Gabriel Priolli: autocrítica no rabo dos outros é refresco

O jornalista Gabriel Priolli escreve sobre a autocrítica que setores cobram por parte do Partido dos Trabalhadores; "Enquanto ela não for feita na extensão e profundidade que a tragédia brasileira exige, por todos e todas, com humildade e seriedade, será apenas e tão somente macartismo contra uma corrente política; não será legítima, não terá valor e não resolverá absolutamente nada", opina o jornalista 

Gabriel Priolli: autocrítica no rabo dos outros é refresco
Gabriel Priolli: autocrítica no rabo dos outros é refresco (Foto: Ricardo Stuckert)

Por Gabriel Priolli, no Facebook - Considerada a cobertura da reunião de balanço eleitoral do PT, ocorrida em Brasília na sexta-feira passada, que atraiu o interesse da imprensa tão somente para o surrado tema da "autocrítica" do partido, cabe observar o seguinte, em caráter definitivo:

Sim, o PT deve fazer uma ampla, rigorosa e aberta autocrítica.

Tem muito a explicar como distanciou-se dos princípios e das práticas que fizeram dele o grande instrumento da luta popular no Brasil, e que lhe permitiram conquistar a confiança do povo.

Deve explicar por que rendeu-se tão facilmente ao sistema político elitista e corrupto do país, fazendo menos do que podia para desmontá-lo, em vez de recriá-lo em bases efetivamente éticas e democráticas.

Precisa reconhecer que tem uma direção envelhecida, incapaz de enxergar e enfrentar os desafios imensos da contemporaneidade, e que rejuvenescer-se de corpo e espírito é uma condição essencial para seguir avançando.

Sim, o PT precisa explicar tudo isso e muito mais.

Mas é hipócrita e interesseiro cobrar autocrítica dele, sem cobrar também que:

1) O MDB faça autocrítica por conduzir ou gigolar governos desde 1985, praticando neles a mais intensa corrupção, e por trair vergonhosamente a Presidenta Dilma Rousseff, articulando o golpe parlamentar que a derrubou e que lançou o país nessa instabilidade sem fim.

2) O PSDB faça autocrítica por abandonar a social-democracia que carrega no nome, convertendo-se no ariete do neoliberalismo no Brasil, também aderindo à corrupção estrutural, e transigindo com o estado democrático de direito tantas vezes quanto foi ou seja do seu interesse.

3) O DEM faça autocrítica pelos crimes da ditadura militar, corrupção incluída, da qual ele foi beneficiário e herdeiro direto, como legenda continuadora da ARENA e de seu sucedâneo imediato, o PFL.

4) O PDT faça autocrítica por ser a cada dia menos trabalhista e o PSB, menos socialista, sendo os dois tão corruptos quanto qualquer outro partido, e agora pretendam liderar uma "nova oposição” consentida pelo autoritarismo no poder, ao qual desejam “sucesso”.

5) Os partidos da esquerda façam autocrítica, admitindo a sua incapacidade de apresentar alternativas reais ao projeto petista, e abandonando o cinismo de ecoar as críticas da direita ao PT, enquanto gravitam como satélites em torno de sua força popular e eleitoral.

6) Os partidos do Centrão façam autocrítica, reconhecendo que são apenas máquinas argentárias essencialmente corruptas, constituídas tão somente para negociar vantagens com o poder e construir fortunas com dinheiro público.

7) Os novos partidos do centro e da direita façam autocrítica, admitindo que não passam de uma nova roupagem mistificadora para o que oprime o Brasil desde sempre.

8) A justiça faça autocrítica, para reconhecer que é uma casta elitista, prepotente e corrupta, que não existe para impor a lei de forma equânime e justa, mas para penalizar uns e proteger outros, e que agora desconsidera abertamente o equilíbrio de poderes do estado democrático de direito, atribuindo-se um poder moderador que a Constituição não lhe faculta.

9) As igrejas façam autocrítica, para admitir que são uma agência ideológica como outra qualquer e devem renunciar a qualquer benefício, regalia ou proteção especial por um suposto direito divino, visto que uma sociedade democrática, plural e laica não se governa por religião.

10) A mídia faça autocrítica, para reconhecer que não faz jornalismo isento, plural e apartidário, faz propaganda para as teses políticas que esposa, e não hesita em praticar a mentira, a distorção e a omissão contra tudo de que diverge.

11) Os cidadãos façam autocrítica, para admitir a sua profunda ignorância das coisas, num mundo a cada dia mais complexo, e aceitar a sua responsabilidade em deixar que qualquer demagogo os conduza como gado ao matadouro das esperanças, para depois reclamarem que foram traídos.

Autocrítica no rabo dos outros é refresco.

Enquanto ela não for feita na extensão e profundidade que a tragédia brasileira exige, por todos e todas, com humildade e seriedade, será apenas e tão somente macartismo contra uma corrente política.

Não será legítima, não terá valor e não resolverá absolutamente nada.
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