O maior problema, de longe, não são as drogas

Não podemos tolerar os tratamentos repressivos a usuários de qualquer tipo de droga, pois é notório que estas técnicas estão falidas desde o início da sua execução

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Talvez muitos leitores não concordem com a minha opinião, mas como direito meu, irei fazer uso dela para falar sobre drogas* e sobre várias leis aprovadas pelos poderes públicos em todas as unidades federativas do Brasil. A princípio, gostaria de deixar bem claro que acho bastante legítimo e louvável a iniciativa de vários políticos que se arriscam na temática das drogas. Porém, acredito que o foco de atuação pública em relação ao uso (indiscriminado e errado) de CERTAS drogas deve ser mudado drasticamente. Na minha opinião, alguns tipos de ações e leis atualmente servem muito mais para dar uma satisfação à sociedade que para efeito pontual. Entretanto, também sei que alguns fazem o que podem, de acordo com suas limitações.

Se fizermos uma conta abstrata dos gastos com o combate às drogas, com campanhas e repressão, com toda a certeza chegaremos à casa dos trilhões de dólares. Porém, o que vemos é o aumento constante do uso indiscriminado de drogas de alto nível de periculosidade à saúde, como o crack. Ou seja, este tipo de guerra às drogas está nitidamente perdido!

Podemos perceber que não adianta mais pedir para que os jovens não as usem. Elas estão em toda parte e ao alcance de todos. Será que não está claro que os usuários de drogas precisam ser identificados e separados de acordo com os tipos de substâncias que usam? O perfil os usuários da maconha (Canabbis sativa), apenas dela, é totalmente diferente daqueles que fazem uso do crack (substância derivada do resto da pasta base da coca adicionada a várias substâncias altamente prejudiciais à saúde). Pois o usuário de crack perde a noção da sua dignidade e da sua cidadania, logo, apenas campanhas educativas têm resultados inexpressíveis para com os usuários desta droga. Como posso concordar com o tipo de campanha: "Vencedor não usa drogas"? Será que já não basta a revelia da sociedade? É notório que, o que deve haver é um apoio psicológico e clínico, tendo como principal ponto de atuação a metodologia da redução de danos e a busca da dignidade perdida – sem uso da repressão e da violência –, que pode ajudar gradativamente o usuário de crack a se libertar da dependência.

Não podemos tolerar os tratamentos repressivos a usuários de qualquer tipo de droga, pois é notório que estas técnicas estão falidas desde o início da sua execução, sem falar no entupimento das cadeias! Se formos parar e pensar, os usuários não morrem, em sua grande maioria, devido ao uso da droga, mas sim das dívidas causadas pelo seu uso e das atividades comerciais do tráfico. Muita gente acha que o uso do crack é consequência do uso da maconha. Outro erro! Por conta da criminalização do uso da maconha, o usuário é obrigado a ter contato, muitas vezes direto, com o tráfico, e nesses ambientes o crack domina, até porque é uma droga mais fácil de esconder e de vender, pelo seu alto grau de dependência imediata e do seu minúsculo tamanho. Assim é muito mais vantajoso e lucrativo para o traficante fazer a propaganda e o oferecimento do crack.

Uma outra droga que tem levado jovens ao uso do crack é o álcool. Esta sim é muito perigosa, pois muitas vezes tira a capacidade do indivíduo de distinguir o melhor ou o pior a se fazer. Como diz um amigo meu: “O que o álcool não fizer, nada mais faz!”. Quem nunca passou vergonha ou fez besteiras por causa de um “porre” de álcool? As estradas do nosso país é um exemplo disso. Será que seria um absurdo dizer que o álcool mata mais que o crack? Realmente não tenho esses números!

Não estou aqui para defender qualquer tipo de drogas, mas não posso deixar de chegar à conclusão de que, provavelmente, com a DISCRIMINALIZAÇÃO do uso da maconha e uma melhor e mais eficiente regulamentação do uso do álcool, o acesso de jovens ao crack poderá diminuir, e, com isso, os “acertos de contas” que vitimam milhares de jovens todos os anos nas regiões metropolitanas e interiores do nosso Brasil. O USO de drogas deve ser analisado e tratado como saúde pública! Os usuários destas sustâncias devem ter o mesmo tratamento, que não é lá essas coisas, daqueles que estão nos hospitais públicos, tentando (pelo menos) se curar de câncer devido ao uso do cigarro, ou de cirrose devido ao uso abundante do álcool e outras várias doenças causadas pelos seus abusos. Não é com repressão policial que se resolverá um problema de saúde. Tenho a mais absoluta certeza que uma mãe que tem um filho dependente químico não o enxerga como um bandido, mas mesmo assim não sabe a quem recorrer para cuidar da sua saúde. Ou muitas vezes precisam recorrer aos traficantes e suplicar para que não o matem, até conseguir o dinheiro, sabe-se lá como, para pagar sua dívida. A que ponto chegamos? Parece que é mais satisfatório pedir a um traficante pela vida de um filho que solicitar, ou melhor, exigir ajuda do poder público.

Chega de ações supérfluas! A pseudomoralidade e a submissão ao sistema neoliberal que as grandes empresas de cigarro e álcool nos impõem é absurda. Elas ditam as regras dos nossos costumes – happy hour, baladas, barzinhos, praias, mulheres, pegação… - tudo se relaciona ao álcool e ao cigarro como status! Para se ter uma ideia, a onda de proibição da maconha na segunda metade do século XX foi muito mais cultural do que qualquer outra coisa. Maconha era droga de negro, de pobre, assim como a coca era droga de latino americano subdesenvolvido.

Não venho por meio deste texto fazer qualquer defesa do uso indiscriminado ou não de drogas, seja lícita ou ilícita. Todos DEVEM tirar suas próprias conclusões. Mas entendam isso como um desabafo de morador de periferia que muitas vezes se encontra de mãos atadas ao ver seus amigos e até familiares se perderem, tanto pela ação do tráfico de drogas como pela ineficiência e o temor de enxergar a verdade do poder público.

Thiago Ladislau da Silva é estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco

* Droga é toda e qualquer substância, natural ou sintética que introduzida no organismo modifica suas funções. As drogas naturais são obtidas através de determinadas plantas, de animais e de alguns minerais. Exemplo a cafeína (do café), a nicotina (presente no tabaco), o ópio (na papoula) e o THC ou tetrahidrocanabinol (da cannabis). As drogas sintéticas (aspirinas, antibioticos, anfetamina, LSD, Extase) são fabricadas em laboratório, exigindo para isso técnicas especiais.

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