Feitos às pressas, acordos entre Brasil e EUA podem ser alterados por Biden

Segundo o professor de Relações Internacionais da Facamp Pedro Costa Júnior, o Protocolo ao Acordo de Comércio e Cooperação Econômica bilateral, assinado nessa segunda-feira (19) por Brasil e Estados Unidos, parece uma tentativa quase desesperada dos dois governos de dar sinais políticos aos eleitores pouco antes da eleição norte-americana

Trump trata Brasil como cobaia e estimula Bolsonaro a prosseguir com discurso da cloroquina
Trump trata Brasil como cobaia e estimula Bolsonaro a prosseguir com discurso da cloroquina (Foto: REUTERS/Carlos Barria)
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Sputnik Brasil - Nesta segunda-feira (19), Brasil e Estados Unidos assinaram o Protocolo ao Acordo de Comércio e Cooperação Econômica bilateral, descrito pelo Itamaraty como um pacote comercial ambicioso e moderno, que visa à promoção dos fluxos bilaterais de comércio e investimento.

O documento trata de medidas para facilitar o comércio e aumentar a cooperação aduaneira entre os dois países, estimula "boas práticas regulatórias" e reforça o compromisso mútuo com o combate à corrupção, sendo apontado como concretização da chamada Parceria para a Prosperidade, lançada no ano passado pelos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump. 

Para o professor de relações internacionais Pedro Costa Júnior, da Faculdade de Campinas (Facamp), o acordo assinado hoje (19) por Washington e Brasília parece refletir uma tentativa quase desesperada dos dois governos de dar sinais políticos a seus eleitores pouco antes da eleição presidencial norte-americana, que pode resultar em uma nova administração na Casa Branca e em um cenário de mais isolamento para o Brasil.

"Nesse caso, toda essa aproximação em que a primeira parte do mandato da política externa do governo Bolsonaro vem investindo poderia cair por terra. E, na verdade, ainda pode cair por terra, do ponto de vista comercial. Porque mesmo que esses acordos sejam assinados agora, depois, caso o candidato [Joe] Biden seja eleito presidente, ele pode retificar esses acordos", afirma o especialista em entrevista à Sputnik Brasil.

De acordo com o acadêmico, é importante destacar o fato de os acordos em questão não tratarem das sobretaxações impostas pelos Estados Unidos a produtos exportados pelo Brasil, o que tem sido objeto de queixa por parte de empresários brasileiros, a quem esses acordos, em teoria, deveriam favorecer.

Sobre as alegadas boas práticas regulatórias, Costa Júnior explica que tais medidas nada mais são do que as mudanças que estão sendo vistas no Brasil ao longo dos últimos quatro anos, com reformas supostamente modernizantes, como a trabalhista, a da previdência, e o teto de gastos. 

"Entre aspas, são as 'reformas modernizantes' que o Brasil vem adotando desde 2016, 2017, na esperança de retomar o crescimento econômico e, sobretudo, o emprego e a renda. Mas que, empiricamente, nós vimos resultados opostos. Desde então, o crescimento tem sido pífio, o desemprego tem aumentado e a renda tem caído."

O professor considera preocupante a maneira como essa cooperação para combater a corrupção, também tratada no protocolo bilateral, tem se mostrado sensível, com informações valiosas sendo passadas facilmente para um governo estrangeiro sob um "álibi de combate à corrupção". 

"Os Estados Unidos, como diz aí um secretário de Estado, não têm amigos, têm interesses. As relações geopolíticas são movidas por interesses. E têm muitos interesses no Brasil."

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