A nossa espúria humanidade

Os homossexuais são humanos? Os bandidos são humanos? Eles têm direitos? Não. Não no Brasil - e em alguns outros poucos países ditos civilizados



Os homossexuais são humanos? Os bandidos são humanos? Eles têm direitos? Não. Não no Brasil - e em alguns outros poucos países ditos civilizados. Civilizados?! Homossexuais não são humanos; são "bandidos"; são "doentes". No Brasil até a lógica mais simplória é corrompida, desrespeitada, achincalhada.

Um pastor que responde por homofobia e estelionato no STF foi nomeado presidente (!) da Comissão de Direitos Humanos da Câmara! Um ex-PM que matou 36 suspeitos de crime em supostos "confrontos" foi eleito vereador pelo PSDB e chegou a ser indicado pelo seu partido para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo. O que pretendem essas supostas "excelências", os senhores parlamentares?! Avacalhar o Legislativo; o país; a política; os direitos humanos?!

E, afinal, o que são direitos humanos? Para que servem? Os direitos humanos não devem servir apenas para os "bons"? Para os "eleitos"? Mas, afinal, quem são esses "eleitos"; quem são os "bons"? Qual é, afinal, a lógica da nossa humanidade; dessa nossa espúria humanidade? Vejamos a seguir.

Negros não são humanos. Os negros são uma raça inferior que só serve para servir. Passado já mais de um século da abolição da escravatura os negros ainda são discriminados e continuam sendo tratados como inferiores. Porém, a mulata é o maior tesão. E viva o samba, a capoeira, o caruru e o vatapá!

Onde foi parar a nossa humanidade?

Mulheres não são humanas. Mulheres são espancadas e/ou assassinadas por seus maridos ou namorados, quase todos os dias, só porque estes se acharam traídos ou abandonados. Mas esse é apenas um crime "passional". Mulheres são "diabólicas", "oferecidas". Honra se lava com sangue. "Desonrados" e "abandonados", os homens se redimem na morte. Aumentou 600% - isso mesmo: seiscentos por cento! – os casos de violência às mulheres em 6 anos – diz o jornal hoje. Seiscentos por cento!

Onde foi parar a nossa humanidade?

Nordestinos não são humanos. São, também estes, uma raça inferior. São gabirus, cabeças-chatas; só servem para trabalhar na construção civil e despencar de andaimes pingentes.

Judeus não são humanos. "Japas" tampouco são humanos.

Onde foi parar a nossa humanidade?

Bandidos não são humanos. Bandido bom é bandido morto. Sabe quanto custa um criminoso para a sociedade? Sabe quanto custa manter um "vagabundo" desses à custa do erário; do nosso suado imposto?! Bandido tinha que ser assassinado com um único tiro certeiro e a família ainda deveria pagar o preço da bala ao Estado.

Sem-terra e sem-teto não são humanos. Menores infratores não são humanos. Viciados em crack não são humanos.

Onde foi parar a nossa humanidade?

Homossexuais não são humanos. Homossexuais não, viados mesmo! Viados! Pois são assim que os chamamos, os xingamos. Chibungo! Franchona! Sapata! Falso ao corpo! "Falso ao corpo". Era assim que um antigo crítico de cinema na Bahia do anos 1980, um septuagenário à época, de modo obsessivo denominava os gays, quase todos os dias em suas colunas no jornal A Tarde da Bahia. Colunas que deveriam conter... comentários críticos sobre filmes. Mas traziam inúmeros vitupérios gratuitos aos gays. O preconceito e a intolerância quase sempre são gratuitos e obsessivos.

Homossexuais, usurpados de sua humanidade, são espancados nas ruas das cidades, na calada da noite e à luz do dia. Só porque denotam nos gestos uma certa... fragilidade; só porque são supostamente "efeminados". Pai e filho foram violentamente espancados numa feira agropecuária ano passado. Afinal eram dois homens andando de mãos dadas, uma pouca vergonha! Chibungos! Viados! Homossexuais não são humanos.

Onde foi parar a nossa humanidade?

Quem sabe assim, ouvindo os incômodos ecos da nossa barbárie e bestialidade, acordemos do pesadelo em que afundamos nesse sono profundo e despertemos enfim para a nossa verdadeira humanidade. E nos lembremos por fim que somos todos humanos, demasiado humanos.

[N.A. – Os impropérios e vitupérios assacados nesse texto não refletem, em absoluto, a minha opinião, servem apenas, esclareço, como recurso retórico para ilustrar/reforçar o argumento utilizado no texto]

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