O caso Léo Pinheiro: nas ditaduras, há presos que escrevem o que seus algozes mandam

A "confissao" de Léo Pinheiro é como as "confissões" arrancadas dos presos políticos nos regimes ditatoriais, escreve o jornalista Mauro Lopes; são resultantes de tortura, chantagem e ameaças sem conta; são papeluchos destinados ao lixo da história, sem qualquer credibilidade

Por Mauro Lopes, editor do 247, para o  Jornalistas pela Democracia

Não é incomum nas ditaduras que presos apareçam com textos, bilhetes, cartas e notas à imprensa nas quais renegam seu passado, garantam terem sido bem tratados e façam apologia do regime. Vimos isso algumas vezes no Brasil e em países da América Latina que sofreram com as ditaduras militares.

Não foram muitos os casos, pois a imensa maioria dos presos manteve-se firme e afrontou as exigências de seus algozes, carcereiros e torturadores. Mas houve os que não resistiram. Difícil condená-los por isso, pois cada um tem seu limite individual de resistência. Hoje pode ser fácil falar, mas só quem passou por sessões de tortura, encarceramento e humilhação sabe o que isso significa -eu não passei, nao sei.

O fato é que há uma relação cruel como poucas entre carcereiros e encarcerados nos regimes sem freios. E esta relação dá vazão a uma chantagem das mais sórdidas. 

De um lado uma pessoa, sozinha, aprisionada pelo Estado, humilhada, torturada, sob ameaça de passar décadas aprisionada, amedrontada, muitas vezes em desespero absoluto.

De outro, torturadores, carceceiros, procuradores, policiais e juízes dizendo à sua vítima: basta delatar, basta assinar este papel, basta uma declaração que não lhe fará mal algum... e você poderá ser libertado, voltar para sua família, retomar sua vida...

Não é uma escolha fácil. Milhares de homens e mulheres escolheram a resistência, a fidelidad a seu caminho original e mantiveram-sem firmes, confrontando o sistema. Lula é o exemplo vivo e atual desse tipo de gente.

Mas sempre houve os Léo Pinheiro, aqueles que não aguentaram e assinaram o papel que lhes foi apresentado à frente, tratando de copiar e assinar o texto impingido. Tudo indica que Léo Pinheiro não sofreu tortura física -mas a dor psicológica pode ser tão lancinante quanto a porrada física e os choques elétricos, da psicológica, Pinheiro sofre desde 2016. 

As declarações arrancadas de presos políticos servem para propaganda de regimes e sustentação de farsas judicias, como agora. Mas, historicamente, foram recebidas com desdém pela imprensa digna deste nome, pois os jornalistas sabem como foram produzidas. 

Agora, a confissão de Leo Pinheiro torna-se manchete da Folha de S.Paulo. É um papelucho sem valor, que irá para a lata de lixo da história como foram outros de igual quilate; e, mais dia menos dia, a história de sua redação será conhecida.

Pode espantar alguns o fato de a Folha ter utilizado a "confissão" em sua manchete, buscando conferir-lhe credibilidade. Mas é bom não esquecer que esta empresa e a família que a dirige, conforme atestou o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, deram não apenas apoio financeiro e ideológico ao golpe de 1964, mas emprestaram seus veículos para a Operação Bandeirante, a Oban, um dos mais brutais centros de aprisionamento e tortura da virada dos anos 1960-70. 

PS 1 - é imperioso reconhecer que não apenas na esfera política arrancam-se declarações: nas delegacias de polícia confissões sem fim são forjadas a partir de torturas vis; pessoas, pobres e pretas em geral,  assumem crimes que jamais cometeram, para se verem livres do inferno lancinante da tortura e serem lançadas no inferno gotejante das prisões. 

PS 2- a "pista" para este breve artigo me foi indicada pelo amigo Marcos Coimbra, um sociólogo mago das pesquisas. Somos, portanto, coautores.

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