Dilma: o jogo com Lula foi tão duro ou mais que o impeachment

A ex-presidente Dilma Rousseff participou de palestra na última quinta-feira (13) na Universidade de Brasília, em lançamento do livro de artigos In Spite of You e expôs o caráter nocivo do golpe de Estado: "o jogo com Lula foi tão duro ou mais que o impeachment", diz ela

247 - A ex-presidente Dilma Rousseff participou de palestra na última quinta-feira (13/6) da semana passada, na Universidade de Brasília, em lançamento do livro de artigos In Spite of yYou e expôs o caráter nocivo do golpe de Estado: "o jogo com Lula foi tão duro ou mais que o impeachment", diz ela. 

Confira alguns trechos publicados pelo portal Correio Braziliense: 

Crescimento

Sem investimentos públicos nunca este país cresceu. Tem que ter investimentos público e privado. Agora, quando há crise, só aparece investimento público, porque o investimento privado se retrai e todo mundo sabe disso e todo mundo sabe no que deram as políticas de austericídio. Por exemplo, na União Europeia. Os Estados Unidos nunca praticaram. Eles receitam, mas não praticam. O Obama gastou US$ 735 bilhões resgatando bancos. Em 2013, mudou o papo e o que eles fizeram? Baixaram juros a zero. Como eles rolaram as dívidas deles? Juro zero ou perto de zero. Para você não explodir a dívida. Tá aí. Zero. Eles lá pegariam 10 impeachments? Isso é pedalada? Tinham que impedir a única possibilidade de mudança da correlação de forças, o companheiro Lula.

Lula

Ele dizia para mim. Você acredita que eles vão deixar eu ficar?  Depois que eles te tirarem? Eu confesso que eu tinha uma pequena esperança, que ele tivesse condição de sobreviver. O jogo com o Lula foi tão duro ou mais do que o do impeachment. A quantidade de mentira e humilhação. Ele diz para mim o seguinte: o que minha mãe ia pensar? O que você acha que eu sinto com eles me chamando de ladrão? Mas não é por isso que a luta por Lula Livre é importante. É porque foi com o Lula que ficou mais claro o caráter de exceção desse governo, de autoritarismo, e, ao mesmo tempo, o governo Lula expressa no coração e nas mentes da população brasileira que outro caminho é possível.

Impeachment

Eu acredito que, depois que a gente ganhou quatro eleições consecutivas, eles perceberam que eleição eles não ganhavam de nós. Perceberam aquilo que Naomi Klein fala, que é achar um momento crítico, e nesse momento crítico, botaram uma Ponte para o Futuro, por exemplo, e tinham que romper a legalidade. Qual é a questão fundamental? Eles tinham aprendido. Tentaram, em 2005, dar um golpe no Lula. Teve um senhor, um senador do DEM, que disse: “Nós vamos eliminar esse pessoal da face da terra”. Foi o Bornhausen. (Jorge Bornhausen). Lula ganhou a eleição em 2006 e o país, obviamente, teve uma conjuntura favorável, tudo bem, mas o país cresceu 7,5% no último ano do governo Lula. Então eles descobriram que não era fácil. Era só dar uma oportunidade e a gente enfrentava a crise. E isso era algo que eles não podiam deixar. O mais grave foi o seguinte. Com que forças eles construíram? Aí entra a questão da Lava-Jato.

Lava-Jato

É um segmento corporativo que não é integral, não se pode falar que é todo o Judiciário ou todo o Ministério Público, toda a Polícia Federal, mas há uma visão de salvadores da pátria que tem um conteúdo, do meu ponto de vista, neofascista. Isso se une a uma imprensa que constitui a quarta instância do julgamento, ou seja, julgam, condenam, sem direito ao contraditório. A mídia tem um papel central, principalmente a Globo, na destruição da Justiça no Brasil, porque, ao virar a quarta instância, embaralha o jogo. Não é só o que ela vazava da Lava-Jato. Ela julgava. Espero que nos vazamentos isso possa ser aferido.

Bolsonaro

Como surgiu o Bolsonaro? Antes de chegar ao WhatsApp, há razões políticas. Primeiro, a destruição do centro e da centro-direita. Eles se destruíram. Quando surge a extrema-direita, todos, incluindo a mídia, pensam o seguinte: ele vai para o poder, nós estamos com extrema fragilidade institucional, com o impeachment tendo sido dado, nós não damos conta do Lula, por isso, vamos incriminá-lo. Hoje visivelmente se sabe, com eles confessando. É um saber incontroverso. Eles pensaram: ele sobe, depois nós domamos, construímos uma situação conciliadora. Ele faz as reformas que nos interessa e depois nós construímos uma outra solução, porque ele não é civilizado. O problema é que o fascismo, ou o neofascismo, esse tipo de autoritarismo, não tem o chip da moderação. Fica todo mundo estarrecido, porque ele não se comporta dentro dos cânones. É óbvio que ele tem essas quatro forças de sustentação: mercado, uma parte do centro e centro-direita, as corporações judiciais e uma parte dos militares. Ocorre que eles estão com problema sério, porque o país não vai crescer desse jeito.

Democracia

Tivemos uma transição complexa. Uma parte dos segmentos militares não conseguiu superar o estágio anterior. Toda a vez que eu dou entrevista internacional perguntam por que, no Congresso Nacional, puderam defender a tortura e a ditadura militar. Coisa inconcebível em qualquer processo. Nossa justiça de transição perdoou o terrorismo de Estado: prisão, morte, tortura, exílio. Foram igualados como se os não estatais tivessem o mesmo poder dos estatais, portanto, aquela frase do Dom Quixote: “não há memória que o tempo não apague”, é certa. Só tem um jeito de o tempo não apagar. Se os homens e as mulheres construírem a história e resgatarem o que é o sentido histórico.

Governo militar

Fomos derrotados, mas não sofremos uma derrota estratégica agora, mas tática. Derrota estratégica foi nos anos 1960. Botaram uma parte expressiva da oposição brasileira na prisão, outra teve que sair do país e outra teve que ficar quieta ou clandestina. Isso é derrota. Nós estamos aqui. Tem gente na rua. E tem uma luz no meio do túnel. Não no fim, porque eu acredito que a mobilização das pessoas criará novas lideranças. Isso está nas manifestações e sobretudo tem que estar nas universidades. Eu acredito que nós entramos em uma fase melhor daqui para frente.

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