Vamos manter acesa a chama da cultura

O brutal ajuste fiscal que se busca aplicar no Brasil vem fazendo da cultura, como acontece com todos os que são mais fragilizados, uma de suas primeiras vítimas

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Neste sábado foi celebrado o Dia da Cultura, homenagem a Ruy Barbosa, nascido em 5 de novembro de 1849. É um dia de comemoração e também um momento de reflexão. Em tempos tão complexos como os que vivemos, torna-se fundamental afirmar o valor da cultura brasileira para que mantenhamos aceso o projeto de construção de uma nação mais justa, fraterna e igualitária.

O historiador Benedict Anderson disse que as nações são construídas, sobretudo, a partir da identificação cultural. Ele afirma que tudo aquilo que partilhamos em uma dimensão simbólica torna-se fundamental para constituir um sentimento de pertencimento comum, de compartilhamento de uma mesma aventura. Ou seja, o pilar que sustenta uma nação é a cultura.

Agora, evidentemente, há formas e formas de construir esse sentimento de conexão e de identidade entre os membros de uma comunidade. Darcy Ribeiro, por exemplo, enxergava no Brasil a possibilidade de construção de uma civilização nos trópicos, que pudesse apontar para o restante do planeta uma nova maneira da sociedade relacionar-se entre si e com a natureza. Dizia, entretanto, que a base violenta sobre a qual construiu-se a unidade nacional e a horrorosa estratificação social brasileira impedia o florescimento desse impulso civilizatório que livraria o país – e talvez o mundo – da crise em que se encontra.

Não há processo civilizatório, nem desenvolvimento possível, que não coloque a cultura como elemento estruturante. Valorizar a cultura significa colocá-la em uma perspectiva humana, uma vez que ela é tudo aquilo que é compartilhado em uma comunidade. Trata-se de nossos símbolos, nossos hábitos alimentares, nossa língua, nosso comportamento, nossa tradição artística comum. A cultura é construção de afeto, de sensibilidade e a possibilidade viva da tolerância entre os diferentes.

Cada ataque à cultura, à comunidade cultural ou aos artistas configura-se como mais um embrutecimento do convívio social, mais um estímulo à violência, mais um descrédito para a criatividade e a inventividade que são as marcas do povo brasileiro. A cultura é arte, a cultura é cidadania e a cultura é economia. Assim, cada ataque, cada recurso retirado, cada instituição cultural depauperada leva não à superação da crise, mas a seu aprofundamento.

Neste 5 de novembro de 2016 são milhões de brasileiros que vivem da produção cultural, riqueza maior do nosso país. São artistas, técnicos, produtores, em suma, toda uma cadeia de produção que movimenta a economia e garante o direito humano fundamental de fruição dos bens culturais aos brasileiros.

O brutal ajuste fiscal que se busca aplicar no Brasil vem fazendo da cultura, como acontece com todos os que são mais fragilizados, uma de suas primeiras vítimas. Primeiro, o governo de Temer tentou fundir a MinC com o Ministério da Educação; a resistência da comunidade cultural impediu o retrocesso. Ontem, no Estado do Rio de Janeiro, com toda sua pujança cultural, o governo estadual anunciou a fusão da Secretaria da Cultura com a Secretaria da Ciência e Tecnologia. Perdem as duas áreas que são fundamentais para o desenvolvimento e, com isso, perdem capacidade de produzir políticas que podem contribuir para a saída da crise e para a construção de uma sociedade mais moderna, criativa e integrada.

Infelizmente, a situação de desmonte das políticas culturais deve ser aprofundada caso a PEC 55 (antes 241), que os congela os investimentos públicos por duas décadas, seja aprovada no Senado. O torniquete de recursos que virá significará o desmonte total de políticas revolucionárias e copiadas no mundo todo como os Pontos de Cultura e também das demais políticas de fomento à arte e à cultura popular. A situação é grave e exigirá do conjunto da comunidade cultural e da sociedade em geral muita capacidade de resistência e superação.

O Brasil no simbólico ano do centenário do samba, que tem a força do frevo e do maracatu e de toda a cultura popular, o país de Drummond, de Jorge Amado, de Guimarães Rosa, de Tarsila do Amaral e de Hélio Oiticica, de Cartola, de Caetano Veloso, de Chico Buarque, de Fernanda Montenegro, de Zé Celso Mertinez, de Joãosinho Trinta e de tantos outros, vive um momento difícil. É justamente a presença de tanta criatividade e inventividade, de tantos saberes e fazeres pelo nosso país que nos garante a força para seguir em frente confiando no amanhã.

A cultura, como o samba da canção de Nelson Sargento, agoniza mas não morre. Ela sobrevive na alma no povo brasileiro e é nossa melhor saída, nosso verdadeiro passaporte para o futuro. Viva a cultura!

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