Viagem de Bolsonaro deixa indefinição em solo e muitas perguntas no ar

Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, comenta a viagem de Bolsonaro à Ásia iniciada neste sábado e diz que ele "deu tchau sem deixar a menor pista sobre em que partido estará em seu retorno". "Saiu de cena discretamente, enquanto Joice e seu filho candidato a embaixador, Eduardo Bolsonaro, se engalfinham", observa

Bolsonaro, em janeiro, em viagem à Suíça
Bolsonaro, em janeiro, em viagem à Suíça (Foto: Alan Santos/PR)

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia - Em tempos de “naturalização” não é de se estranhar que a viagem de Jair Bolsonaro, na noite de sábado, rumo ao Japão, tenha quase passado desapercebida. Há um texto no site da EBC, matéria num portal, e uma nota em “on” (sem registro de imagem) na TV Record, o canal quase oficial do governo.

As notícias dão conta de que Bolsonaro ficará fora do país por 12 dias. E, curiosamente, o texto que está no portal noticioso inicia assim: “A assessoria do Palácio do Planalto informou que o presidente Jair Bolsonaro embarcou na noite deste sábado (19) para o Japão”. Como assim “a assessoria do Palácio informou”??? Houve um tempo em que haveria uma equipe no local, nem que fosse para aquele registro protocolar: “O presidente fulano acaba de embarcar ...”

Temos certeza de que embarcou? Acompanhado de quem? Quais as autoridades escolhidas para esta viagem, descrita como eminentemente de “negócio”? Algum empresário? De que setor? A primeira-dama foi com ele? Alguém o viu embarcar? Desta vez tinha “segundo avião”, como aquele que teve de baixar na Espanha??? Há foto do embarque? Por que não há tomadas da saída de Bolsonaro do país? Há um vice-presidente em exercício? As perguntas podem soar inteiramente despropositadas, mas talvez o despropósito maior seja não sermos razoavelmente informados sobre a agenda presidencial, tal como sempre foi feito. 

As viagens presidenciais jamais deixaram de ser documentadas. É de interesse do país ser informado sobre os deslocamentos das autoridades que o representa. Afinal, a conta virá para o nosso bolso. Mas, como já dito acima, em tempos de naturalização... 

Ao decolar, Jair deixou em solo um festival de polêmicas e indefinições. Sem contar as verdadeiras “minas” que terá de saltar ao desembarcar. A ex-líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, ficou aqui esbravejando que ele não perde por esperar. 

"Não posso compactuar com golpes brancos, nem com o uso do Palácio para pressionar deputados e fazer a vontade de um filho mimado. Essas ações podem levar o presidente e o Brasil à ruína", disse. E complementou com ameaças: “saberão tudo em breve”. 

Com o país em chamas, Bolsonaro deu tchau, sem deixar a menor pista sobre em que partido estará em seu retorno. Saiu de cena discretamente, enquanto Joice e seu filho candidato a embaixador, Eduardo Bolsonaro, se engalfinham. Eduardo só faltou usar aqueles adjetivos dos tempos escolares: “chata, feia e boba”.

Enquanto atravessou o oceano, Bolsonaro certamente sobrevoou as manchas de óleo que se deslocam pelas praias do Nordeste, uma questão que parece não lhe dizer respeito. Por que acha que é “sabotagem” de quem torce contra o mega leilão do pré-sal (acusação feita ao léu, sem provas ou maiores explicações)? Por que os governadores são do Nordeste - região onde quase não foi votado – e na maioria de oposição, por isto e merecem ter queda de arrecadação no turismo?  Não cuidou porque o óleo “é venezuelano”, e quanto mais poluir, mais ele conseguirá a irritação dos brasileiros contra Nicolás Maduro? Respostas só daqui a 12 dias.

A conflagração no terreno presidencial fez com que passasse batida outra “naturalização”. O presidente da República do Brasil foi gravado e áudios de suas conversas vazados. Sabem o que isto significa? Insegurança institucional. Ontem foi com Dilma, mas tanto faz, ela ia sofrer impeachment mesmo... Hoje é com ele, mas o destaque foi para o conteúdo das conversas, não para a quebra da segurança presidencial. Amanhã é com outro, e pode envolver assuntos de estado. Mas e daí? Quem se importa com o que acontece em 2019, quando 2022 avança na pauta com a rapidez com que as manchas negras de óleo contaminam o litoral? 

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