Um país que avança rumo à pré-modernidade

Com isso, no Brasil governado por terraplanistas, criacionistas, o sistema educacional, científico e tecnológico avança a passos largos rumo à pré-modernidade

Benedito Guimarães Aguiar Neto
Benedito Guimarães Aguiar Neto (Foto: Mackenzie)

No dia 26 de janeiro, o Trilhas da Democracia recebeu duas professoras do Departamento e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco para dialogarem sobre as relações de poder na modernidade capitalista: Maria do Socorro Ferraz e Maria do Socorro Abreu e Lima.

Alguns dias antes, mais exatamente no dia 24 de janeiro, o reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Benedito Guimarães Aguiar Neto, havia sido nomeado por Bolsonaro presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.

Em matéria do jornal O Globo, do mesmo dia 24, aparece transcrito um trecho de palestra dada pelo acima citado, no mês de outubro do ano passado, que, ao que tudo leva a crer, parece indicar que o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, estará “muito bem acompanhado” nas definições relativas ao futuro da pós-graduação do país, enquanto não forem substituídos (um ou outro) por nomes que estejam mais afinados àquilo que a ciência moderna vem produzindo desde o Renascimento.

Disse o novo presidente da CAPES: “queremos colocar um contraponto à teoria da evolução e disseminar que a ideia de um design inteligente pode estar presente a partir da educação básica, de uma maneira que podemos, com argumentos científicos, discutir o criacionismo”.

 Imediatamente, o Núcleo de Pesquisa sobre Evolução Biológica da Universidade de São Paulo manifestou-se em nota oficial repudiando as intenções de Benedito Guimarães de introduzir o criacionismo em disciplinas a partir da educação básica.

Parece inverossímil que algo do gênero esteja vindo dos principais dirigentes responsáveis pela construção de políticas públicas para a educação nacional nos próximos anos, mas é verdade - a mais dura e incrível verdade. Temos à frente do sistema educacional público federal, um conjunto de indivíduos responsáveis pela destruição daquilo que foi construído no Brasil nos últimos 50 anos. Como se não bastasse a existência de defensores do terraplanismo espalhados por vários ministérios (isso em um governo no qual o ministro da Ciência e Tecnologia teve a raríssima oportunidade de comprovar, na condição de astronauta, que a Terra é, de fato, redonda!), agora temos um criacionista encravado na instituição diretamente responsável pela avaliação dos programas de pós-graduação no país – a CAPES.

Para quem vem acompanhando há décadas os acirradíssimos debates travados no mundo acadêmico em torno da pós-modernidade, parece absolutamente no sense dar-se conta de que precisamos (modernos e pós-modernos, discípulos de Habermas e Foucault, seguidores de Lukács e Boaventura de Sousa Santos) retornar às polêmicas envolvendo os dogmas construídos durante a Idade Média. 

Com isso, no Brasil governado por terraplanistas, criacionistas (e astronautas que enveredaram pela venda de travesseiros da NASA – sic), o sistema educacional, científico e tecnológico avança a passos largos rumo à pré-modernidade.

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