Um país classe C

"Estamos ficando classe C em todos os setores, sem nenhuma ofensa a quem faz parte dela, mas levando em consideração o pouco que têm", escreve o cartunista Miguel Paiva

(Foto: Miguel Paiva)
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Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia 

Bem curiosa essa avaliação que o estudo do Marcelo Neri faz sobre o empobrecimento do brasileiro. Viramos uma das maiores classes C do mundo. Verdade que parte da classe D subiu para a C, mas não como resultado de melhorias sociais ou crescimento econômico como aconteceu no período dos governos Lula e Dilma. Esse novo patamar foi alcançado graças ao auxílio emergencial criado por conta da pandemia. Não fazia parte da política econômica do Guedes e Bolsonaro acabou gostando demais de dar dinheiro para o povo. Sua popularidade deu um pequeno salto para cima e a política de Guedes se jogou do precipício em total depressão econômica forçada pelo novo populismo do governo.

Como não existe passe de mágica na economia, mas sim vontade política e projetos sociais diferentes desses que temos, a classe C momentaneamente cresceu e parte dela veio de uma queda da classe B que acabou sendo vítima maior não só da crise como da falência das soluções neoliberais do Guedes e sua turma. É bem verdade que esse empobrecimento da classe média favorece um pouco a teoria neoliberal. Quanto mais pobres sob controle existirem mais ricos dominarão o mercado e estabelecerão este falso equilíbrio entre poder econômico e força de trabalho que eles querem cada vez mais desequilibrado. 

A falsa teoria de que com mais empregos atinge-se uma melhor condição social sem ameaçar os ganhos de capital nunca deu certo pra valer. Em alguns lugares, como o Chile, conseguiu sobreviver acumulando um prejuízo social que acabou eclodindo nas últimas manifestações populares. Só não avançou porque a pandemia manteve em casa quem podia de fato pressionar por uma transformação. Na Argentina deu tempo e Macri não foi reeleito, mas aqui no Brasil o fracasso subiu à cabeça de todos do governo. 

Diante de um resultado pífio que só acumula uma reforma da previdência manca e já caduca, o governo só coleciona decretos e medidas autoritárias, totalmente sem propósitos, que servem, porém, para passar todas as boiadas que eles necessitam. A classe C aumentando desse jeito, mesmo com uma parte da classe D subindo temporariamente, pode interessar a essa gente. A falta de instrução, de atenção, de dedicação, de programas sociais e educacionais faz da classe D um protótipo da ascensão social desvairada que assola o nosso país. É aquela velha história de certos grupos sociais que preferem ambicionar a classe acima que eles nunca atingirão do que se aliar com o vizinho para tentar mudar as coisas. De qualquer forma é uma classe C de respeito que logo que os mais pobres perceberem que essa mudança de endereço social não vai durar muito pode ser um elemento de desequilíbrio forte para a política já fracassada do governo. Se o governo conseguir chegar até 2022 esse pode ser um cenário nada favorável a Bolsonaro e sua turma. É difícil imaginar que uma classe social tão vasta consiga mudar de opinião em tão pouco tempo e apesar de a grande imprensa, digo o Globo, enfatizar que os pobres da classe D passaram para a classe C esse empobrecimento do país faz sentido. Estamos ficando classe C em todos os setores, sem nenhuma ofensa a quem faz parte dela, mas levando em consideração o pouco que têm. A cultura se apaga junto com os inúmeros artistas que morrem, o meio ambiente queima numa enorme liquidação do estado Brasileiro que inclui a Petrobrás e os trabalhadores seguem à deriva sem saber onde buscar apoio. Uma classe C deste tamanho e mais a uberização do país podem nos transformar num país sem identidade que tenta sobreviver a qualquer custo e de modo desvairado. Também pode significar uma efervescência social próxima da ebulição e que já se manifesta na violência, nas fobias, no preconceito e no fascismo estrutural.

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