“2016, O ano em que insiste em não acabar”

O advogado Felipe Campanuci Queiroz, mestrando em Políticas Públicas e Formação Humana na UERJ, assina artigo no qual faz uma retrospectiva da política no Brasil e no mundo; ele cita a queda de Dilma, a falência do Estado do Rio, as eleições municipais, com as vitórias de Crivella no Rio e Dória em SP; o articulista ainda fala do Brexit, da morte de Fidel Castro, da eleição de Donald Trump e das ocupações das escolas no Brasil contra a PEC 55; confira na íntegra

O advogado Felipe Campanuci Queiroz, mestrando em Políticas Públicas e Formação Humana na UERJ, assina artigo no qual faz uma retrospectiva da política no Brasil e no mundo; ele cita a queda de Dilma, a falência do Estado do Rio, as eleições municipais, com as vitórias de Crivella no Rio e Dória em SP; o articulista ainda fala do Brexit, da morte de Fidel Castro, da eleição de Donald Trump e das ocupações das escolas no Brasil contra a PEC 55; confira na íntegra
O advogado Felipe Campanuci Queiroz, mestrando em Políticas Públicas e Formação Humana na UERJ, assina artigo no qual faz uma retrospectiva da política no Brasil e no mundo; ele cita a queda de Dilma, a falência do Estado do Rio, as eleições municipais, com as vitórias de Crivella no Rio e Dória em SP; o articulista ainda fala do Brexit, da morte de Fidel Castro, da eleição de Donald Trump e das ocupações das escolas no Brasil contra a PEC 55; confira na íntegra (Foto: Valter Lima)

O ano que insiste em não acabar

Felipe B. Campanuci Queiroz

Advogado, Coordenador Técnico do LPP-UERJ

Mestrando em Políticas Públicas e Formação Humana na UERJ


Este ano está sendo um ano “daqueles”, inesquecível. E não serão lembranças boas.

Foi um ano que começou com a presidente Dilma Rousseff caindo pelas tabelas e se esforçando para não perder o seu mandato, legitimamente conseguido pelas urnas nas eleições presidenciais de 2014. Foi uma diferença sutil para o segundo colocado, o Senador Aécio Neves, mas foi eleita democraticamente pela escolha majoritária do povo brasileiro. Sem razões para comemorações, ao contrário de uma grande massa de pessoas que acorreu às ruas com bandeiras do Brasil, camisas amarelas da seleção brasileira, de braços dados com a PM e sob a égide do pato amarelão da FIESP, que nunca está e nunca esteve ao lado do povo, a presidente sofreu um golpe midiático-jurídico-parlamentar que teve sua apoteose em mais um mês de agosto infame, quando teve seu mandato cassado numa manobra que envolveu claramente os três poderes e a grande mídia, que acabou catapultando o esmaecido vice-presidente, dublê de poeta e admirador das mesóclises, Michel Temer, ao cargo de chefe do executivo nacional. Com ele, sai de cena o Estado de bem-estar social, escolhido pela Constituição Federal de 1988, e volta o Estado Neoliberal, dos falidos anos 90 de FHC e o “Deus mercado” como sistema de verdade absoluta.

Também foi o ano da realização dos primeiros jogos olímpicos na América do Sul e em um país em desenvolvimento. Apesar dos jogos terem acontecido com absoluta tranquilidade na cidade do Rio de Janeiro, o antes e o depois não foram bem assim. Antes dos jogos começarem, bilhões de reais foram gastos na construção dos locais para os jogos e inúmeras famílias e comunidades inteiras foram removidas de locais “estratégicos,” tudo para o "bom andamento dos jogos", como a “Favela Vila-Autódromo”, local escolhido não pelas autoridades públicas, mas pelos especuladores imobiliários e pelos empreiteiros como o novo “eldorado” carioca, e onde foram construídos os “equipamentos” dos jogos e toda uma infraestrutura que envolve desde uma nova estrutura viária, o BRT (baseado no transporte rodoviário, como sempre), passando por shoppings-centers, hotéis e condomínios de luxo. A alguns quilômetros dali, no centro da cidade, houve a gentrificação também da área do cais da Praça Mauá e adjacências, com um claro intuito de favorecimento da especulação imobiliária e em desfavor dos mais pobres que ali residiam e ainda insistem em residir.

Durante os jogos, a cidade estampada nos jornais foi aquela que sempre aparece em épocas de grandes eventos (como, por exemplo, a ECO 92, Copa das Confederações e Copa do Mundo). A “tranquilidade” pacificadora assegurada por mais de 40 mil agentes de segurança (aí incluídos policiais, agentes da Força Nacional e militares), fez com que os cariocas fossem agraciados com a sensação de que viviam na tão sonhada cidade da paz, pacificada, dos deuses do olimpo carioca.

No meio disso tudo foi decretada, pelo governador em exercício, Francisco Dorneles, a falência do Estado do Rio de Janeiro, copatrocinador adimplente dos jogos olímpicos. Em contrapartida, salários dos servidores do estado atrasados, greves e situação de penúria das instituições públicas contrastava com o "Rio Olímpico", lindo como sempre, das TVs e jornais. Após os jogos, com a volta para casa dos agentes de segurança, e com as atenções agora voltadas para a iminente eleição para Prefeito, a cidade pacificada deu lugar à cidade real, e as já conhecidas manchetes das mazelas cotidianas voltaram às telas das TVs e às linhas dos jornais.

Tentando adotar uma ordem de catástrofes deste ano de 2016, segue-se um segundo turno das eleições municipais do Rio entre Marcelo Crivella, bispo da igreja neopentecostal Universal e o socialista Marcelo Freixo. E qual não foi o resultado? Ganhou o voto nulo/branco e as abstenções recordes. Mas quem foi eleito prefeito do Rio de Janeiro no xadrez das eleições neste ano que insiste em não acabar? O xeque-mate foi mesmo do bispo. Nem vou falar das eleições na cidade de São Paulo, onde autodeclarado “não político” João Dória, teve o "mérito" de ganhar o pleito ainda no primeiro turno. Numa perspectiva resumida do que foram as eleições municipais no Brasil, sai de cena o PT e os partidos de esquerda, voltam à cena uma “neodireita” raivosa e os “chicago boys” do PSDB.

E para quem acha que está pouco, tomemos assento numa viagem para a Europa e vemos uma das maiores crises humanitárias da história, com o êxodo de refugiados das guerras na Síria e na África, rechaçados pelos países da hermética, xenófoba e combalida “zona do euro”, que sofreu um potente baque com a saída da Grã-Bretanha do bloco, após plebiscito que ficou conhecido como “Brexit”.

Viajando de volta, fazendo uma escala na Colômbia, outro plebiscito decidiu pela negação ao acordo de paz finalmente firmado entre o governo e as FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, pondo fim a um conflito que durava mais de 50 anos e que deixou mais de 250 mil vítimas.

Também na Colômbia, um acidente aéreo e uma das maiores tragédias do mundo esportivo pôs fim ao sonho da grande equipe da Associação Chapecoense de Futebol de conquistar a América do Sul, levando a uma onda de luto mundial no esporte e em todo Brasil. No dia seguinte ao acidente, ainda sob o luto pesado que abateu o Brasil com a tragédia da Chapecoense, os ilustres senadores brasileiros aprovaram em primeiro turno de votações a PEC 552, que congela os “gastos” públicos em saúde e educação por vinte anos, atrelando-os à inflação do ano anterior, em mais um atentado contra a constituição cidadã de 1988. E no horizonte legislativo, já aponta uma dura PEC da previdência, já admitida no Senado Federal, e vários outros projetos de leis que flexibilizam os direitos trabalhistas, além de uma medida provisória que nos impõe uma reforma profunda no ensino médio. 

No meio disso tudo, a humanidade perdeu para a eternidade Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, amado por muitos, odiado e incompreendido por outros tantos. Uma figura única que povoou e povoará o imaginário de milhões e que marcou para sempre a história da humanidade e do século XX. Outro que também perdeu a luta para morte neste ano de 2016 foi o inesquecível pugilista nascido Cassius Clay, e eternizado como Muhammad Ali. 

Mas, mesmo diante de tanto desalento, não podemos esquecer das resistências. Nesse mesmo ano, mais de 1000 instituições públicas de ensino foram ocupadas por estudantes, a maioria escolas de ensino médio, em oposição às medidas de cortes de investimentos do governo federal pela PEC 55 e também contra a medida provisória do Ensino Médio. Por isso, não devemos temer jamais e acreditar, apesar de tudo, num horizonte melhor. Mas enquanto isso não acontece, por favor, que venha logo janeiro para que possamos olhar para trás e ver pelo retrovisor esse ano que insiste em não acabar. Mas, diante de tantas notícias, já ia esquecendo que em janeiro de 2017 tem a posse do Trump, que foi eleito nesse nosso ano de 2016.

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