Um semestre de contradições à Bolsonaro

Até agora, sua nova política tem sido atualizar a tradução da dialética entre a guerra e a paz. Esse breve exercício de conjuntura tenta explorar as engrenagens de um bloco político exitoso em impor significativa derrota a esquerda

Um semestre de contradições à Bolsonaro
Um semestre de contradições à Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)
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Captar a forma assumida pela esfera pública na era das redes sociais constitui grande desafio prático e intelectual. O sentido de urgência transformou a política brasileira num salve-se quem puder desde as jornadas de junho em 2013. Afinal, não é tentador substituir a análise dos movimentos do real por bem-humorados memes quando tudo vira textão?

Mas agora temos um Bolsonaro atravessando o primeiro semestre, e não soa razoável imaginar que possamos imputar-lhe precoce e definitiva derrota. O #26M atestou base virtual fiel conquanto reticente a mobilizar-se massivamente nas ruas fora de São Paulo (os presentes em Copacabana não lotavam um Maracanã!). Mas o aprendizado do manejo profissional da máquina estatal tende à ampliação de suas tropas.

O campo bolsonarista aposta no caos semi-programado, visando à manutenção da liderança moral através de dupla movimentação, dentro e fora da ordem, e no limiar de ambas: arma (literalmente) as suas bases e as convoca às ruas. Sendo refém de escassa tradição partidário-organizacional, projeta popularidade via aparições em programas de auditório, reforçando o lado carismático de sua brutalidade.

Até agora, sua nova política tem sido atualizar a tradução da dialética entre a guerra e a paz. Esse breve exercício de conjuntura tenta explorar as engrenagens de um bloco político exitoso em impor significativa derrota a esquerda. Até quando conseguirá manejar sua fissuras e lealdades fragilizadas? Enquanto cada setor enfrenta dificuldades ao tentar apresentar-se como portador do interesse nacional, as ruas revalorizam-se.

Atores-chave e suas agendas:

Enquanto o bloco técnico tende a oferecer respostas práticas aos problemas logístico- infraestruturais associados à máquina estatal, tornam-se públicos os embates nos temas mais caros ao bolsonarismo: educação e relações internacionais. O isolamento de Olavo de Carvalho e sua ascendência direta nessas pastas depois da humilhação pública imposta aos militares, se confirmarão como tendência anunciada por diversos analistas e acentuada pela autocensura à qual o guru da Virgínia se propôs?

A segunda contradição motriz reside na esfera econômica e opõe Rodrigo Maia a Paulo Guedes no tema da reforma da previdência. Ambos são expressões do capital financeiro: o primeiro vinculado ao conservadorismo político nacional, reticente diante de possível suicídio eleitoral; o segundo traduz cristalinamente o interesse de setores estrangeiros que disputam um fundo público bilionário e a entrada no mercado privado da aposentadoria.

Maia e Dias Toffoli conformam o bloco jurídico-parlamentar como resposta institucional do conservadorismo a ameaça bolsonarista. Assim, Congresso e STF transformam-se em entraves ao desejo posto em marcha do Brasil a libertar-se – e o pixuleco de Maia é a materialização do inimigo. Aqui , talvez mais do que na economia, a contradição desenvolva-se como antagonismo. O Botafogo comanda o centrão, mas tornado válvula da governabilidade esvazia a retórica antissitêmica.

Bolsonaro conseguiu ganhar tempo assumindo o dúbio e inovador papel de presidente-outsider. Mas qual a potência de radicalização de seu movimento na medida em que torna-se governo? Uma sinalização pode nos ajudar. Quando escândalos questionaram sua permanência no cargo, movimentou-se duplamente: com o decreto-lei da liberação das armas e a divulgação de uma carta, onde se coloca ameaçado pelo sistema.

A recomposição do centro político

A radicalização política massifica-se em 2013 com a implosão do centro, que desloca-se à direita. Desde então, a esquerda obteve uma única grande vitória, ainda assim breve e eleitoral, em 2014 - mesmo ano em que os liberais romperiam com a democracia, questionando através de seu candidato, Aécio Neves, o resultado das urnas. Amadurecidas as condições para o impeachmeant em 2016, o combalido acordo político de 1988 seria fuzilado por Bolsonaro três décadas depois.

Sob ataque, o status quo brasileiro sinaliza titubeante deslocamento à esquerda para frear o bolsonarismo. O bloco jurídico-parlamentar – que conta também com Renam Calheiros e a ala "garantista" do STF - ao flertar com a liberdade de Lula, retirando-lhe a mordaça, oscila entre a recomposição do centro político e reforma a previdência a toque de caixa.

O gelatinoso centrão flerta com a oposição para fazer-se situação sem associar-se ao bolsonarismo. Qual a sobrevida dessa tática? Nenhum dos campos está em posição confortável. Se o centrão tem mais mídia, Bolsonaro tem mais povo, e os testes para firmar um compromisso tem-se prolongado, irritando o setor rentista, o chamado mercado, tão poderoso na incapacidade de mitigar tensões sociais .

A disputa das ruas
O bolsonarismo como ideia-força irá consolidar-se no imaginário político brasileiro? Sua primeira convocatória no #26M reuniu milhares mas deixou muito a desejar se comparada aos milhões no #15M. Que respostas virão às próximas convocações? A esquerda, ainda sob efeito do entusiasmo catártico, aposta num #30M ainda maior.

Mas ao colocar no #30M o sentido de prenúncio da Greve Geral convocada para o #14J – início da Copa América! – já enfrenta resistências de parte das camadas médias, o grosso da base que sai às ruas em defesa da educação; setores que , por inúmeras e mutantes razões, pouco se dispõem a assumir publicamente um compromisso grevista, menos palatável pois síntese de enfrentamento aberto.

Uma novíssima juventude pós-2013, secundarista e caloura, estreou nas ruas no #15M. Sua energia mobilizadora é o antídoto do desânimo que sucessivas derrotas impuseram ao campo progressista na última quadratura histórica brasileira. Sob direção acertada, sua rebeldia e sagacidade criativa tornam-se invencíveis.

(*Agradeço a Cunca Bocayuva pela gentil conversa que deságua nesse texto)

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