Um presidente refém

Um presidente refém
Um presidente refém (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Depois de ocupar os cargos principais do novo governo, surge a denúncia contra o presidente eleito. Pergunta-se: já se tinha essa denúncia e não foi feita publicamente, para permitir a derrota do candidato do PT? Ou foi feita somente agora para permitir a vitória do eleito, mas mantê-lo como presidente fraco, refém dos três eixos que constituem o novo governo: militares, equipe econômica e Lava Jato?

Os três eixos permitem, por um lado, manter e radicalizar o modelo neoliberal de destruição do Estado brasileiro e dos direitos da massa da população. Por outro, a intensificado do processo de judicialização da política e do "lawfare", pela montagem de um Estado policial de perseguição política da oposição, que inclui reformas do sistema eleitoral, que blindem o poder da direita e dificultem ainda mais um retorno da esquerda ao governo. Em terceiro lugar, assentar o governo numa espécie de partido militar, que ocupa cargos chaves e que atua no lugar do partido do presidente, sem consistência, nem unidade interna para ser o ponto de apoio do novo governo.

A direita precisa de um candidato suficientemente forte, para ganhar as eleições, mas suficientemente fraco para não se autonomizar em relação ao grande empresariado, aos meios de comunicação, ao Judiciário e ao próprio Congresso, para que todas essas instâncias possam impor seus interesses e brecar tentativas de autonomização de um presidente forte de apoio popular. É o caso, desde agora, da aprovação da reforma da previdência, contra a qual Bolsonazi votou sempre e ainda levanta objeções agora. E pode ser o caso de medidas muito radicais do ministro da economia.

A denúncia surgida logo após as eleições, antes ainda da posse do novo governo, serve para enfraquecer a imagem do eleito, colocar-lhe limites, desgastando sua imagem pública e dificultando a coesão da sua base parlamentar. A denúncia veio do Judiciário, os meios de comunicação lhe deram eco, foi gerada assim a primeira crise do novo governo, antes ainda da posse, como um anúncio de que ele, desde o começo, vai ser refém dessas formas de sustentação do próprio governo.

Aos eixos fundamentais da direita interessa a continuidade e o aprofundamento do modelo neoliberal, com a reforma da previdência, a sequência dos processos de privatização, de desregulamentação por parte do governo, entre outros objetivos. A equipe econômica conta com o apoio unificado da direita e só poderia ter obstáculos da parte do próprio presidente eleito, que já entrou em alguns conflitos com o ministro da economia, que busca sustentação no grande empresariado e na mídia, para evitar surpresas advindas de algumas declarações inesperadas do presidente eleito.

O Judiciário se ocupará, articulado ministros do governo, de construir a blindagem do governo e do Estado, que dificultem uma nova vitória da esquerda. Pela perseguição jurídica e policial de líderes e de partidos da esquerda, assim como pela reforma do sistema eleitoral, provavelmente com o fim do voto obrigatória, com algum tipo de voto distrital e de alguma forma de parlamentarismo, assim como de outras medidas, já previsíveis nas declaração do eleito de reformas que tratem de impedir o retorno do PT ao governo.

Os militares tratarão de encontrar uma forma de sua presença política adequada à guerra híbrida. A declaração do chefe do Exército, para justificar suas declarações na véspera da decisão do STF sobre o habeas corpus de Lula, alegando que, se a decisão fosse contrária às suas posições, o processo "sairia do controle". Confissão de que o processo está sob controle militar e de que, a liberdade do Lula e sua provável vitória eleitoral, significariam que o processo sairia do controle militar. Agora se trata de traduzir, contando com o Judiciário acovardado – veja-se a incrível declaração do Toffoli, de que já é hora do Judiciário baixar seu perfil, quando as ameaças à democracia são maiores do que nunca, como o próprio STF afirmou, ao rejeitar as tentativas de violação aberta da autonomia universitária – com uma ação de sistematização do controle militar, desde dentro do próprio governo.

Os meios de comunicação terão papel importante de fazer do novo eleito refém, ao combinar apoio e ecos das denúncias, mostrando que é eixo fundamental de apoio, mas que manterá uma relativa autonomia, para garantir a realização dos objetivos de fundo do novo governo – manutenção do modelo neoliberal e construção da blindagem do governo e do Estado contra as ameaças da esquerda.

Entre algumas certezas e muitas incertezas – não se sabe até quando personagens folclóricos, como os ministros da educação e das relações exteriores, assim como a secretaria de assuntos da mulher permanecerão no governo -, o certo é que 2019 deve se dividir entre meses iniciais de ofensiva do governo no plano econômico – privatização dos bancos públicos, entre outras medidas, e de repressão, direta e indireta, dos partidos e líderes da esquerda, assim como dos movimentos sociais e das instâncias da educação pública. Conforme os efeitos da continuidade da política econômica for desgastando a base de apoio do governo – como aconteceu rapidamente com os governos do Temer e do Macri -, e as denúncias de corrupção do governo, assim como a resistência democrática se reativar, o governo tenderá a ficar mais isolado e a apelar mais diretamente para medidas repressivas,

A lua de mel do novo governo deverá ser curta, prenunciando um ano de muitas mobilizações de setores determinados da população, aferrados diretamente por medidas do governo – previdência, Escola sem Partido, privatização dos bancos públicos, congelamento do salários, - e das ações de rejeição do caráter autoritário do novo presidente e do seu governo. Será um ano de turbulências, ao final do qual se poderá avaliar as perspectivas futuras do Brasil.

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