A mais pobre geração de gestores públicos

Os políticos das capitais de São Paulo e do Rio insistem em errar. Mas isso seria uma deficiência só deles ou teria relação com uma parca cultura política do Brasil atual?

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Estive ontem no Rio de Janeiro e já estou em São Paulo. Coincidentemente, as duas capitais foram palco de manifestações populares nas proximidades das sedes de governo e parlamento locais. Os políticos das duas localidades insistem em errar. A prefeitura de São Paulo anuncia o retorno ao boletim escolar e aulas de recuperação. Século XIX, para ser preciso. O que há de mais atrasado. Justamente um governo do PT, que teve em seus quadros Paulo Freire. São Paulo não soube implantar o sistema de ciclos, mas o populismo e arrogância impedem que assumam os erros. Os governantes preferem correr para a zona de conforto, que terá o apoio dos pais (que, em sua quase totalidade, não conhecem nada sobre processos de aprendizagem e funcionamento da mente).

Mas não é somente nessas duas capitais que repousam o atraso e a geração mais desqualificada de gestores públicos da nossa história republicana. Em outra capital um prefeito demitiu um diretor de área porque ele simplesmente afirmou, numa reunião de trabalho, que o prefeito poderia lhe dar uma folga já que não tirava férias fazia tempo. Falou em tom de brincadeira, mas como era dirigente de um partido aliado, foi ouvido ao pé da letra e ganhou muitos dias para descansar: foi exonerado no dia seguinte. O que poderia ser um erro cognitivo se revelou um padrão. Tempos depois, numa outra reunião de governo, este prefeito solicitou a um secretário que as pichações em muros da cidade que divulgavam "trabalhos" de uma vidente fossem coibidas. Uma técnica da área ponderou que não se tratava de uma resolução simples porque seria difícil autuar um pichador desconhecido. O prefeito ignorou e voltou a solicitar, em voz alta, que se tomassem providências, no que foi apartado, outra vez, pela técnica, detalhando as dificuldades técnicas para dar uma solução duradoura. Resultado: foi exonerada.

Este é o método autocrático e pouco técnico desta nova geração de gestores públicos que inunda nosso país. Gente que faz pastiche da gestão privada e que não possui tolerância ou capacidade de coesão. Não sabem pensar politicamente e são profundamente ansiosos para alcançar "resultados". Ora, em gestão pública, não basta o resultado, mas também o método. Por isto que se utilizam vários indicadores para avaliar a ação pública. Os indicadores de resultado revelam se uma meta definida pelo governo foi realmente atingida.

Mas e se esta meta foi equivocada? Daí o uso de indicadores de impacto, que avaliam em que medida uma ação atingiu e alterou a vida do cidadão, comparando o momento atual com o anterior à ação governamental. Se construir uma ponte em local sagrado, muitas vezes este "resultado" ofenderá a crença de muitos moradores.

Humildade, tolerância e escuta. Atributos que faltam ao currículo destes novos gestores com estilo yuppie. Acrescentaria ainda capacidade técnica. Sua concepção de gestão é rasa, quasse fundada no lugar comum.

O que me pergunto é se os jovens que fizeram manifestações de rua ontem, no RJ e SP, seriam diferentes se assumissem o controle da gestão de suas cidades. Em outras palavras: as deficiências dos atuais gestores públicos seriam só deles ou teriam relação com uma parca cultura política do Brasil atual?

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