Um novo pacto "por cima" (ou entre elites)?

"O bolsonarismo costura uma aliança estratégica entre militarismo e neopentecostalismo . Preparam uma 'guerra santa' para 'redimir a cultura e a família judaico-cristã das garras do comunismo chinês''", constata o colunista Robson Sávio Reis Souza

(Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)
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Tenho observado atentamente a cena política nos últimos dias. Movimentos no STF, parte da mídia empresarial, algumas corporações poderosas... 

Nesse 1° de maio, aquela transmissão, via redes sociais e TVT,  do dia do trabalhador para tentar agradar a gregos e troianos no "universo" trabalhista, com repercussão a noite numa longa reportagem global, no JN, a mostrar, inclusive e excepcionalmente, um perigosíssimo sapo barbudo e comunista que inventou a corrupção no Brasil e em toda a via láctea.

As lideranças do mundo do trabalho (e alguns penetras escolhidos seletivamente, como FHC) pareceriam sinalizar às elites nacionais que um pacto (para apear o trainee de ditador) é melhor que uma ruptura...

Renúncia... impeachment negociado...

Um rápido olhar no passado mostra que a pactuação "por cima" sempre foi a saída à brasileira em momentos de grave crise política: melhor acomodar, mesmo que temporariamente, todos os interesses que enfrentar as consequências de rupturas radicais QUE, DOLOROSAS PARA TODOS, PODEM MUDAR SUBSTANTIVAMENTE A ESTRUTURA HISTORICAMENTE VIOLENTA E EXCLUDENTE da sociedade brasileira.

Foi assim na proclamação da república; com Getúlio; no golpe civil-militar e no processo de abertura democrática. (Em certa medida, até o golpe contra Dilma teve negociação entre as elites política e judiciária. Envergonhados, parte dos golpistas aceitaram não retirar os diretos políticos da ex-presidenta).

Em todos esses episódios há um rosário de argumentos a justificarem as pactuações.

Alguém poderá dizer: mas, nesse momento dramático da vida nacional -- para nos livrarmos do perverso que hoje comanda o país --, vale qualquer negócio.

Se é assim, há outras saídas para além da pactuação a acomodar interesses totalmente opostos.

É forçoso constatar que, de imediato, não há base social progressista para processos revolucionários de baixo para cima.

Detalhe: falta combinar com a turma do outro lado. Afinal, o bolsonarismo costura uma aliança estratégica entre militarismo (bases das polícias e FFAA) e neopentecostalismo (evangélico e católico). Preparam uma "guerra santa" para "redimir a cultura e a família judaico-cristã das garras do comunismo chinês". Uma narrativa marcada por emoção, apelo à religiosidade, sentimentos em relação a valores familiares. Nada de racionalidade. Mas, discurso altamente mobilizador.

Lembremos: a união entre militarismo e religião -- que não trouxe benefícios à humanidade em nenhuma ocasião -- também é conhecida nessas plagas. Afinal, 1964 é logo ali.

No início do governo Bolsonaro, neste Brasil 247, chamávamos a atenção sobre as relações entre religião, militarismo e elites judiciárias na assunção e possível sustentação do governo (veja aqui). 

Veremos os próximos capítulos...

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