Um Nobel se levanta contra o ajuste de Levy

Entrevistado pelo colunista Paulo Moreira Leite para o programa Espaço Público, economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, critica o ajuste econômico e defende o papel do BNDES. Lembra que as taxas de juros oferecidas pelo banco a investimentos produtivos estão em linha com o mercado internacional – e que o verdadeiro subsídio se encontra nas taxas de juros que o Banco Central paga ao mercado financeiro, ajudando a engordar investimentos especulativos;  "Numa análise sob medida para um país onde a política passou a ser contaminada pelo ódio, Stiglitz diz que um dos problemas do mundo contemporâneo é ser dirigido por uma elite sem valores solidários e sem sentimento de culpa para prejudicar a maioria da população", diz PML

Entrevistado pelo colunista Paulo Moreira Leite para o programa Espaço Público, economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, critica o ajuste econômico e defende o papel do BNDES. Lembra que as taxas de juros oferecidas pelo banco a investimentos produtivos estão em linha com o mercado internacional – e que o verdadeiro subsídio se encontra nas taxas de juros que o Banco Central paga ao mercado financeiro, ajudando a engordar investimentos especulativos;  "Numa análise sob medida para um país onde a política passou a ser contaminada pelo ódio, Stiglitz diz que um dos problemas do mundo contemporâneo é ser dirigido por uma elite sem valores solidários e sem sentimento de culpa para prejudicar a maioria da população", diz PML
Entrevistado pelo colunista Paulo Moreira Leite para o programa Espaço Público, economista Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, critica o ajuste econômico e defende o papel do BNDES. Lembra que as taxas de juros oferecidas pelo banco a investimentos produtivos estão em linha com o mercado internacional – e que o verdadeiro subsídio se encontra nas taxas de juros que o Banco Central paga ao mercado financeiro, ajudando a engordar investimentos especulativos;  "Numa análise sob medida para um país onde a política passou a ser contaminada pelo ódio, Stiglitz diz que um dos problemas do mundo contemporâneo é ser dirigido por uma elite sem valores solidários e sem sentimento de culpa para prejudicar a maioria da população", diz PML (Foto: Paulo Moreira Leite)

A partir das 23 horas desta terça-feira, no programa Espaço Público, na TV Brasil, você poderá assistir a uma entrevista de uma hora do economista Joseph Stiglitz.

Prêmio Nobel de Economia em 2001, chefe da Assessoria Econômica da Casa Branca durante o primeiro mandato de Bill Clinton na Casa Branca, na década de 1990, Stiglitz dedicou a vida a demonstrar cientificamente as falhas estruturais (o nome técnico é “ assimetrias”) da chamada economia de mercado. É um adversário competente dos ajustes estruturais e das políticas de austeridade que têm contribuído para reduzir conquistas históricas dos trabalhadores em anos recentes e se revelam um entrave à recuperação do crescimento e à criação de empregos.

Criador da noção política de que vivemos num mundo onde 99% trabalham para satisfazer 1%, que animou vários protestos de rua dos últimos anos, é um dos mais aplicados estudiosos a lembrar a importância da igualdade entre cidadãos – não apenas como princípio político natural das democracias, mas como condição para o bom funcionamento da economia.   

Você acertou se já percebeu que o professor tem críticas duras à política econômica conduzida por Dilma Rousseff e Joaquim Levy.

Na entrevista, que fiz em parceria com Florestan Fernandes Junior, Stiglitz faz isso com a autoridade de quem foi um aliado importante da orientação assumida pela economia brasileira na fase anterior a 2015. Elogia os programas de distribuição de renda e incentivo ao crescimento mantidos e até ampliados depois do colapso de 2008/2009.

Com um pragmatismo coerente e honesto, o professor defende a intervenção do Estado na economia, lembrando sua importância decisiva no financiamento de investimentos de longo prazo que sustentam o crescimento e os grandes avanços científicos e tecnológicos de nosso tempo, inclusive nos Estados Unidos.

Teve a mesma postura quando pedi sua opinião sobre o BNDES, o banco de desenvolvimento brasileiro que é alvo de admiração permanente em muitos centros acadêmicos fora do país, e vítima de suspeitas permanentes lançadas por um espírito reacionário que se disfarça pelas máscaras do moralismo barato.

O professor, que conhece bem o assunto, chegou a fazer uma ironia bem colocada com a tese de que o BNDES subsidia empresas supostamente amigas do governo. Mostrou que na vida real o grande subsídio oferecido pelo setor público ao setor privado, no Brasil, não se encontra nas taxas de juro oferecidas pelo banco a quem faz investimentos de caráter produtivos. Isso porque seus custos estão em linha com o mercado internacional, um pouco para cima, um pouco para baixo. O subsídio se encontra nas taxas de juros definidas pelo Banco Central, que enriquecem artificialmente quem especula com títulos públicos. É aí que o cidadão brasileiro é levado a pagar -- para poucos beneficiários -- as mais altas taxas de juro planeta. Stiglitz deixou claro que ali sim se pode falar em favor amigo, que abre rombos bilionários nas contas do Estado, sugerindo que é estranho que esse tipo de ajuda não seja questionado. Curto, direto, impossível de responder.    

Perguntado sobre regras do imposto de renda brasileiro que garantem isenção total à minoria de milionários-felizardos que não entregam um centavo sequer de seus lucros e dividendos ao Estado, deixando a carga dos impostos aos pobres e a classe média, reagiu com respostas indignadas.

Numa conjuntura onde a política brasileira encontra-se contaminada pelo ódio, Stiglitz comenta uma das ideias de O Preço da Desigualdade, um de seus livros mais importantes. Ele está convencido de que um dos traços principais do mundo contemporâneo, que ajuda a entender a caráter socialmente cruel e politicamente ruinoso de boa parte das decisões sobre a condução da economia encontra-se na falta de sentimento de culpa por parte de elites que tem controle sobre as decisões do Estado e explica por que.

Abandonando regras de convívio e mesmo solidariedade que permitiram a construção de sociedades desiguais mas relativamente equilibradas ao longo do século XX, esses cidadãos tornaram-se capazes de tomar medidas que podem beneficiar exclusivamente seus próprios interesses, mas comprometem o futuro da maioria dos contemporâneos, por várias gerações. O resultado é a criação de um mundo de sobrevivência difícil pela falta de valores comuns, onde a deslealdade e a falta de transparência são uma regra constante.    

É um raciocínio muito apropriado para se refletir sobre o Brasil de 2015. Vivemos um momento no qual a vontade de destruir um adversário político que produziu inegáveis melhorias na condição da vida da maioria da população transformou-se numa campanha permanente contra o principal elemento de coesão da  sociedade brasileira, o regime democrático. Sem culpa.

Deu para entender?

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