Dante Lucchesi: uma escolha nem um pouco difícil

"Ao manter Bolsonaro no governo, não obstante as dezenas de crimes comuns e de responsabilidade que este já cometeu, a elite econômica brasileira e os setores reacionários da classe média brasileira parecem estar dispostos a se deparar com uma nova “escolha muito difícil” no ano que vem", escreve o sociolinguista Dante Lucchesi

(Foto: Stuckert | Marcos Corrêa/PR)
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Por Dante Lucchesi*- A afirmação de que a escolha entre Bolsonaro e Haddad era “uma escolha muito difícil”, feita em um editorial do jornal Estado de São Paulo, às vésperas da eleição de 2018, não passou de um gesto de retórica. Na verdade, foi a senha para que a elite econômica e a classe média reacionária despejassem seus votos em um sujeito ignorante, preguiçoso e absolutamente incapaz, que defendia a tortura e a ditadura militar, em detrimento do voto em um professor universitário, com excelentes gestões à frente do ministério da educação e da prefeitura de São Paulo, de espírito republicano e que faz da defesa da democracia sua profissão de fé.

Até o grande mote da propaganda de Bolsonaro, que ele não seria corrupto e combateria o status quo da política, era obviamente falacioso, visto que Bolsonaro era, há quase trinta anos, um deputado do baixíssimo clero que praticava a corrupção rastaquera (apropriação indevida do salário de funcionários-fantasmas  do seu gabinete e de seus filhos e emissão de notas frias para obter ressarcimento da Câmara), já que suas evidentes limitações intelectuais o impediam de participar de esquemas mais elaborados de corrupção – além de ter estreitas ligações com o crime organizado das milícias cariocas.

Então, por que não foi difícil para elite econômica e a classe média reacionária elegerem um miliciano fascista em 2018? Porque acima de qualquer princípio democrático ou civilizatório, o que estava realmente em jogo era impedir que um projeto de distribuição de renda, de respeito e inclusão de segmentos marginalizados, como negros, quilombolas, indígenas e LGBTQIA+, e uma política externa altiva e independente voltasse a governar o país.

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Afinal de contas esses setores, com o protagonismo da mídia capitalista e do judiciário partidarizado, não haviam patrocinado o golpe de 2016, que depôs uma presidenta proba para colocar uma quadrilha no governo à toa. Assim, não hesitaram em manter a farsa da Lava Jato, que prendeu por 580 dias um ex-presidente da República, sem qualquer prova e violando escandalosamente o código de processo civil. Acionaram também generais golpistas e entreguistas, para pressionar o STF, para negar um habeas corpus ao presidente Lula, e o STE, para ignorar as gritantes fraudes eleitorais, nomeadamente o tsunami de fake news propagado pelo WhatsApp e financiado por empresários inescrupulosos, que foi decisivo para eleição do “mito”. Valia tudo contra o PT, ou melhor, sempre vale tudo para fazer prevalecer o interesse do grande capital em detrimento dos direitos da maioria da população: desrespeitar a Constituição e o devido processo legal, violar os direitos fundamentais do cidadão, fraudar eleições, manipular a comunicação social etc.

E os ganhos do grande capital financeiro e do imperialismo norte-americano foram enormes desde o golpe de 2016. O monopólio do pré-sal foi quebrado e hoje é dominado por multinacionais; aprofundou-se em muito a exploração do trabalho, com as sucessivas descaracterizações da legislação trabalhistas, através do que também se manietou os sindicatos; multinacionais brasileiras, como a Odebrecht e a OAS foram desbaratadas, assim como o a indústria naval e o programa nuclear; a reforma da previdência foi aprovada, com a expectativa de tirar um trilhão de reais de inválidos, idosos e trabalhadores que percebem até dois salários mínimos, para entrega-los a grande especulação financeira; o patrimônio público também está sendo entregue a preço vil para o grande capital, com as privatizações da Eletrobrás e dos Correios; foi feito o desmonte da Petrobrás, assim como a fixação do preço da gasolina e do diesel em dólar, só para favorecer os grandes acionistas nacionais e estrangeiros; e foi dada a autonomia do Banco Central, para que este deixe de ser um instrumento da política monetária do governo e passe a servir exclusivamente ao grande capital financeiro.

São esses interesses que ainda mantém no governo do país um presidente golpista e genocida, que ataca a legislação para facilitar o acesso do crime organizado às armas; que promove a devastação da Amazônia e do Cerrado, ao apoiar a extração de madeira e o garimpo ilegais, bem como a grilagem; que libera agrotóxicos proibidos em todos os países civilizados, para aumentar o lucro do agronegócio; que levará à morte mais de 600 mil brasileiros, com uma condução de política de saúde absolutamente inepta, corrupta e negacionista; que promove o desmonte dos sistemas de saúde e educação públicas; que ataca a ciência e a cultura; e que fomenta o racismo, o feminicídio e a homofobia. Para o grande capital e a mídia corporativa, não importa que 15 milhões de brasileiros estejam desempregados e que 20 milhões não tenham o que comer e que a inflação esteja disparando. Eles continuam apoiando o ministro da economia de Bolsonaro (formado em Chicago e treinado na ditadura de Pinochet) e pressionando-o para que retire mais direitos trabalhistas e desmonte o serviço público (agora com a famigerada reforma administrativa), acelere as privatizações e reduza seus impostos, não obstante ter o Brasil o sistema tributário mais injusto do mundo, em que os que ganham mais pagam menos.

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Mesmo quando Bolsonaro cede a tentações populistas (como aumentar oportunisticamente o Bolsa Família) ou quando tenta desencadear um golpe de Estado (como o fez no 7 de setembro), basta um aparente recuo, como o último, patrocinado pelo notório golpista Michel Temer, para “tranquilizar o mercado” e deixar um Congresso fisiológico e corrupto livre para barrar o impeachment do genocida, em troca de bilhões do orçamento público em emendas parlamentares.

O grande capital e os oligopólios midiáticos, que o servem, sabem que este projeto de poder antinacional e antipopular não estaria governo do país se não houvesse manipulação  da comunicação e a violação do estado democrático de direito, como vem acontecendo desde 2016. Em todas as eleições minimamente limpas que se realizaram no Brasil neste século, o PT elegeu o presidente da República. Tudo indica que isso acontecerá novamente em 2022. Porém, Bolsonaro não esconde seu intento de tumultuar as eleições e tentar um golpe autoritário, caso se confirme sua provável derrota.

Ao manter Bolsonaro no governo, não obstante as dezenas de crimes comuns e de responsabilidade que este já cometeu, a elite econômica brasileira ( a elite do atraso, como bem denominou Jessé Souza) e os setores reacionários da classe média brasileira parecem estar dispostos a se deparar com uma nova “escolha muito difícil” no ano que vem, entre aceitar os resultados de uma eleição limpa que leve de volta ao governo o presidente Lula, ou patrocinar mais um golpe contra a democracia – este cabal e definitivo.

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*Sociolinguista e autor do livro Língua e Sociedade Partidas (Contexto, 2015).

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