“Foi um vexame”, diz Jean Wyllys sobre bate-boca com embaixadora do Brasil na ONU

"Não apenas para mim, mas para toda a diplomacia e técnicos da ONU foi uma surpresa uma embaixadora se prestar ao papel de assediar um ativista dos direitos humanos que estava falando em um painel, em uma atividade paralela ao evento principal", disse Jean Wyllys em entrevista à Rádio França Internacional

“Foi um vexame”, diz Jean Wyllys sobre bate-boca com embaixadora do Brasil na ONU
“Foi um vexame”, diz Jean Wyllys sobre bate-boca com embaixadora do Brasil na ONU

Por Elcio Ramalho, para a Radio France Internacional O ex-deputado federal considerou um "vexame" para o governo brasileiro a atuação da embaixadora do país na ONU que o interpelou durante a participação em um evento na sede da instituição, na Suíça. A declaração foi feita neste sábado (16), em Paris, durante uma manifestação em homenagem à vereadora Marielle Franco.

Jean Wyllys se referiu ao caso no final de sua conferência e narrou para os participantes o episódio do dia anterior em Genebra. Ele afirmou ter sido "assediado" pela embaixadora Maria Nazareth Farani Azevedo durante sua apresentação em um painel que debatia a ascensão do populismo e novos autoritarismos.

A cena envolvendo o bate boca entre o ex-deputado federal e a embaixadora foi registrada em vídeo pelo jornalista Jamil Chade. As imagens mostram a embaixadora contestando afirmações de Wyllys, que durante sua palestra, entre outros assuntos, atribuiu a vitória de Bolsonaro nas eleições às fake news disparadas durante a campanha e a sua saída do Brasil devido às ameaças de morte que vinha sofrendo.

Depois de ler um texto, a embaixadora é vista se retirando local sem querer ouvir a resposta do ex-deputado, depois de ter seu pedido de direito a réplica negado.

"Não apenas para mim, mas para toda a diplomacia e técnicos da ONU foi uma surpresa uma embaixadora se prestar ao papel de assediar um ativista dos direitos humanos que estava falando em um painel, em uma atividade paralela ao evento principal", disse Jean Wyllys em entrevista à Rádio França Internacional.

Segundo ele, a embaixadora pediu direto de réplica para uma fala que ela não ouviu e com um texto que buscava constrangê-lo e encomendado para "dourar a pílula" em relação à imagem internacional do Brasil.

Perplexidade

Jean Wyllys disse ter ficado "perplexo" com a situação e sugeriu que a atuação de Maria Nazareth possa estar vinculada a declarações do presidente Jair Bolsonaro de que removeria do posto embaixadores que não defendam a imagem de seu governo.

"Talvez ela tenha medo de perder seu posto. Ela já vem sendo embaixadora junto à ONU nos governos Lula e Dilma e não tinha esse comportamento. Essa mudança repentina tem que ter uma explicação. Ou medo de perder o posto, portanto os privilégios, ou homofobia. Ela tem que se explicar por que se prestou a esse papel, e também o governo Bolsonaro tem que explicar por que mandou uma embaixadora assediar um ativista de direitos humanos dentro da sede da ONU", continuou.

"É um vexame. Uma embaixadora não pode se prestar a esse papel. Ela representa o Estado brasileiro e não necessariamente um governo ou a pessoa do presidente da República. Foi vergonhoso porque ela bateu boca e não me ouviu quando eu estava dando uma resposta", acrescentou.

Quem matou Marielle?

Antes de falar sobre o incidente, Jean Wyllys deu uma conferência no evento "Um ano do assassinato de Marielle Franco – Denunciar a violência de Estado no Brasil", organizado pela Anistia Internacional França, a Associação Autres Brésils e o grupo Coletiva Marielles. Ele confessou ter muita dificuldade de ver vídeos e fotos de Marielle, mas disse que ela continua viva e se multiplicou em milhões de pessoas que lutam pelas mesmas causas.

Wyllys disse que o assassinato de Marielle está ligado ao "modus operandi" da extrema direita que destrói publicamente a reputação de seus inimigos por meio de difamação e discursos de ódio. A identificação de dois suspeitos envolvidos na morte da vereadora não é garantia de uma aceleração nas investigações, segundo Wyllys.

"Eu não sei se elas vão se acelerar ou não, dependem de nós, para que a pressão continue e as investigações não degenerem. Quando eu estava lá (Brasil), criei na Câmara uma Comissão externa para acompanhar as investigações, agora, aqui fora, vou exercer outro tipo de pressão", afirmou.

Literatura e sobrevivência

Pela manhã, Jean Wyllys deu a palestra de encerramento na Universidade Sorbonne de uma jornada de estudos da Primavera Literária Brasileira que tem como tema "Qual Brasil? Qual Literatura?".

Como referência ao título de seu livro "Tempo bom, tempo ruim... identidades, políticas e afetos", Wyllys relatou para um grupo de estudantes, professores e intelectuais sua trajetória que começou em uma família pobre do interior da Bahia até a entrada no Congresso, que se refere ao "tempo bom", quando se tornou o primeiro deputado a entrar na Câmara defendendo abertamente a pauta de direitos da comunidade LGBTQ+.

As referências do ex-deputado ao "tempo ruim" começaram com as mudanças que levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff e culminaram na chegada ao poder do presidente Bolsonaro, qualificado por ele como "fascista, homofóbico e misógino".

Wyllys foi interrompido por aplausos ao lembrar de ter cuspido na cara do então deputado Jair Bolsonaro, que fez um elogio ao coronel Brilhante Ulstra, torturador do regime militar reconhecido pela justiça, ao aprovar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. "Depois de elogiar o torturador, ele me insultou mais uma vez e meu corpo se cansou de tanta ofensas, injúrias, difamações. Tive uma reação para muitos extremadas, mas para mim, lúcida", declarou.

O ex-deputado, que anunciou oficialmente a renúncia de um terceiro mandato em 24 de janeiro, afirmou ter tomado a decisão de se exilar no ano passado. "Eu não podia circular em espaços públicos e era insultado e ameaçado por populares. Sempre ouvia: 'Você não passa de 2019'. O Brasil se tornou inviável para eu viver", comentou.

"Eu não tenho como colaborar com um tempo bom estando morto. Tenho que colaborar vivo. Por isso, me exilei, para não ter o mesmo destino da minha amiga e companheira Marielle", afirmou.

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