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Leonardo Boff

Ecoteólogo, filósofo e escritor. Escreveu Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 1995/2015; em espanhol por Trotta, Madrid 1996, Dabar, México 1996

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Uma tragédia – as atuais migrações mundiais

O colapso da hospitalidade diante do êxodo global expõe a falência ética de nações que respondem ao sofrimento humano com muros e repressão militar

A aliança da extrema-direita com a direita "clássica" aprovou leis que endurecem a política migratória" (Foto: Ivor Prickett-HCR-ONU)
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Nos dias atuais, há milhões de migrantes por terra e por mar em busca de condições de vida melhores. Segundo dados da ONU, em 2025 havia no mundo 304 milhões de migrantes. Hoje, com mais de cem zonas de conflito, como acaba de informar o coordenador da Cruz Vermelha, serão muito mais, pois a humanidade está vivendo em ininterrupta guerra civil. A maioria foge de guerras que vitimam um sem-número de vidas. Outros porque suas terras se tornaram inférteis pelo excesso de calor. Ainda há os que buscam outros países devido à perseguição religiosa ou política.

O maior número vem da África subsaariana e do Oriente Médio, ambos em direção à Europa. Há muitos milhares de latino-americanos que imigram ilegalmente para os EUA.

Todos os imigrantes indocumentados, sob a presidência de Donald Trump, estão sendo banidos do país. Isso foi feito com uma polícia especial, ICE, que usou a violência e até a força bruta para fazê-los emigrar.

Inesquecíveis são as cenas covardes daqueles policiais da ICE caçando imigrantes indocumentados nas ruas, nas escolas, nas fábricas, nas fazendas agrícolas e até nas igrejas. O presidente Donald Trump, de forma injusta e preconceituosa, considera tais imigrantes gente má, ladrões e assassinos, quando, em sua grande maioria, fazem funcionar os serviços em hotéis, restaurantes, fábricas, na produção agrícola e em muitos outros serviços, prejudicando os negócios de norte-americanos.

Chocante é a violência aplicada aos imigrantes presos e deportados, jogados em grandes aeronaves, acorrentados como se fossem gado, sem qualquer respeito à sua dignidade. Revoltante foi a prisão de uma criança de cinco anos, algemada como se fosse um adulto, forma de atrair o pai e prendê-lo. A indignação foi nacional e internacional, obrigando as autoridades responsáveis a liberar a criança e o pai.

Na Europa, os migrantes são geralmente mal recebidos, sejam os vindos da África ou do Oriente Médio. Muitos morreram na travessia em barcos sem nenhuma segurança. O Mediterrâneo se transformou numa sepultura de centenas e centenas que aí se afogaram. A indiferença e a falta de sensibilidade causaram indignação ao Papa Francisco quando esteve em Lampedusa, chegada de muitos imigrantes. Duramente criticou o fato de que os europeus perderam a sensibilidade e a capacidade de chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Em alguns países, foram totalmente rejeitados, como na Hungria, sob o hoje ex-presidente Viktor Orbán, de extrema direita e violento. Na cristianíssima Polônia, admitem-se, seletivamente, somente cristãos, negando hospitalidade a muçulmanos ou a pessoas de outra denominação religiosa.

Teme-se que as mudanças climáticas, acelerando-se cada vez mais e destruindo vastas regiões com grandes inundações, severas secas e imensas queimadas, acabem criando levas de milhares e milhares de migrantes procurando salvar suas vidas. Seus lugares se fizeram praticamente inabitáveis. A ONU tem alertado os países centrais e desenvolvidos que preparem suas infraestruturas para acolher e dar hospitalidade a estes flagelados.

A hospitalidade comparece como valor referencial para fazer frente a este fenômeno mundializado. As migrações em massa poderão desestabilizar nações inteiras e as políticas sociais, dada a gravidade da situação criada pelas mudanças na geopolítica, a disputa pela hegemonia mundial entre EUA, Rússia e China, pelos transtornos climáticos provocados pela crise ecológica e pela corrente marítima do El Niño.

Hoje, é a capacidade de mostrar a hospitalidade, sempre tida por todas as tradições culturais como um dos mais altos valores no relacionamento humano, que revela o quanto de sensibilidade e de humanidade subsistem ainda entre nós como pessoas individuais e como sociedades complexas.

Mantidas as atuais desigualdades escandalosas, fruto de uma acumulação inimaginável de riqueza dos poucos que exploram os muitos e devastam os bens e serviços naturais, não se oferecem sinais de esperança de que prevaleçam a sensibilidade e a humanidade, base da hospitalidade, face aos milhões de migrantes em nível mundial.

Mesmo assim, vencidos e derrotados, jamais desistiremos do empenho em favor dos migrantes e refugiados, desprezados e rechaçados, pois essa causa, por ser verdadeira, é invencível. Nela se mostra o melhor que existe nos seres humanos: compadecer-se com os peregrinos forçados, com os migrantes, viver a solidariedade concreta face à sua frágil situação e o amor incondicional para com esses humilhados e ofendidos. Segundo os relatos bíblicos e o sentido de um dos mais comovedores mitos gregos sobre hospitalidade, o dos bons velhinhos Báucis e Filêmon, quem hospeda o peregrino e o desconhecido está hospedando anonimamente o próprio Deus.

A família do Filho do Homem foi imigrante no Egito e tornou sagrado todo empenho em favor daqueles que vivem penosamente semelhante situação. Por isso, uma situação parecida representa à consciência um apelo ético permanente, mesmo no meio das dificuldades, dos preconceitos e das rejeições. Afinal, todos somos migrantes e hóspedes nesta Terra, que é de todos os presentes e dos futuros. Todos passamos. Somente ela, a Casa Comum, permanece ainda por milhões de anos, girando ao redor do sol e gestando vida, para a natureza e para a humanidade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.