Uma ponte para o inferno

Se nenhum fato extraordinário acontecer de inesperado, frustrando os planos tucanos, Temer vai continuar construindo a sua "Ponte para o Futuro", que FHC classificou de "pinguela" e os trabalhadores já estão chamando de "Ponte para o inferno"

Michel Temer durante evento no Palácio do Planalto. 14/7/2016. REUTERS/Ueslei Marcelino
Michel Temer durante evento no Palácio do Planalto. 14/7/2016. REUTERS/Ueslei Marcelino (Foto: Ribamar Fonseca)

Ninguém tem dúvidas de que Michel Temer é um péssimo gestor – e a melhor prova disso é a destruição do país que ele tomou de assalto à frente de um Parlamento recheado de corruptos – mas não se pode negar a sua eficiência como articulador de bastidores em favor de si próprio. Como consequência de jantares, conversas de pé de ouvido e liberação de recursos para emendas parlamentares ele é adorado pelo Congresso Nacional, onde tem quase 90% de aprovação dos seus membros, obviamente os mesmos que destituíram a presidenta Dilma Roussef e o colocaram no poder. Se depender, portanto, desse desmoralizado Legislativo, Temer deverá permanecer no Planalto até 2018, pois o seu impeachment jamais será aprovado pelos beneficiários de suas benesses, não importa os crimes que cometa no exercício da Presidência da República. Certamente por estar convencido da proteção do Congresso é que ele não se preocupa com a impopularidade, pois não dependeu do povo para chegar ao Palácio do Planalto e não precisa dele para lá permanecer.

Ao mesmo tempo, também garantiu o apoio da grande imprensa, mediante gordas verbas publicitárias canalizadas para os maiores veículos de comunicação de massa do país. Por conta dessa estratégia, que aprendeu com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – que até hoje desfruta da simpatia dos donos e editores – a mídia esconde ou minimiza as notícias negativas do seu governo e destaca as positivas, por mais insignificantes que sejam, influenciando uma parcela da população que se habituou a pensar pela cabeça dos Marinho, dos Mesquita, dos Frias e dos Civitta. Ainda assim, apesar dessa escandalosa proteção, Temer, segundo as últimas pesquisas, foi rejeitado por quase 80% da população, o que, no entanto, não representa nenhuma ameaça à sua permanência no Planalto. Na verdade, a única ameaça que ainda paira sobre a sua cabeça é a ação dos seus aliados tucanos no Tribunal Superior Eleitoral, que poderá cassar o seu mandato, no ano que se inicia, numa votação comandada pelo ministro Gilmar Mendes.

O TSE é o único que pode defenestrar Temer do Palácio do Planalto, graças à ação do PSDB, que atirou em Dilma e acertou nele, embora sem nenhum remorso por ser hoje seu aliado. Isto porque as lideranças tucanas, entre elas o senador Aécio Neves e o próprio FHC, perceberam que, considerando o fato de que o sucessor de Temer será eleito pelo voto indireto caso ele seja cassado em 2017, esta será uma oportunidade única para o PSDB ascender à Presidência da República sem os riscos de derrota numa eleição direta. Na realidade, se nenhum fato extraordinário acontecer de inesperado, frustrando os planos tucanos, Temer vai continuar construindo a sua "Ponte para o Futuro", que FHC classificou de "pinguela" e os trabalhadores já estão chamando de "Ponte para o inferno". Com o Congresso e a mídia do seu lado – e o Judiciário ignorando as denúncias de corrupção contra ele e seus ministros – Temer não precisa se preocupar com o povo que, sem a ressonância da imprensa comprometida, não conseguirá mobilizar-se para derrubá-lo. A não ser que o fato inesperado – a prisão de Lula – acenda os ânimos do populacho.

Afora uma possível cassação determinada pelo TSE, portanto (renúncia nem pensar porque ninguém larga espontaneamente um osso como a Presidência da República), Temer vai continuar destroçando a nação, desmontando suas conquistas, entregando nossas riquezas naturais, em especial o petróleo, para o capital estrangeiro e apequenando o Brasil aos olhos do mundo, o que afugenta potenciais investimentos. Temer e seus apoiadores nos transformaram, efetivamente, num país de vira-latas. Os franceses estão comemorando o negócio lesa-pátria realizado por Pedro Parente, praticamente doando a eles campos produtivos do pré-sal, e os americanos rindo de satisfação pela colaboração dos investigadores da Lava-Jato, que entregaram a eles na bandeja delatores e informações que lhes permitirão processar a Petrobrás e tirar dela até as calças. Com brasileiros como esses o país não precisa de inimigos.

Como consequência das ações deletérias do governo, da atuação vergonhosa do Legislativo e do comportamento político-partidário do Judiciário, que envergonham e revoltam todos os que amam este país, muitos brasileiros já estão abandonando o território nacional, desencantados com os homens que ocupam cargos de mando nos três poderes e, também, com a mídia, que perdeu o respeito e a credibilidade inclusive no exterior. E grande parte dos brasileiros que vive no exterior também já não pretende voltar, até porque não consegue mais vislumbrar melhores oportunidades de trabalho e de sobrevivência. As lágrimas de vergonha de servidores públicos do Rio de Janeiro, registradas pela TV, com os salários atrasados e obrigados a receber doação de alimentos para não passar fome, infelizmente retratam a triste situação do país inteiro, onde o desemprego leva milhares de famílias ao desespero. Enquanto isso, na contramão da situação da maioria dos brasileiros, uma pesquisa revela supersalários no Judiciário e no Ministério Público. O pessoal da Lava-Jato, portanto, vai bem, obrigado.

 

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