Uma ficção sobre realidades e sonhos

Tive um desses sonhos onde tudo é movediço. Tudo é confuso. Só havia uma coisa fixa, era a claque, aquelas trilhas de risada que há em programas humorísticos de TV, aquelas gargalhadas de fundo. Sabe? -Eu sou inocente! Risos. Meu sonho começou assim, com uma voz de fundo e as claques

Uma ficção sobre realidades e sonhos
Uma ficção sobre realidades e sonhos

Ah, esses sonhos!
A gente acorda sem entender nada.

Tive um desses sonhos onde tudo é movediço. Tudo é confuso.
Só havia uma coisa fixa, era a claque, aquelas trilhas de risada que há em programas humorísticos de TV, aquelas gargalhadas de fundo. Sabe?

-Eu sou inocente!
Risos.
Meu sonho começou assim, com uma voz de fundo e as claques.
Eu era um policial, estava em frente ao espelho, me preparando para sair ao trabalho.
Estava orgulhoso de minha farda, minha arma, meu cinto de utilidades com cassetete, spray de pimenta, cartucheira...
Eu ria lembrando do moleque que, na noite anterior berrava, "eu sou inocente"...
Súbito, eu estava em uma manifestação, cassetete em punho e eufórico com a possibilidade de acertar aquele vândalo cafajeste que corria em minha direção. Ele se aproximou sem me ver e desfechei um belíssimo arremate de cassetete, como numa partida de basebol, que o acertou na testa. Risos da plateia!
Senti tudo girar, a testa latejando e o gosto de sangue em minha boca, cai ao chão balbuciando confuso: eu sou inocente...
O carro do resgate chega com a sirene ligada, puxo a maca e com meu parceiro vamos atender o rapaz com graves hematomas na testa. Olho com ar de censura ao guarda que feriu o rapaz e grito: assassino!
Junto a um grupo de pessoas gritávamos em coro: "vai acabar, vai acabar, eu quero o fim da polícia militar".
Vejo o carro do resgate sair de sirene aberta.
Um grupo de soldados aparece disparando com balas de borracha.
Antes de sair correndo em direção contrária atiro uma pedra em direção aos policiais. A pedra me atinge a orelha e o sangue escorre pela minha farda. Fico furioso e corro atrás do manifestante que me atingiu.
Tropeço na calçada e caio.
Um grupo de policiais me rodeia e começa a desferir golpes de cassetetes e chutes. Consigo levantar cambaleando e corro, descendo a rua da Consolação. Risos de claque.
Chego ao final da rua e entro em uma fila enorme. Pergunto: "Prá que é essa fila?". "É fila do seguro desemprego, tem 14 milhões na sua frente", respondem.
Um carro para e o passageiro grita: "Vagabundos. Mamadores das tetas do governo". Acelero e saio em disparada, a população revoltada me xingando enquanto sumo no final da rua. Apenas um dos que estavam na fila ainda corre esbravejando atrás do carro. Sinto-me cansado e vejo o carro sumir depressa. Risos ao fundo.
Caminho sem direção.
No quintal de uma casa vejo um celular caído no chão. Abro o portão e entro.
Escondido atrás de um muro eu me vejo entrando no quintal. Surge mais duas pessoas que se juntam a mim e nós três seguramos o intruso. Eu, com um ferro em brasa na mão, tatuo palavras ofensivas na testa do vagabundo.
Sinto uma dor horrível e grito.
Uma viatura de polícia para em frente ao portão. Corro e consigo fugir, assustado.
Paro em um bar. Estou com fome, peço uma coxinha. "Coxinha", grita um senhor sentado ao fundo do bar. Ele tem uma bíblia na mão e veste camiseta da CBF. "Mortadela", respondo, também em grito. Risos da claque.
Um menor de rua me puxa a camisa pedindo algo para comer. Dou-lhe um lanche de mortadela e uma coxinha.
Obrigado, eu digo.
Meus pés estão descalços e frios, mas, satisfeito, engulo o lanche e a coxinha.
Caminho devagar, chego à Cracolândia, um homem do Serviço Social me aborda.
- Onde você mora? Pergunto, e o pivete corre em disparada.
Atrás de mim, uma multidão avança sobre os moradores de rua e os viciados.
Eu, com uma marreta em mãos, derrubo os muros de uma casa pobre.
Corro assustado, salvo meu cachimbo de craque, e fujo com a casa desabando sobre mim. Com a marreta eu ameaço o homem que corre com o cachimbo de craque em suas mãos.
Eu grito: Viva o prefeito! E uma turba furiosa avança sobre nós, com suas bandeiras vermelhas em punho. Risos de fundo.
Uma voz anuncia meu nome: Fulano de tal. Risos altos, gargalhadas.
Caminho por um corredor de pedras, num jardim bonito. Um portão de madeira se abre, a forte luz cai sobre mim. Os risos de fundo misturam-se com palmas, estou no palco do Big Brother Brasil.
A plateia é formada por ricos homens gordos, ternos caros e charutos cubanos na boca, sorrindo gostosamente e debochados, todos levantam lentamente e saem em seus carrões importados.
Sabendo da lógica que moveu meu sonho até aqui, sei que logo estarei no lugar de um desses magnatas, dirigindo um big carrão.
Espero. Mas, nada acontece.
Continuo alí no palco, o auditório quase vazio.
Não virei burguês. O sonho falhou?
Pedro Bial começa a declamar um daqueles seu poemas e acordo assustado.
Ufa! Meu mecanismo de defesa me salvou.

Já acordado e confuso com esse sonho pus-me a refletir sobre seu significado.
Depois de muito matutar descobri. Eu tinha que jogar no bicho.

Na esquina de casa tem um daqueles apontadores do jogo do bicho, um daqueles vagabundos que ao invés de trabalhar preferem ficar o dia inteiro anotando números em um bloquinho. O típico brasileiro acomodado, sabe?
Fui lá.
Ao dobrar a esquina eu perguntei ao cara que vinha em minha direção, "vai apostar quanto?" e anotei os números no meu bloquinho.

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