Morte por Covid-19 entre população parda no Brasil é 47% maior que entre brancos

Um estudo divulgado nesta quarta-feira (27) no Reino Unido aponta que critérios étnicos e sociais são um fator de peso nas taxas de mortalidade dos doentes de Covid-19 no Brasil

(Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)
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RFI - Um estudo divulgado nesta quarta-feira (27) no Reino Unido aponta que critérios étnicos e sociais são um fator de peso nas taxas de mortalidade dos doentes de Covid-19 no Brasil. Segundo a pesquisa pilotada pela Universidade de Cambridge, pessoas pardas e negras, principalmente no norte e nordeste do país, têm mais chances de morrer vítima do novo coronavírus.

A população mais vulnerável ao novo coronavírus no Brasil — hoje a segunda nação mais afetada pela pandemia, depois dos Estados Unidos — pode ser identificada pela cor da pele e a região onde mora. As desigualdades sociais históricas registradas pelo país estão patentes nos números de mortos pela doença em hospitais, segundo o estudo "Variação étnica e regional na mortalidade por Covid-19 em hospitais no Brasil”, realizado pela Universidade de Cambridge, em parceira com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

O documento inédito alerta que negros e, sobretudo pardos, estão mais sujeitos ao risco de morte, e que as populações do norte e nordeste têm taxa de mortalidade mais alta. Eles também apresentam mais comorbidades do que no resto do país — o que explica, em boa medida, o número de óbito nestes estados.

“Ser pardo é o segundo maior fator de risco, depois da idade, no Brasil”, afirma à RFI Mihaela Van der Schaar, professora de Inteligência Artificial e Medicina do Centro John Humphrey Plummer da Universidade de Cambridge, uma das autoras do relatório. De acordo com o documento, o risco de morte entre a população parda é 47% maior em comparação com a branca.

Para a surpresa dos especialistas, embora esteja em uma faixa de desenvolvimento sócio econômico mais alta, com um percentual maior de brancos entre a população, o Rio de Janeiro mostrou-se um ponto fora da curva. O estado tem uma das mais elevadas taxas de risco de morte pela doença (1.82), semelhante às de Pernambuco (2.0), Amazonas (1.93) e Ceará (1.10), que registraram os piores indicadores para o Brasil. Quanto mais distante da média 1, maiores os riscos. O Paraná teve o melhor índice, com 0.56.

“A combinação da intensidade do surto, das falhas do governo para implementar intervenções não-farmacêuticas e da composição social e étnica complexa faz do Brasil um país particularmente importante e interessante para o estudo do impacto da Covid-19”, diz o documento.

O trabalho, que começou a ser elaborado pelos pesquisadores há quatro semanas, surgiu justamente da preocupação de avaliar a potencial vulnerabilidade de uma população tão diversa como a brasileira.

“Nosso relatório confirma que a etnicidade, infelizmente, é particularmente um risco proeminente para a mortalidade por Covid-19. Os grupos étnicos de pardos e negros em especial estão mais sujeitos a riscos”, afirma Van de Schaar.

Sistema federativo instável contribuiu com situação

O impacto do coronavírus sobre as populações menos favorecidas e de minorias étnicas não chega a ser uma novidade. As estatísticas revelam desigualdades enormes nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo. No entanto, os autores acham que o Brasil é um caso ainda mais interessante a ser estudado, dada sua diversidade racional e social. Além disso, Van der Shaar destaca que o país é dos poucos a tornarem público esses dados, o que facilita a vida dos pesquisadores.

Brasileiros hospitalizados nas regiões norte e nordeste tendem a apresentar mais comorbidades do que no Centro-Sul (Sudeste, Sul e Centro-Oeste), com proporções similares entre os vários grupos étnicos. Para os autores do estudo, os fatores de maior risco de mortalidade entre pardos e negros têm implicações sociais consideráveis e precisam ser levados a sério, uma vez que esses grupos, menos atendidos pelas redes de proteção social, têm menos possibilidades de ficar em casa ou de trabalhar a distância. Esse universo de pessoas inclui uma significativa parcela de trabalhadores das áreas de saúde e serviço social, o que implica uma questão ainda mais séria para o país, por se tratar exatamente do contingente de profissionais que estão na linha de frente do combate ao vírus.

“Contribuíram para o impacto da doença (no país) um sistema federativo particularmente instável e situação socioeconômica frágil”, destaca o texto.

No norte do país, somente asma e doenças de imunossupressão são as únicas enfermidades que matam menos de 70% dos pacientes internados. Doenças renais (81,2%), diabete (80,1%), doenças neurológicas (78,8%) e obesidade (77,6%) estão no topo da lista. Enquanto isso, na região Centro-Sul, somente as doenças renais e as neurológicas se mantêm acima de 70%, com percentuais de 72,8% e 70,3%, respectivamente.

Menos acesso ao sistema de saúde

O estudo evita especular as razões que explicam todas essas diferenças, mas lembra que a população da região norte, que apresenta o maior número de óbitos entre os pacientes hospitalizados, tem indicadores piores de saúde e um menor grau de acesso à saúde ou disponibilidade dos serviços (CTI, por exemplo) para pardos e negros.


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