Comércio na periferia atende ’meia-porta’ e por whatsapp, em função da quarentena

Temendo pela sobrevivência e sem apoio efetivo dos governos, pequeno comércio na periferia cria estratégias para driblar a quarentena por coronavírus

Rio de Janeiro tem o primeiro dia de comércio fechado por determinação da prefeitura
Rio de Janeiro tem o primeiro dia de comércio fechado por determinação da prefeitura (Foto: Tania Regô/Agência Brasil)

“A gente ouve falar que o governo vai ajudar, mas, na verdade, nenhuma ajuda nunca chega aqui”, diz Luiz*, que tem uma pequena loja de utilidades domésticas no Grajaú, extremo sul da capital paulista. Com a decretação de quarentena na capital paulista e no estado de São Paulo, devido à epidemia de coronavírus, ele fez “alguns malabarismos” para manter o pequeno comércio que mantém a família de seis pessoas, mais oito funcionários. “Eu tô funcionando assim”, diz Luiz, apontando as portas baixas, mas com cerca de 60 centímetros de abertura.

“Se o cliente encosta, um funcionário sai e vai ver o que ele precisa. Aí volta e separa, leva a maquininha até o carro. E pronto, o cliente não precisa nem sair do carro”, explica. Ele também disponibilizou o número pessoal para as pessoas fazerem os pedidos pelo WhatsApp e depois só passarem para pegar. “É tipo um drive thru de coisas para casa”, brinca.

A situação de Luiz é comum em outros bairros da capital paulista. Cartazes com números para contato via WhatsApp e portas entreabertas estão por toda parte. Pequenos comerciantes, sem condições para acessar benefícios governamentais e financiamentos especiais, estão preocupados com os impactos da epidemia de coronavírus no país, em especial na cidade de São Paulo, que concentra o maior número de casos e mortes. O Brasil tem 2.985 casos confirmados de infecção por coronavírus, com 77 mortes.

Nada de efetivo

O governo de Jair Bolsonaro anunciou medidas de apoio à população mais vulnerável, com aumento no Bolsa Família – ainda indefinido – e auxílio de R$ 200 ao mês, por três meses, para trabalhadores informais inscritos no Cadastro Único. Além disso, autorizou a antecipação de 13° salário, para aposentados e pensionistas, e abonos salariais, redução de juros no crédito consignado – que desconta direto na folha de pagamento. Também propôs a prorrogação do prazo para pagamentos de impostos de empresas e empréstimos com juros baixos no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Nenhuma das medidas foi efetivada até o momento. Somente uma medida provisória flexibilizando ainda mais as leis trabalhistas foi encaminhada ao Congresso Nacional. “Eu nunca vi essas ajudas. No máximo, a gente consegue uma ajuda do Sebrae e algum empréstimo de banco mesmo. BNDES eu nunca vi”, critica João*, dono de uma pequena casa de materiais de construção na Vila Maria, zona norte da capital paulista.

Como Luiz*, ele mantém o comércio a “meia porta”, atendendo por encomenda, feitas por telefone ou WhatsApp. “Pelo amor de Deus. Com o que a gente ganha aqui já é difícil. Se eu parar totalmente, vamos passar necessidade”, diz ele, que hoje vive entre o medo de não ganhar nada no dia e o de uma fiscalização da prefeitura. “A gente entende o risco do coronavírus. Eu tenho 62 anos, tenho medo. Mas o governo devia fazer algo pelo povo, não pode largar a gente assim”, disse.

Movimentos populares de todo o Brasil apresentaram uma série de medidas para enfrentar os problemas sociais decorrentes da epidemia de coronavírus. Entre as propostas, está a criação de um seguro quarentena para trabalhadores informais no valor de um salário mínimo (R$ 1.045); suspensão dos pagamentos de contas de água, luz e gás; apoio para pequenos comerciantes e financiamentos a juro zero; distribuição de alimentos e itens de higiene e limpeza para famílias vulneráveis, e ampliação do Bolsa Família para o valor de um salário mínimo, além de apoio aos trabalhadores informais.

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