O importante é ser fevereiro

Após uma guerra em que todos saíram perdendo, a cidade levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima e já respira carnaval

Numa rara situação em que num jogo todos saem perdendo, a greve da Polícia Militar do Estado da Bahia acabou de forma melancólica neste sábado (11) à noite, numa assembleia em que o sentimento predominante era o de desgaste, cansaço e revolta. Mesmo havendo perdas e danos generalizados, os contendores preferem minimizar os estragos, supervalorizando um ou outro ganho relativo que tenha obtido. O governo nos níveis federal e estadual, por exemplo, pode até contabilizar o encerramento da greve como uma vitória, mas sabe que não é bem assim. Os grevistas podem até querer comemorar o fato de ter forçado o governo a se posicionar em relação à questão salarial, mas sabem que não há o que festejar. Já a sociedade, que ficou encurralada e presa do medo durante 12 dias, que ganho pode ter auferido? Ah, a suspensão do movimento se deu em nome da paz social. Pois sim!

Na coluna de perdas, vai a demonstração de inflexibilidade de um governo que se diz democrático. Afinal, usar cães contra o povo (ali representado por um deputado estadual) não é exatamente a melhor das fotografias para a posteridade. E o que dizer do emprego de métodos tão condenados em outros governos como o uso de grampos (legais e ilegais) contra cidadãos que apenas cumpriam seu mister profissional como jornalistas e advogados?

Também na contabilidade de perdas, os grevistas têm muito a somar. O conceito da PMBA perante a sociedade nunca mais será o mesmo. E não se está falando do fabuloso índice de homicídios registrado em Salvador ao longo do movimento (172, segundo estatísticas oficiais) mas sobre a ação de pessoas doentes, sádicas, que mataram pelo simples prazer de matar. Na greve de 2001, uma imagem ficou por muito tempo gravada na minha mente: a de um adolescente que foi morto no bairro do IAPI, atrás da sede do antigo bloco Selakuatro e que teve todas as unhas arrancadas. Do mesmo modo, agora, em 2102, a cena que atormenta minhas noites envolve uma mãe assassinada enquanto amamentava seu bebê, no centro da cidade. Teria sido obra de PM? Nunca irá se saber, apesar de o Estado fazer questão de depositar na conta da greve todos os atos insanos consumados no período. Como se livrar dessa pecha? A leitura que hoje a sociedade faz é a de que uma polícia que mata mendigos em tempo ou não de greve (guerra?) não é uma polícia que mereça respeito, mas que infunde o medo.

E quanto à sociedade? Será que o fim da greve representa o retorno à normalidade? De que normalidade se está falando? A tropa mostrou com toda a força que está insatisfeita. Uma greve não eclode do nada, apesar de nossos governantes assumirem a postura do marido traído e dizerem que foram surpreendidos com a paralisação. Marcos Prisco, o incendiário presidente da associação que comandou a greve, não apareceu de repente. Ele é uma pedra no sapato da PMBA, desde que participou da greve de 2001, segundo ele, com o apoio do partido que hoje está no poder. Os métodos do ex-soldado são conhecidos, não há porque agora o governo estadual dizer “eu não sabia”. É fato que os sinais de fumaça não apareceram agora, de repente. Como fogo de monturo, a caserna vem se mostrando incomodada há muito, muito tempo. Ou já esquecemos do movimento Polícia Legal?… Bom, diante da insatisfação permanente da tropa, como o cidadão pode se sentir seguro com o retorno dos policiais militares aos seus postos de trabalho? Eles irão mesmo trabalhar ou apenas querem se precaver de punições como o corte de ponto?

Policiais e comando da PMBA dizem que vão continuar negociando. Negociando o que? Se os pontos que prolongaram a greve (pagamento da gratificação de atividade policial em março e anistia aos líderes grevistas) são considerados inegociáveis? São respostas que a sociedade merece ouvir, sob pena de se sentir lesada em seu seu direito à verdade.

Bom, no perde-perde real e no suposto ganha-ganha da greve, os dois lados da contenda podem contabilizar como vitória o fato de ambos terem marcado posição. A sociedade não pode dizer o mesmo, pois ficou apenas com as perdas. Há quem diga que o ganho da sociedade estaria na realização do Carnaval, que chegou a sofrer ameaça de comprometimento caso perdurasse o momvimento. Ah, mas de que sociedade esatamos falando? Certamente não é do cidadão que mora em Salvador e convive com a violência cotidiana e o desrespeito aos seus mais elementares direito. A sociedade que saiu ganhando é aquela que vive na cidade do carnaval, um lugar de sonhos, onde só há beleza e feito para turista ver. A efêmera terra dos blocos carnavalescos, das agências de turismo, dos camarotes, dos bares e hotéis, das empresas de aviação, das cervejarias e das redes de televisão. Para essa sociedade, pouco importam as mazelas da população real, como na antiga musiquinha carnavalesca, “o importante é ser fevereiro e ter carnaval para a gente sambar’. Até a próxima crise.

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