Zé Dirceu, não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal

Dirceu foi protagonista em bagunçar a república realmente existente no país, ponto de partida para a república dos sonhos que seus antigos e novos detratores opõem à sua figura

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu após assinar na Vara de Execuções Penais do Distrito Federal o termo que autoriza a cumprir prisão no regime aberto (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu após assinar na Vara de Execuções Penais do Distrito Federal o termo que autoriza a cumprir prisão no regime aberto (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) (Foto: Leopoldo Vieira)
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Em 2005, José Dirceu virou um "leproso". Em seguida, com o crescimento do espaço para sua defesa política, virou herói. Com sua prisão na Lava-Jato, volta àquela condição anterior, com muitos dizendo que ele está a prejudicar o governo e o PT. É bom ter memória.

Quando começa a se consolidar a ideia de que os erros dele, "anti-republicano", levaram, pela segunda vez, o PT e o governo a uma situação de questionamento, penso é que Dirceu foi um dos mais importantes protagonistas para que o brasileiro cordial aos donos do poder, pela formação social do Brasil, forjada na relação casa grande e senzala, tivesse vez e voz e impusesse ao tradicional pacto das elites se tornar, no mínimo, um pacto nacional.

Foi protagonista em bagunçar a república realmente existente no país, ponto de partida para a república dos sonhos que seus antigos e novos detratores opõem à sua figura.

A capa da revista Época desta semana, antes do suposto recuo da Globo sobre o Impeachment de Dilma, trazendo em letras garrafais "Onde tudo começou" com o rosto de Dirceu pintado com uma estrela vermelha em alusão ao PT, é reveladora: torná-lo o bode expiatório do golpe, que inclui até fechar jornais alternativos, como o Brasil 247, que apareceu como "destino de propina" no organograma em que a revista dos Marinho "desenhou" o funcionamento do suposto esquema de abastecimento financeiro ilícito ao PT.

A cobertura da velha mídia também só confirma o que o Dr. Roberto Podval, seu advogado, argumenta: a prisão é política. A manchete diz que encontraram o elo entre Dirceu e o governo peruano, mas na matéria se diz que se tratava de uma consultoria sub-contratada para prospectar cenários. A manchete diz que a JD Consultoria repassou dinheiro para escritório "de petista" em São Paulo, mas na matéria se diz que era a empresa de contabilidade da esposa de um deputado que fazia a gestão das contas da JD e de Dirceu.

Outras "notícias" dão conta de supostas ilicitudes na compra da casa de Dona Olga, na reforma do imóvel de Vinhedo, na compra do apartamento da filha, de 30 mil de ajuda enquanto jazia atrás das grades. Aqui, cabe perguntar se os 250 mil, os 1,5 mi, os 600 mil e estes 30 mil entraram no caixa do PT. A resposta, inscrita na própria acusação, é não.

A defesa de Dirceu diz que isso era parte do contrato com a JD e, a bem dizer, a forma de pagamento, em contratos privados, é decidida entre as partes e, inclusive, pode-se acertar elementos por fora da relação jurídica. Além do que, Dirceu não era agente público e suas consultorias, objeto da investigação, começaram depois que ele foi exonerado da Casa Civil, nada tendo a ver a casa da mãe em Passa Quatro com os motivos de sua prisão.

Como bem lembrou o jornalista Paulo Moreira Leite, quando Dirceu saiu do governo só dispunha de "contatos, conhecimentos, ideias que encurtam distâncias e vencem dificuldades", que são "serviços que políticos, advogados e ministros das altas esferas possuem de melhor", tanto que empresas de consultoria se proliferaram desde 1994 sob a alquimia que tornou professores em investidores e bancários em banqueiros.

Empresa de fachada ou de sucesso?

Com este acúmulo, Dirceu criou a JD para oferecer tão valorizados serviços e reverter o pagamento por eles em atividade política, cuja permissão é dada para qualquer cidadão pela Constituição Federal. Prova cabal disso é que , em larga medida e por meio de sua figura viajando o país, através de seu blog, conversando com políticos nos estados, com a imprensa, foi feita uma defesa política do PT nos duros tempos entre 2005 e 2012.

Por outro lado, por sua trajetória política e na gestão pública, e até como empresário em Cruzeiro do Oeste, conquistou centenas de clientes na indústria, construção civil e de duas maiores empresas do mundo, levou "expertise" e investimentos para países africanos e latino-americanos que precisam de ambos em sua saga contra a desigualdade, politizando suas consultorias.

Mesma "expertise", só que em sentido inverso, que faz uma pré-candidata republicana à presidência dos EUA, CEO de sucesso na área de tecnologia, dizer que quer governar o Gigante do Norte por saber como o mercado funciona e, portanto, ter soluções para superar a crise naquele país. Quer dizer que só é legítimo o fluxo mercado-administração pública?

De fato, Dirceu é acusado de liderar um esquema de corrupção para a "governabilidade" partindo de lobby para facilitar contratos da Petrobrás. Todavia, trata-se, simplesmente, das principais empresas dos ramos de atuação da estatal brasileira há décadas, senão as únicas com "know how" para serem contratadas e que, segundo Paulo Roberto Costa, o delator-mor, atuavam em cartel.

Esta, aliás, foi a tese que o juiz Sergio Moro comprou. Para o insuspeito Gesner Oliveira, ex-presidente da SABESP, "tal noção é insustentável", pois "do ponto de vista da defesa da concorrência, não faz sentido discutir qualquer infração sem a compreensão de qual é a estrutura do mercado na qual o suposto ilícito teria ocorrido". Ele esclarece que "no caso da Lava Jato, a Petrobras tem enorme poder de compra, para não dizer poder absoluto", pois "trata-­se de um monopsônio, situação na qual há apenas um comprador, que pode, portanto, orientar e dirigir o mercado". "Não há margem para os fornecedores formarem um cartel e prejudicarem o comprador", sustenta.

Ricardo Semler, que se diz tucano, e é empreiteiro, afirmou recentemente que sua "empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70", uma vez que, segundo ele, "era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito". E dispara: "Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos 'cochons des dix pour cent', os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas". Para ele, "o que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras".

Se alguém tinha força neste balcão não era José Dirceu.

Se parte das empresas coincidem com as envolvidas no suposto esquema da Petrobrás, a conclusão é que Dirceu realmente tinha cacife para fidelizar as maiores empresas e não que tinha a ver com qualquer "malfeito" na estatal. Lá, ainda mais quando FHC suspendeu a 8666 para a empresa, operavam as maiores.

Além do mais, o xis da questão seria que a JD Consultoria seria de fachada para recebimento e repasse desta suposta propina partidária. Afinal, os "ilícitos" de Dirceu, via JD, que mantém preso um preso, era para si ou para o partido?

Evidente que esta inovação no mérito da acusação visa apenas postergar sua permanência preso e prolongar o sangramento do PT, a quem sua imagem é profundamente vinculada, dentro do padrão da Lava-Jato: ir levantando ilações até que pareçam fazer algum sentido seja em que sentido for. Uma boa ilação é a que "revela" a Polícia Federal "descobrindo" contratos com a consultoria peruana para a ação naquele país. Como o cliente era uma das empreiteiras envolvidas no suposto esquema da Petrobrás, logo Dirceu e a JD estariam envolvidos com ele.

Ainda não acordaram para a disputa política?

Como a política é a economia concentrada, da mesma forma que causa incômodo bermudas em aeroportos, carros populares em horário de "rush", pretos pobres na universidade por meio de cotas, "gente feia" nos shoppings, operários virarem gestores públicos, causa ainda mais que gente de esquerda entre neste ramo destinado aos "tucanalquimistas". Pior ainda se não só mantiver sua militância, como também o "ethos" do seu negócio seja fortalecer a justiça social, independência econômica, soberania política.

Por óbvio, ganhou dinheiro. E não seria justo ainda que fosse um trabalho apenas de mercado para o mercado? Oras, o capitalismo tem como virtude não ser estamental e permitir a qualquer um, não a todos, ficar rico, o que, é, inclusive, negado por sua defesa, que alega dívidas advocatícias em torno de 3 milhões de reais. E assim chegamos ao ponto. Com o Mensalão tentaram destruir o político, com essa pretendem destruir o empresário, assim como tentam reverter a mobilidade social dos últimos 13 anos.

E é sob esta constatação - de que ele ganhou dinheiro - que a velha mídia pisoteia numa questão delicada: as vaquinhas para pagar a multa de Dirceu por sua condenação da Ação Penal 470. Data venia o direito e a razão de quem não era militante e contribuiu, aquilo foi um movimento político, para mostrar capacidade de reação, resistência, solidariedade para questionar um processo jurídico-político. E, como já dito, a defesa de Dirceu alega que a dívida do ex-ministro só com serviços advocatícios é da monta de 3 milhões de reais.

Então, voltemos à luta política ao invés de sermos os inocentes úteis à direita a alertar Dilma que "os ladrões estão em seu partido, mas não são o povo que a elegeu", como ejaculou precocemente, de perigosa altura de onanismo intelectual, um certo ideólogo de esquerda, pois os reais motivos da prisão de Dirceu são justamente acabar com o partido que a elegeu e, de quebra, sem teorias conspiratórias americanófobas, mas, principalmente pelo nível intelectual dos protagonistas da Lava-Jato, destruir o programa nuclear brasileiro, todo o "know how" em logística e construção civil acumulados em décadas, com respeito e atuação até nos EUA.

Tem quem opte por tomar a Lava-Jato como a nova fronteira do republicanismo, por debitar no PT a situação atual... Este autor opta por ser solidário a Dirceu e a defender o insuportavelmente vivo PT, pilar da garantia da legalidade, do mandato da presidenta Dilma e do retorno, em 2018, do ex-presidente Lula para que a República Federativa do Brasil não se resuma a uma república de bananas.

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