Departamento médico da Aeronáutica aconselhou o uso de cloroquina

Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, destacou que um ofício da Aeronáutica deixou claro que o uso da cloroquina "foi uma política adotada pela Força Aérea para o 'tratamento moderado' da Covid-19"

Medicamento recomendado por autoridades do governo não têm comprovação científica contra a Covid-19
Medicamento recomendado por autoridades do governo não têm comprovação científica contra a Covid-19 (Foto: Divulgação)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Há cada vez mais evidências de que o governo incentivou o uso de remédios sem eficácia comprovada para o combate à Covid-19. Além de todas as fotos e vídeos que se viu sobre a atuação do governo neste sentido, o ofício nº 109/SECGAB/8657 – Protocolo COMAER nº 67430.006587/2020-23 – emitido pelo Departamento de Saúde da Aeronáutica, no dia 31 de agosto de 2020, comprova em seu enunciado que esta foi uma prática adotada, por exemplo, naquela repartição oficial. O ofício leva a assinatura do Major Brigadeiro Médico José Luiz Ribeiro Miguel – Dir. da Diretoria de Saúde da Aeronáutica (DIRSA).

O ofício tem no campo “assunto”: “Orientação Sistêmica 10/DIRSA – Tratamento dos casos leves e moderados da COVID-19”. O documento deixa claro que esta foi uma política adotada pela Força Aérea para o “tratamento moderado” da Covid.

Levando-se em conta que a doença tem ainda nuances que estão sendo pesquisadas e que os profissionais da saúde, na ocasião, ainda tateavam em busca de tratamentos que pudessem salvar vidas, causa estupefação verificar que o Departamento médico da Aeronáutica emita ofício para “orientar” qualquer tipo de tratamento “precoce”.

“1. Ao cumprimentar os Senhores (as) Diretores e Comandantes, passo a tratar de orientações, fins de que sejam adotadas medidas de tratamento dos casos leves e moderados da COVID-19”.

O ofício tem uma série de “considerandos” apontando para um único desfecho: o aconselhamento ao uso da “cloroquina”, substância que, convém não duvidar, pode ter sido ministrada até para as emas do Planalto. Alguns itens do documento:

“5. Considerando que a ausência de evidências da eficiência destas substâncias não é

evidência definitiva de ineficiência;

6. Considerando que estes medicamentos estão sendo prescritos tanto na área de

saúde pública quanto privada, sem que haja um consenso no que tange a protocolo de uso e de acompanhamento;

7. Considerando que pessoas estão utilizando esses medicamentos sem prescrição

nem acompanhamento médico;

8. Considerando que a Diretoria de Saúde da Aeronáutica (DIRSA) tem como uma

de suas atribuições orientar tecnicamente as ações inerentes à prestação de serviços de saúde no âmbito do COMAER;

9. Considerando que as ações sistêmicas da DIRSA alcançam todo o SISAU e, por

conseguinte, a Família Aeronáutica, RESOLVE”. E daí por diante o que se vê são as diversas situações em que a cloroquina vira “pau pra toda obra”.

 Ao depor no Senado ontem (11/02), o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, respondeu a questionamentos sobre a atuação do governo no combate à Covid-19, cujo número de vítimas deve ultrapassar, hoje, 238 mil, no país. Foi instado a falar também sobre a orientação do ministério para o uso de remédios sem comprovação científica de eficácia, durante a pandemia, postura que vem sendo apurada judicialmente.

A perguntas em torno do assunto, respondeu que a sua pasta “não define qual remédio é usado” nos tratamentos, e disse que o ministério recomenda às pessoas, que procurem atendimento médico.

Negou que a pasta tenha adquirido cloroquina para distribuí-la dentro da política de combate à doença, embora a Folha de São Paulo tenha obtido um documento do Ministério da Saúde enviado ao Ministério Público Federal, na data de 4 de fevereiro, em que indica a distribuição do medicamento produzido pela Fundação Oswaldo Cruz, a pacientes com Covid-19. Para isto, o governo teria usado a Fundação para a produção de 4 milhões de comprimidos do remédio, lançando mão de recursos emergenciais liberados por medida provisória editada por Bolsonaro em abril.  

Além da denúncia trazida à tona pela Folha, o documento obtido pelo Jornalistas Pela Democracia e pelo 247,onde o uso da cloroquina é aconselhado em diversas situações, é fato gritante da postura do governo com relação à saúde da população. Como foi alertado pela Organização Mundial de Saúde OMS), a cloroquina não só não surte efeito na Covid-19, como pode acarretar a morte por arritmia cardíaca e outras complicações.

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