Vinte anos em dois dias

"A greve ruma para o rompimento da barreira dos sete dias e impõe a mais brutal derrota ao golpe", diz o linguista Gustavo Conde; para ele "a população está perplexa com o grau de devastação no setor de abastecimento"; o colunista do 247 propõe: "o slogan correto para o governo Temer neste momento não é mais 'vinte anos em dois': é 'vinte anos em dois dias'"

Vinte anos em dois dias
Vinte anos em dois dias (Foto: Flavio Emanuel/Agência Petrobras)

Tem mais angu nesse caroço da greve. São interesses poderosíssimos, de gente de dentro do governo, gente que dá as cartas ali naquele puxadinho gerencial que é o trio criminoso Temer-Moreira-Padilha. Há prepostos de homens da soja e de homens da carne, caros leitores. 

O preço do diesel prejudicou muito esses mega-agro-empresários. Centavos a mais no diesel significam bilhões a menos na safra. É possível imaginar o quanto eles estavam – e estão – muito ‘felizes’ com Pedro Parente na Petrobras.

O segmento que produz no país deparou-se com um governo que abre as pernas dos bancos públicos, mas que é um primor de incompetência em gerenciamento e logística. Só favor, propina e teoria neoliberal ultrapassada não são suficientes para movimentar a economia e alimentar os abutres. 

Uma economia nas mãos de Meirelles e Parente (o presidente da Petrobras é o equivalente a um ministro da área econômica, tal o tamanho da empresa) só poderia mergulhar no precipício: um foi ministro do apagão, o célebre apagão da vergonha do governo FHC, em 2002. O outro, a gente tem que explicar com calma. 

Meirelles foi diretor do Banco Central de Lula. Lá era o lugar dele. Financista, com a mente única e exclusivamente voltada para a lógica monetária e cambial, ele foi importante para o gerenciamento da inflação. Isso não o autoriza a ser um ministro da fazenda, cargo que exige ‘algumas’ competências a mais (‘presidente’ então, socorro!). 

Outro detalhe. Na época da democracia, quando Lula era presidente, havia hierarquia. Embora em outra estrutura, menos política que técnica, Meirelles atuava sob a chancela de um presidente ativo, legítimo e popular, o exato contrário de Michel Temer. 

Assim fica fácil ‘trabalhar’, diria um palestrante ‘coaching’ que perdeu o emprego e precisa vender otimismo. Mas, é fato: com democracia e legitimidade, a história é sempre outra. Até o STF tinha credibilidade naquela época. De modo que Meirelles foi uma peça importante no governo Lula e foi-é uma peça importante no governo Temer, dando o ‘seu melhor ou pior’ para cada tipo de situação. 

Sobre esse fenômeno factual (de um agente que serve a dois campos do espectro político), o analista de jornal impresso e seu público leitor cativo não têm competência leitora para compreensões mais sofisticadas. Eles não concebem a mudança de identidade de um ator político ao longo do tempo histórico. Para eles, Lula é sempre o mesmo, Meirelles é sempre o mesmo e Alckmin é sempre o mesmo. Se a realidade muda, o problema é dela. 

O problema, parceiro, é que, na prática, não é assim. Se a realidade muda, os atores também mudam (e o protocolo de leitura idem). O fetiche pela normatização de toda a experiência sensível ainda é o cabresto que segura a civilização no século 19, lamento comunicar. Eles esqueceram de re-significar a ciência. Por isso – permitam-me a digressão – os grandes nomes da ciência são disruptivos (rompem com a epistemologia vigente): Copérnico, Darwin, Marx, Freud, Saussure e Einstein são os cidadãos indóceis que não se submeteram à mesmice que os precediam – embora fizessem dela seu substrato. 

A situação da nossa interpretação política passa por esse dilema: sem ousadia, somos todos conservadores, não importa se à direita ou à esquerda. O jornalismo capenga, os isentões auto-ungidos e os filósofos amadores de direita entendem que Meirelles é uma contradição, pois pertenceu ao governo Lula e depois ao governo Temer.

Enchem a boca para denunciar o ‘contrassenso’ de “Meirelles ter pertencido ao governo Lula”, como enchem a boca para apontar a escolha de “Temer, vice de Dilma, como um erro do PT”, descendo um pouco mais na escala da masturbação sub intelectual. O mundo, afinal, não é uma tabula rasa, nem sua leitura uma equação de primeiro grau. 

A despeito da sofrência atávica da nossa imprensa normatizadora, chancelada não raro por uma academia domesticada e carreirista (os próceres tucanos enrustidos da Usp que publicam na Folha), ainda há uma chance divertida para se ler o cenário histórico-político. 

E nesse cenário, Meirelles figura ao lado de Pedro Parente na construção da greve mais devastadora que o país já assistiu. Um, pela via da vaidade, achando que a administração de um BC lhe credenciaria a voar na complexa estrutura política do executivo. Outro, pelo ‘arrego’ que o PSDB cobra de Temer, associado ao desagravo sentimental de ‘recuperar’ um tecnocrata folclórico que entrou para a história como o ministro do “apagão”. 

O resultado só poderia ser esse. A greve dos caminhoneiros marca para sempre o governo do golpe e da improvisação canhestra. Parente saiu do ostracismo para debutar em catástrofe e ao ostracismo retornar. Nada, nada, é uma senhora anti biografia. 

A realidade desta greve, portanto, é muito mais complexa do que imagina a vã estereotipia das mídias. A greve dos caminhoneiros começou como locaute, prosseguiu como movimento de massas e agora está em sua fase de bastidor empresarial que, a rigor, é sua verdadeira natureza. 

A faísca que acendeu o pavio da paralisação atende pelo nome de agronegócio, um dos setores econômicos mais poderosos do país, com tentáculos em toda a estrutura financeira e política. Um setor bilionário como esse tolerar um governo rastaquera como o consórcio tucano-emedebista não era algo pertencente ao horizonte das previsibilidades empíricas. Eles foram para dentro de Pedro Parente, sem dó. 

Não é à toa que o desdobramento da paralisação seja o colapso inédito de abastecimento: é o gargalo do agronegócio que está em questão, tão sabotado que foi pela política de preços da Petrobrás golpista. Leite, ovos, carne, soja, milho, arroz, feijão e toda a sorte de insumos básicos para a sobrevivência estão sendo canibalizados e/ou descartados, num processo descomunal de prejuízos e catástrofes sanitárias. Doenças virão, com aves morrendo aos bilhões de indivíduos. 

É essa briga de cachorro grande entre os próprios interesses do agronegócio que denunciou a articulação real e difusa da greve, até agora na conta dos empresários de transporte (somo se só eles estivessem perdendo com Pedro Parente na Petrobras). A perda do agronegócio, caros leitores, é muito maior. 

Como quem não quer nada, a imprensa noticia hoje – neste sexto dia de greve – que há um ‘racha’ entre os setores de grãos e de carnes na leitura da proposta do governo para engrupir os caminhoneiros (caminhoneiros que são peças nas mãos dos empresários de transporte e dos agro empresários, peças que espanaram e que foram lançadas ao imponderável da catarse social). 

É óbvio que a carne se deteriora muito antes dos grãos e a situação para os criadores é muito mais dramática. Mas a questão é que todo o setor do agronegócio, com seus tentáculos políticos e bancadas legislativas, está com Pedro Parente entalado na glote. Eles iam vendo o lucro escorrer todo para um processo de valorização acionária da estatal junto a seu destino fatal rumo à iniciativa privada internacional. Empresário do agronegócio pode ser violento e neoliberal, mas ele é um dos poucos agentes macroeconômicos que trabalham e produzem de fato, com a mão diretamente na massa. 

A greve ruma para o rompimento da barreira dos sete dias e impõe a mais brutal derrota ao golpe. A população está perplexa com o grau de devastação no setor de abastecimento. O slogan correto para o governo Temer neste momento não é mais “vinte anos em dois”: é “vinte anos em dois dias”.

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