O Brasil não é um imenso Vaticano

Nem interpretações da Bíblia determinam o que todos os brasileiros podem ou não fazer

A Constituição Federal foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Há, no Brasil, crucifixos em prédios públicos, feriados religiosos, isenções de impostos para igrejas, entrega de terras públicas para que sejam construídos templos. Alunos de escolas públicas são obrigados a ter aulas de religião e em muitos casos a rezar. Há até um provavelmente inconstitucional acordo entre o Brasil e a Santa Sé, que dá privilégios desnecessários à Igreja Católica Apostólica Romana em um país que deveria manter neutralidade em relação a todas as crenças.

Diante disso, nada mais normal do que religiosos fundamentalistas e sectários, especialmente -- mas não exclusivamente – católicos, sintam-se à vontade para querer impor seus dogmas aos brasileiros. Acham que têm o direito de dizer a todos os cidadãos o que podem e o que não podem fazer. Para eles, o Brasil é um país laico e secular, em que o Estado não se confunde com a religião, apenas em tese. Mas mesmo assim gostariam de tornar mais explícito o predomínio de suas crenças religiosas sobre o Estado e sobre o povo brasileiro. Gostariam de tornar o Brasil um imenso Vaticano, sob as ordens do papa, ou um Irã evangélico, sob o domínio da Bíblia.

Não é nada fácil resistir a isso, nem mesmo por fieis que rejeitam o fundamentalismo invasivo. Há no país uma esmagadora maioria religiosa e dentro dessa maioria os católicos, em primeiríssimo lugar, e os evangélicos, na vice, deixam as demais religiões bem atrás. Certo que há contradições entre elas, até atos de violência, mas quem não tem vez mesmo são os que não acreditam em Deus e em qualquer divindade, ou que têm dúvidas sobre se existem ou não. Ateus, os primeiros, e agnósticos, os segundos, têm de se render à maioria religiosa.

Em uma democracia, a maioria manda, mas a minoria não pode ser esmagada. Católicos e evangélicos têm de respeitar espíritas, budistas, umbandistas, judeus, muçulmanos e quem mais houver. E todos têm de respeitar ateus, agnósticos e o Estado laico em que presumivelmente vivemos. Os que acreditam em algum deus têm o direito de exercer sua condição de maioria, mas não de subjugar a minoria. Invocar institucionalmente a proteção de Deus, manter crucifixos nas paredes oficiais e privilegiar feriados católicos, por exemplo, não combina com um país laico.

Todo candidato a eleição majoritária sabe que precisa agradar, quando não bajular, os religiosos, especialmente os campeões e vice-campeões de audiência. Se não tiver os votos deles, ou se incorrer na ira que consideram de inspiração divina, o risco de não se eleger é grande. Deputados e senadores podem ser eleitos sem votos de religiosos, mas um dia podem querer disputar uma eleição majoritária... Daí, quem disputa eleições e quem se elege teme desgostar padres, pastores, bispos e cardeais.

Apesar de toda a pressão contrária dos fundamentalistas religiosos, houve no Brasil avanços em alguns pontos, como o respeito a homossexuais e a defesa de seus direitos. Mas outras questões, como o direito ao aborto, ainda são tabus intocáveis. E, ridiculamente, alguns expoentes desse sectarismo querem até proibir o Estado de disseminar o uso de preservativos porque contraria o papa, como se todos nós fossemos obrigados a acatar as determinações do Vaticano.

Governantes sempre terão medo do lobby religioso, o que é compreensível. Mas isso não pode ser razão para impedir que direitos legítimos sejam exercidos, que a sociedade discuta livremente e que ministros e outras autoridades se manifestem ou tomem medidas sobre assuntos que fundamentalistas possam considerar demoníacos ou que desagradem a Santa Sé.

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