Biden entregou ao Brasil provas de tortura durante a ditadura, que Bolsonaro nega

O candidato à Presidência dos EUA Joe Biden, favorito no pleito de 3 de novembro, entregou ao governo Dilma Rousseff relatórios que detalham informações sobre censura, tortura e assassinatos cometidos pelo a ditadura militar brasileira. Ex-capitão, Jair Bolsonaro faz elogios ao regime militar e nega as torturas

Joe Biden com Dilma Rousseff. Bolsonaro e cena da ditadura no Brasil
Joe Biden com Dilma Rousseff. Bolsonaro e cena da ditadura no Brasil (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR | Marcos Corrêa/PR | Reprodução)
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247 - O candidato à Presidência dos Estados Unidos Joe Biden (Partido Democrata) entregou ao governo brasileiro provas de que práticas de torturas na ditadura militar (1964-1985). Em 17 de junho de 2014, ele, então vice-presidente de Barack Obama, desembarcou em Brasília (DF) com um HD que tinha 43 documentos produzidos por autoridades americanas entre os anos de 1967 e 1977. Os relatórios americanos detalhavam informações sobre censura, tortura e assassinatos cometidos pelo regime militar no Brasil. O relato foi publicado em reportagem da BBC Brasil

De acordo com levantamento da Human Rights Watch (HRW), divulgado no ano passado, 20 mil pessoas foram torturadas na ditadura brasileira. Pelo menos 434 pessoas foram mortas ou seguem desaparecidas, mostraram números oficiais. Durante o período, 4.841 representantes eleitos pelo povo foram destituídos de seus cargos.

"Estou feliz de anunciar que os Estados Unidos iniciaram um projeto especial para desclassificar e compartilhar com a Comissão Nacional da Verdade documentos que podem lançar luz sobre essa ditadura de 21 anos, o que é, obviamente, de grande interesse da presidente", afirmou Biden, sorridente, ao lado da então presidente Dilma Rousseff, deposta por um golpe em 2016. "Espero que olhando documentos do nosso passado possamos focar na imensa promessa do futuro", acrescentou. 

Deposta por um golpe em 2016, Dilma foi torturada nos porões da ditadura em Juiz de Fora, Zona da Mata de Minas Gerais. Também foi alvo do regime em São Paulo e no Rio de Janeiro. 

A iniciativa de Biden confronta-o com Jair Bolsonaro, que já fez apologia das torturas, da pena de morte para bandidos e já defendeu a ditadura dos anos 60 aos 80. Durante a votação do impeachment de Dilma, por exemplo, em 17 de abril de 2016, o então deputado federal exaltou Carlos Brilhante Ustra, ex-chefe do Doi-Codi de São Paulo e torturador na ditadura, em seu voto a favor do impeachment no dia 17 de abril. Ao proferir seu voto, ele disse que o coronel é o "pavor de Dilma Rousseff" (veja aqui).

Cinco anos após o encontro entre Dilma e Biden, Bolsonaro desqualificou por completo as revelações feitas pela CNV. "A questão de 64 não existem documentos se matou ou não matou, isso aí é balela, está certo?", disse ele, ao ser questionado sobre uma declaração sua dada no dia anterior para atingir o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz. Bolsonaro disse pra Santa Cruz que poderia esclarecer a ele como seu pai havia desaparecido.

De acordo com a CNV, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, pai do presidente da OAB, foi visto pela última vez em fevereiro de 1974, quando foi preso no Rio de Janeiro por agentes do DOI-Codi. Oliveira jamais voltou a ser visto. Ele morreu nas mãos dos agentes.

"Comissão da Verdade? Você acredita em Comissão da Verdade? Você quer documento para isso, meu Deus do céu? Documento é quando você casa, quando você se divorcia. Eles têm documento dizendo o contrário?, acrescentou Bolsonaro.

Em julho de 2016, ele afirmou: "O erro da ditadura foi torturar e não matar" - Um relatório da CIA, aberto em 2015, apontou que o presidente Ernesto Geisel teria aprovado a execução sumária de adversários do regime. "Errar, até na sua casa, todo mundo erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece", disse Bolsonaro à rádio Super Notícia.

Práticas de torturas

Ao revelarem a forma como as pessoas considerada subversivas ao regime militar brasileiro, os documentos apontaram que "o suspeito é deixado nu, sentado e sozinho em uma cela completamente escura ou refrigerada por várias horas. Na cela há alto-falantes, que emitem gritos, sirenes e apitos em altos decibéis". "Então, o detido é interrogado por um ou mais agentes, que o informam qual crime acreditam que a pessoa tenha cometido e que medidas serão tomadas caso não coopere. Nesse ponto, se o indivíduo não confessa, e se os agentes consideram que ele possui informações valiosas, ele é submetido a um crescente sofrimento físico e mental até confessar", continuaram.

"Ele é colocado nu, em uma pequena sala escura com um chão metálico, que conduz correntes elétricas. Os choques elétricos, embora alegadamente de baixa intensidade, são constantes e eventualmente se tornam insuportáveis. O suspeito é mantido nessa sala por muitas horas. O resultado é extrema exaustão mental e física, especialmente se a pessoa é mantida nesse tratamento por dois ou três dias. Em todo esse período, ele não recebe comida nem água".

O texto acima é um trecho de um documento de sete páginas enviado pelo consulado americano do Rio de Janeiro ao Departamento de Estado, em 1973. Também foi trazido por Biden em sua visita.

Mais detalhes

De acordo com Peter Kornbluh, diretor do Projeto de Documentação Brasileiro do Arquivo de Segurança Nacional Americano, em Washington D.C., "esse é um dos relatórios mais detalhados sobre técnicas de tortura já desclassificados pelo governo dos Estados Unidos".

"Os documentos americanos ajudam a lançar luz sobre várias atrocidades e técnicas (de tortura do regime). Eles são evidências contemporâneas dos abusos dos direitos humanos cometidos pelos militares brasileiros. Quase todo o mundo acredita neles. As pessoas que preferem não reconhecer a verdade sobre o que foi feito são os Bolsonaros e aqueles que realmente cometeram esses crimes", continuou.

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