feliz e mais justo._

O sexto item parece que vem a calhar para Bolsonaro. Bolsonaro foi eleito dizendo que iria acabar com a corrupção. Ele, seus filhos e seus amigos sempre realçaram durante a campanha eleitoral a qualidade de serem combatentes contra a corrupção. O fato de que Moro esteve junto a ele por mais de um ano e quatro meses deveria ser mais do que suficiente para eliminar dúvidas quanto a seu direito a fazer parte do manifesto.

_7) Temos ideias e opiniões diferentes, mas comungamos dos mesmos princípios éticos e democráticos. Queremos combater o ódio e a apatia com afeto, informação, união e esperança._

O sétimo, e último, ponto do manifesto também poderia ser tranquilamente tomado por Bolsonaro como seu. O que é essa história de compromissos éticos e democráticos? Nada que não pudesse ser endossado por Bolsonaro. Quem sempre se apresentou como o campeão da moral, da ética e dos bons costumes, além de defensor da família, usando sempre as redes sociais para divulgar informação com afeto e amor? Não é assim que Bolsonaro se apresentava pelo Whatsapp junto ao público mais humilde? E quanto a esse negócio de ódio, Bolsonaro sempre tratou de deixar claro que isso é coisa de comunistas, coisa do PT.

_ Vamos #JUNTOS sonhar e fazer um Brasil que nos traga de volta a alegria e o orgulho de ser brasileiro._

O fechamento do manifesto nem precisa ser diretamente relacionado com Bolsonaro. É algo tão genérico e indefinido que serviria para qualquer ser vivo do planeta Terra ou de Marte. Quem poderia, em sã consciência, se dizer contrário ao que ali está escrito?

Bem, em vista do que acabei de expor, a conclusão que extraio após a leitura do manifesto Estamos Juntos é que ele serve para toda e qualquer pessoa, independentemente de sua posição social, política, étnica, religiosa ou racial, bastando ser brasileiro. Bolsonaro está plenamente apto para assiná-lo, assim como estaria Brilhante Ustra, caso ainda estivesse por aqui. Resumindo, serve para todo mundo ou, em outras palavras, não serve para ninguém.

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