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Digimais, de Edir Macedo, registra ganho de R$ 639 milhões com fundos que dispararam 178% em poucos meses

Auditoria apontou dificuldade para validar avaliação de fundos ligados aos setores imobiliário e ESG adquiridos pelo banco de Edir Macedo

Edir Macedo (Foto: Reprodução (Redes Sociais))
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247 - O banco Digimais, controlado pelo empresário e líder religioso Edir Macedo, registrou um ganho de R$ 639,8 milhões após investir em fundos de investimento em participações (FIPs) que tiveram valorização de 178% em poucos meses, segundo informações divulgadas pela Folha de São Paulo. O caso foi destacado no balanço do segundo semestre de 2025 da instituição financeira e chamou atenção devido ao crescimento acelerado dos ativos em um curto intervalo de tempo.

A auditoria Clifton Larson Allen Brasil apontou que o Digimais aplicou R$ 357,6 milhões em cotas de FIPs recém-criados durante o segundo semestre de 2025. Em dezembro do mesmo ano, os investimentos já estavam avaliados em R$ 997,5 milhões. O documento ressalta, porém, que “não foi possível avaliar a razoabilidade ou potenciais ajustes decorrentes dos efeitos das avaliações”, uma vez que os fundos ainda não possuíam demonstrações financeiras auditadas quando o balanço do banco foi publicado.

Os dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que um dos fundos que receberam recursos do Digimais foi o Cajaíba FIP, que possui patrimônio de R$ 419 milhões. O fundo investe na Cajaíba Participações, empresa ligada a terras localizadas na Praia Grande da Cajaíba, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro.

Segundo informações do Ministério do Meio Ambiente citadas pela reportagem, a região é cercada por áreas preservadas de mata atlântica e abriga uma comunidade caiçara tradicional que vive da pesca artesanal. Os documentos apresentados à CVM indicam que o Digimais passou a investir no fundo apenas após 29 de agosto de 2025, data da primeira emissão de cotas do FIP.

Os FIPs são veículos de renda variável destinados à compra de participações em empresas abertas ou fechadas. Especialistas consideram incomum uma valorização tão expressiva em prazo reduzido. Um levantamento realizado por Antonio Sanvicente, doutor em finanças pela Universidade Stanford, analisou o desempenho de 50 FIPs entre dezembro de 2018 e dezembro de 2023 e concluiu que o retorno médio do setor foi de 23% no período. O estudo mostrou ainda que menos da metade dos fundos superou a inflação e que o ativo de melhor desempenho acumulou alta de 380% ao longo de cinco anos.

Em nota enviada à Folha, o Digimais afirmou que as ressalvas feitas pelos auditores decorrem apenas da diferença entre os prazos de fechamento contábil do banco e dos fundos investidos.

“Os Fundos de Investimentos em Participações (FIPs) foram adquiridos no segundo semestre de 2025 e ainda não haviam completado o ciclo para a emissão de auditorias próprias até o fechamento do balanço do banco”, declarou a instituição.

O banco também afirmou que os ativos foram avaliados por empresas independentes especializadas.

“O Digimais reitera que todos os ativos destes fundos foram mensurados a valor justo por laudos de empresas especializadas e independentes, garantindo a transparência e a consistência das suas demonstrações financeiras”, informou.

A auditoria do balanço apontou ainda outros pontos considerados sensíveis. Segundo o relatório, o Digimais investiu cerca de R$ 3 bilhões em fundos cujas demonstrações financeiras não puderam ser auditadas por falta de documentação. O valor representa aproximadamente 73% do total aplicado pelo banco nesse tipo de ativo.

Outro destaque do parecer envolve a venda de R$ 741,3 milhões em cotas do FIDC Hermon para a B.A. Empreendimentos e Participações, holding de Edir Macedo que controla o Digimais. A operação permitiu a reversão de provisões para perdas e teve impacto positivo de R$ 126 milhões no resultado da instituição financeira em 2025, ano em que o banco registrou lucro de R$ 31 milhões.

A auditoria afirmou que, embora a transação tenha respaldo jurídico, ela “não prevê remuneração compatível com sua natureza econômica”, o que pode indicar condições diferentes das normalmente praticadas no mercado. O relatório também informa que a operação segue pendente de pagamento e possui vencimento previsto apenas para dezembro de 2032.

Sobre essas observações, o Digimais sustentou que suas operações seguem padrões normais do setor financeiro.

“O Digimais reitera que todas as suas operações financeiras seguem estritamente as práticas usuais de mercado, são devidamente auditadas e estão integralmente alinhadas com as diretrizes e estratégias de uma instituição do seu porte”, afirmou o banco.

Em abril deste ano, o BTG Pactual assinou um acordo de intenção para compra do Digimais. Segundo a Folha, pessoas próximas às negociações afirmaram que a conclusão do negócio ainda depende de tratativas adicionais, incluindo discussões com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) sobre o financiamento da operação.

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