Credibilidade do Itamaraty é posta à prova com alinhamento automático aos EUA, diz analista

A decisão brasileira de seguir as linhas da diplomacia de Washington joga contra o Itamaraty e cria um "racha" dentro do governo de Jair Bolsonaro, avalia a professora de relações internacionais Cristina Pecequilo.

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Da Agência Russa Sputnik News - Durante o mandato presidencial de Bolsonaro, o Brasil acumulou episódios em que adotou a mesma postura diplomática dos Estados Unidos: defendeu a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém (plano que acabou suspenso pela pressão do mundo árabe), votou contra uma resolução da ONU que condena o embargo dos Estados Unidos a Cuba, reconheceu o autoproclamado Juan Guaidó como presidente da Venezuela, entre outras situações.

"Pelo menos em termos retóricos, há um alinhamento automático com os Estados Unidos", diz Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em entrevista à Sputnik Brasil.

Entretanto, em temas com repercussões comerciais, Bolsonaro adota uma "política compensatória", diz a analista. Pecequilo ressalta a recente declaração do presidente brasileiro em defesa das trocas comerciais entre Brasil e Irã. A postura de Bolsonaro contrastou com a nota emitida pelo Ministério das Relações Internacionais, que classificou o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani como um episódio da "luta contra o flagelo do terrorismo" e pediu "unidade de todas as nações contra o terrorismo em todas as suas formas".

As autoridades iranianas convocaram a a encarregada de negócios da embaixada do Brasil no Irã após a divulgação da nota para prestar esclarecimentos. 

Ainda em 2019, o Brasil teve outro atrito com Teerã quando a Petrobras, por receio de sanções estadunidenses, se recusou a reabastecer dois navios do Irã que estavam no Paraná. O impasse durou dias e só terminou após o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, determinar o fornecimento de combustível. 

Para a professora da Unifesp, essa dissonância resulta na perda de "credibilidade" do Itamaraty. 

Pecequilo também refuta uma tese que é defendida com frequência por Bolsonaro, de que seu governo seria meramente técnico e desprovido de ideologia.

"Não existe política sem ideologia, seja interna ou externa. Então sempre vai haver ideologia. O que aconteceu na política brasileira, e global, é que se tomou uma retórica de dizer que aquilo que não concordamos é ideológico", diz. "Na verdade, o que estamos vendo é só a substituição de uma ideologia por outra."

O chanceler Ernesto Araújo acredita que as mudanças climáticas fazem parte de uma trama para "sufocar o crescimento econômico nos países capitalistas democráticos e favorecer o crescimento da China". Já o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins, usou uma saudação franquista, cunhada pelos adeptos do ditador espanhol Francisco Franco, para cumprimentar o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ).

Em entrevista à BBC Brasil, o ex-ministro da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, classificou a política externa brasileira como "profundamente ideológica" e afirmou que o Brasil tem um "alinhamento automático" com os Estados Unidos. 

A discordância do ex-ministro bolsonarista demonstra um "racha" na gestão Bolsonaro, avalia Pecequilo: "O grupo dos militares passou a representar dentro do governo Bolsonaro um setor mais moderado em termos de política externa, e de defesa de maneira geral. Muitas dessas declarações pró-americanas e mais envoltas em messianismo religioso não são declarações e posturas desse grupo [militar]. Então, é um racha."

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como:

• Cartão de crédito na plataforma Vindi: acesse este link

• Boleto ou transferência bancária: enviar email para [email protected]

• Seja membro no Youtube: acesse este link

• Transferência pelo Paypal: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo Vakinha: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo Catarse: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo APOIA.se: acesse este link

• Financiamento coletivo pelo Patreon: acesse este link

Inscreva-se também na TV 247, siga-nos no Twitter, no Facebook e no Instagram. Conheça também nossa livraria, receba a nossa newsletter e ative o sininho vermelho para as notificações.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247