Vende-se uma arma

Penso, que para estes neo imbecis, sempre haverá um bilhete premiado a se vender – foi assim na Alemanha nazista, na Espanha franquista, no Chile de Pinochet e, parece, será no Brasil de Jair..., ainda que a loteria venha em forma de uma arma bicentenária quebrada

Vende-se uma arma
Vende-se uma arma

Anunciado o resultado do segundo turno das eleições presidências do último domingo, meu sobrinho (que estuda economia em Harvard) sugeriu a vender nosso revólver (herança familiar). Um Schmidt Western bicentenário...

Porquê, indaguei?

_Para o bem da economia e como voto de confiança no eleitor do novo governo, respondeu o universitário estadunidense...

Ao que lhe indaguei: _Explique-se?

Segue a resposta:

_Tio, pense comigo; como a turma que venceu prega o uso da violência contra minorias e de armas à tiracolo, não teremos mais razão para manter a arma que o vô deixou. O avô, que

Deus o tenha, acreditava que se guardasse em um armário, trancado à chave, o revolver que o pai dele lhe deixou ao morrer, de alguma forma estaria protegendo a família, como cresceu vendo o bisavô fazer, naqueles tempos idos de sertão, breu e ausência do estado.

_ E?, retruquei...

_ Ora tio, agora há um novo conceito acerca do uso da arma; ela já não está guardada em um armário chaveado. Ela saiu deste armário e está na cinta, indo às ruas, à cata de minorias.

É o que se passa em Goiás, onde um tal grupo de extermínio de gays já se manifestou neste sentido, no que foi ladeado pelo próprio presidente que, em seu primeiro discurso após as eleições, está pautando a legitimação de se matar para rechaçar furtos e outras transgressões. Então, se há uma ideia diferente daquela que nós comungávamos para o uso da arma, nós outros não podemos partilhar deste conceito, sob pena de trair tanto o bisavô quanto o avô, além das minorias...

Gostei do ‘approuch’ do menino, mas – confesso – ainda estava atônito, com o que segui indagando:

_ Filho, mas vender, porquê? Não seria melhor entregar à polícia? A resposta foi Harvardianamente econômica:

_Tio, o novo guru da economia segue os garotos dourados de Boston e, à par da ideia de alguém adquirir esta coloração em um local em que a chuva é intensa, bom lembrar que o neoliberalismo floresceu sob este clima. Então não poderíamos simplesmente entregar a arma; há que vendê-la para fazer girar a economia e, ainda, lucrar com este movimento. A entrega à polícia seria gratuita e a turma de Boston tem disseminado o conceito de que não existe almoço grátis, logo não podemos dar a arma de graça...

Confesso que vi uma certa lógica na explicação do piá mas, na medida em que tudo isso era muito novo para mim, segui em frente com minhas inquietudes: _ Haveria demanda com a abertura deste ramo negocial?

A resposta foi seca e matadora (com o perdão do péssimo trocadilho) _ Tio, a demanda estará direcionada para determinada fábrica de armas que teria, segundo li na internet, colaborado financeiramente com a campanha do candidato eleito, isso põe a Schmidt Western em polo conflitante com a forjas Taurus, mas sempre haverá quem precise de uma arma, ainda que usada e do século 19, com as marchas de ferrugem que o tempo lhe deixou e sem uso há quase setenta anos...

Ai eu travei. Não entendi quem poderia querer uma arma velha, quase bicentenária, de capacidade de uso incerta: _ mas vender a quem?

A resposta estará para sempre nos anais de minhas memórias e vou cataloga-la enquanto homenagem neoliberal:

_Ora tio, ao mercado negro que se formará com a intenção de abastecer o PCC com as armas roubadas dos incautos compradores pós eleição; pense comigo. Já que liberou geral, muita arma será vendida para playboy que, paramentado, dará vazão a seus anseios agressivos (santo armário insano que, não sabia, havia no Brasil), quer constrangendo/agredindo irmãos homossexuais (medo de uma paixão proibida? Vingança de uma noite mal amada?), quer calando o mimimi dos irmãos negros (vítima do que, afinal?), quer colorindo em verde amarelo os irmãos vermelhos (como se pudesse colorir alguém já vivamente vermelho...).

_Com as armas à cinta, a proliferação de alvos será tamanha que um mercado negro surgirá com a maior das naturalidades. Será tão profícuo que terá reflexo direto no próprio tráfico de armas internacional e, assim, teremos um cliente certo para vender a arma do bisavô...

O menino é bom. Será um grande economista. Disso não tenho dúvida alguma. Mas não conhece nada de sociologia e de política. Vou anunciar a venda da arma em um jornal (penso na folha; não por qualquer simpatia, mas a folha bateu tanto em Lula e, agora, apanha tanto de Jair, que há algo de esquizofrênico nesta história que me atrai), sob o seguinte mote:
‘Vende-se arma que nunca feriu homossexuais, negros e comunistas e que, por isso mesmo, já não parece ter qualquer serventia nos dias que se anunciam’.

Não sei se terei compradores, mas preciso acreditar na ideia de que não existe almoço grátis e, assim, ao mudar o conceito de arma (defesa), esta nova onda de imbecis que se pronuncia talvez mude as próprias leis de mercado (oferta/procura) e estabeleça uma nova demanda emergencial: uso irracional das próprias anomalias...

Penso, que para estes neo imbecis, sempre haverá um bilhete premiado a se vender – foi assim na Alemanha nazista, na Espanha franquista, no Chile de pinochet e, parece, será no Brasil de Jair..., ainda que a loteria venha em forma de uma arma bicentenária quebrada.

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