Vira-latas de segundo grau em Hollywood

"Confesso que estou incomodado com a importância que a candidatura a um Oscar assumiu na qualificação do filme 'Que Horas Ela Volta?', de Anna Muylaert. Parece que o filme não tem qualidades próprias, um valor em si. Precisaria do selo de candidato ao Oscar para que seus méritos sejam reconhecidos e reforçados, num reflexo condicionado típico - o complexo de vira-lata. Assim, sempre que se fala do filme, parece obrigatório recordar que concorre ao mais conhecido premio da indústria do cinema. É errado"; a avaliação é do jornalista Paulo Moreira Leite; ele pontua que 'Que Horas ela volta?' é um "ótimo filme, que trata com respeito e vigor a condição das trabalhadoras domésticas no país"

"Confesso que estou incomodado com a importância que a candidatura a um Oscar assumiu na qualificação do filme 'Que Horas Ela Volta?', de Anna Muylaert. Parece que o filme não tem qualidades próprias, um valor em si. Precisaria do selo de candidato ao Oscar para que seus méritos sejam reconhecidos e reforçados, num reflexo condicionado típico - o complexo de vira-lata. Assim, sempre que se fala do filme, parece obrigatório recordar que concorre ao mais conhecido premio da indústria do cinema. É errado"; a avaliação é do jornalista Paulo Moreira Leite; ele pontua que 'Que Horas ela volta?' é um "ótimo filme, que trata com respeito e vigor a condição das trabalhadoras domésticas no país"
"Confesso que estou incomodado com a importância que a candidatura a um Oscar assumiu na qualificação do filme 'Que Horas Ela Volta?', de Anna Muylaert. Parece que o filme não tem qualidades próprias, um valor em si. Precisaria do selo de candidato ao Oscar para que seus méritos sejam reconhecidos e reforçados, num reflexo condicionado típico - o complexo de vira-lata. Assim, sempre que se fala do filme, parece obrigatório recordar que concorre ao mais conhecido premio da indústria do cinema. É errado"; a avaliação é do jornalista Paulo Moreira Leite; ele pontua que 'Que Horas ela volta?' é um "ótimo filme, que trata com respeito e vigor a condição das trabalhadoras domésticas no país" (Foto: Paulo Moreira Leite)
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Confesso que estou incomodado com a importância que a candidatura a um Oscar assumiu na qualificação do filme "A Que Horas Ela Volta?", de Anna Muylaert.

Parece que o filme não tem qualidades próprias, um valor em si. Precisaria do selo de candidato ao Oscar para que seus méritos sejam reconhecidos e reforçados, num reflexo condicionado típico -- o complexo de Vira Lata. Assim, sempre que se fala do filme, parece obrigatório recordar que concorre ao mais conhecido premio da indústria do cinema.

O mais engraçado -- e essa informação só fiquei sabendo depois de publicar uma primeira versão desse texto -- é o seguinte: A Que Horas Ela Volta está disputando uma etapa intermediária, por enquanto. Neste momento, 40 filmes, de 40 países diferentes, foram escolhidos previamente para concorrer ao Oscar. Até janeiro, eles irão passar por uma nova seleção, da qual sobrarão apenas 6 -- estes serão os finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016. Então, estamos falando de um complexo de segundo grau, pois o filme nem é finalista ao Oscar. É candidato a candidato e mesmo assim já se tenta destacar sua presença numa etapa que equivale a uma quarta-de-final não deixa de merecer um tremendo destaque.  

 É errado. "A Que Horas ela volta?" é um ótimo filme, que trata com respeito e vigor a condição das trabalhadoras domésticas no país. Os atores são bons. O roteiro também. O filme tem uma visão inovadora, que não vou partilhar aqui porque acho importante preservar cada minuto de surpresa e encantamento que um bom filme nos reserva. Basta lembrar que é capaz de mostrar a luta classes na vida de uma família paulistana sem sacrificar a clareza nem a sensibilidade.

Como escrevi aqui neste espaço, em 5 de setembro:

"O filme fala de sentimentos desenvolvidos entre patrões e empregados. Há situações de afeto real e sincero, mas também desprezo, insegurança  -- sempre num horizonte onde a dominação bruta é corretamente descrita como parte inevitável do convívio entre seres humanos hierarquizados. Ana Muylaert mostra relações que parecem relações afetivas mas são relações de trabalho, ainda que mascaradas por sentimentos e emoções."

Um filme com tais características não precisa de prêmios nacionais ou internacionais para reafirmar seu valor.

A segunda razão para não se exagerar na importância de uma indicação ao Oscar é conhecida. Não estamos falando de uma atividade comparável a uma Copa do Mundo, onde a competição é a alma do negócio.

Estamos falando de um bem cultural, um esforço  para ampliar nossa compreensão da existência humana, acima de tudo. Um premio, mesmo o mais valorizado comercialmente, pode valer como um grande e merecido reconhecimento -- e é claro que isso pode ser importante para atrair um número maior de espectadores. Mas só.

Não pode servir para estimular reações típicas de dependência cultural, numa versão para o cinema das agências de rating que procuram monitorar os movimentos da nossa economia a partir de critérios de fora para dentro.

A lista de vencedores do Oscar ajuda a entender o sentido de suas escolhas através dos tempos. Os prêmios são definidos pelos funcionários sindicalizados da indústria do cinema, em voto direto, onde são obrigados a provar que assistiram a todos os filmes concorrentes. O resultado, sabemos todos, já premiou filmes bons, alguns ótimos, várias mediocridades. Entre os estrangeiros, a Dinamarca disputou nove vezes, por exemplo. Ganhou três.

São vários interesses e vontades em jogo, que pouco dizem sobre os méritos de um filme, que é o mais importante, afinal contas.

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