Ao desqualificar dados de desmatamento do Inpe, Bolsonaro afaga o agronegócio

“A base do agronegócio está muito preocupada porque o Inpe desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um sistema muito eficaz e reconhecido internacionalmente de detecção de focos de queimada, em grande parte ilegais, queimadas criminosas”, diz cientista político

(Foto: Foto: Agência Brasil)

Rede Brasil Atual — Há uma lógica por trás das declarações polêmicas e aparentemente absurdas do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Para o professor Wagner Romão, do departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ao analisar a critica feita por Bolsonaro aos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não se trata de declarações gratuitas.

“Quando ele coloca em dúvida os dados do Inpe, ele está falando para uma grande parcela do agronegócio que ainda atua de uma maneira muito atrasada e que tem o Inpe como um dos seus principais inimigos, porque quer desenvolver uma expansão descontrolada da fronteira agrícola no Brasil”, diz Romão. 

O professor destaca que as análises feitas pelo Inpe têm sido relevantes para o Brasil comprovar, inclusive no exterior, o interesse (ou não) de preservar a Amazônia e outras florestas do país. Ao criticar os dados do instituto, Bolsonaro dialoga diretamente com o agronegócio, uma de suas bases políticas mais importantes.

“A base do agronegócio está muito preocupada porque o Inpe desenvolveu, ao longo dos últimos anos, um sistema muito eficaz e reconhecido internacionalmente de detecção de focos de queimada, em grande parte ilegais, queimadas criminosas”, afirma o cientista político.

Ao mesmo tempo em que acredita haver lógica por trás das declarações aparentemente absurdas de Bolsonaro, Wagner Romão também avalia haver o interesse em manter o debate polarizado e não aceitar nenhum tipo de crítica. É o caso, por exemplo, da declaração do general Luiz Rocha Paiva, integrante da Comissão de Anistia, que o criticou pela fala preconceituosa contra nordestinos.

Como um dos alvos de Bolsonaro foi o governador do Maranhão, Flávio Dino, filiado ao PCdoB, o presidente imediatamente relacionou o general à guerrilha do Araguaia, movimento que teve participação do PCdoB quando atuava na clandestinidade, entre os anos 1960/70.

“Essa é a lógica com a qual ele quer imprimir a sua versão dos fatos e fazer um jogo político baixo, sem lógica racional, como ele faz com todos aqueles que o criticam. Ele tem uma ação muito reativa e impensada, mas ao mesmo tempo demarcando muito bem aqueles que estão com ele e aqueles que estão contra ele, ou seja, ele não admite critica nenhuma, venha de onde venha”, afirma Wagner Romão.

“Muita gente diz que essas declarações são uma cortina de fumaça”, analisa Romão, ponderando que isso é uma parte da verdade. “De um lado tem, realmente, muita coisa em jogo, medidas que estão sendo tomadas e que a gente não dá atenção, mas por outro lado essas declarações mostram muito bem o equívoco que foi essa eleição.”

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