O próximo presidente vai ter imensas dificuldades de governar, diz Dilma

Em palestra na Universidade Harvard, Dilma Rousseff defendeu a necessidade de uma reforma política no Brasil; "Tem que ter reforma política, senão é ingovernável. Eu precisei de 20 partidos para aprovar uma legislação que só aprovaria com dois terços. Isso é inviável. A existência e fragmentação dos partidos é péssima, até há pouco vivíamos com necessidade de um centro democrático. Esse centro foi hegemonizado pela direita corrupta"

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dilma (Foto: Giuliana Miranda)

Do Sul 21

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) falou na tarde deste sábado (08) durante a Brazil Conference, nos Estados Unidos. O evento é convocado pelas universidades de Harvard e o MIT (Massachussets Institute of Technology). Em sua terceira edição, o evento reúne intelectuais e personalidades brasileiras e internacionais para discutir os principais desafios do Brasil atual. O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), o ator Wagner Moura e o promotor Deltan Dallagnol também estavam na programação.

Durante a palestra, usando de ironia em muitos momentos,Dilma soube driblar risos e interrupções da plateia. “Eu nunca me recusei a responder nada”, afirmou enquanto recebia perguntas do público. Em um momento, apesar de a organização avisar que o tempo estava acabando, disse: “Eu quero responder uma de corrupção”.

Dilma foi mais direta do que em outras falas públicas recentes e pautou questões como eleições diretas e reforma política, sem evitar citar nomes, como Eduardo Cunha (PMDB). Ela qualificou o ex-deputado que aceitou o pedido de impeachment na Câmara, como uma pessoa “conservadora e extremamente preconceituosa”.

“Tem que ter reforma política, senão é ingovernável. Eu precisei de 20 partidos para aprovar uma legislação que só aprovaria com dois terços. Isso é inviável. A existência e fragmentação dos partidos é péssima, até há pouco vivíamos com necessidade de um centro democrático. Esse centro foi hegemonizado pela direita corrupta no brasil. O senhor Eduardo Cunha passou a ser o responsável por esse centro democrático”, analisou ela. “O centro do velho MDB, de Ulysses Guimarães, foi hegemonizado pela direita mais radical do Brasil. Foi isso que aconteceu. Quando entendemos que foi isso, vemos que o próximo presidente vai ter imensas dificuldades de governar”.

Sérgio Moro

Perguntada sobre ações do juiz de primeira instância responsável pela Operação Lava-Jato, Sérgio Moro, Dilma fez a plateia rir ao dizer: “Querer que eu responda sim ou não para uma atitude do Sérgio Moro, vocês estão doidos. Tem limite para ingenuidade, né?”.

Erros de seu governo

Dilma disse que o PT cometeu erros e que “só marcianos não reconheceriam isso”, mas que não podemos acreditar que poderemos recuperar o país sem partidos políticos, com “salvadores da pátria”. “Não há diálogo na política sem partidos políticos. Como você dialoga com 200 milhões de habitantes sem instrumentos para isso?”, questionou ela.“Acho que todos os partidos políticos no Brasil cometeram erros graves. Todos. Mas também não é possível achar que pode se resolver sem partidos, isso leva à direita mais atrasada”.

Segundo ela, ao responder especificamente sobre erros cometidos por seu governo, “a coisa mais difícil é ver os erros depois”. O primeiro erro, segundo Dilma, foi a concessão das desonerações fiscais, adotadas como medida pra mitigar a crise, tanto em contribuições previdenciárias, quanto em impostos. Na avaliação do governo então, elas poderiam ajudar no aumento do emprego e capacidade da indústria. O que não se confirmou na prática.

“Eu fragilizei as receitas públicas ao aceitar isso”, reconheceu ela. “Nós mandamos o projeto com seis setores de desoneração, ele voltou do Congresso com 56 setores. Esse processo mostra a dificuldade de governabilidade no Brasil. Não é possível que alguém mande com 6 ou 7 e volte com 56. Foi a partir do meu governo que a questão do veto presidencial passou a ser questionada e eles derrubaram alguns vetos [meus]”.

O outro erro politico, de acordo com sua avaliação, foi não ter percebido “que vivíamos no fim daquele tipo de coalisão presidencial”. “Quem acha que é possível governar um país como o Brasil só com um partido, está pensando errado o país”.

Corrupção

Dilma pediu por uma pergunta sobre corrupção e escolheu no painel que aparecia atrás dela. A ex-presidente criticou antes de tudo a destruição de partidos e empresas pela criminalização que se faz destes, a partir de atos de corrupção de indivíduos. Ela questionou, por exemplo, porque o que aconteceu com a Petrobras depois dos escândalos de corrupção não aconteceu com a Siemens, empresa alemã também envolvida em denúncias de desvios – inclusive no Brasil, com o governo do PSDB em São Paulo.

“De onde eu estava, eu sei que [a corrupção] não começou ontem. Sinto muito pra vocês”, ironizou. Dilma falou sobre a ascensão do modelo desenvolvimentista, nos anos 1980 e 1990, que teve por base grandes empreiteiras e como elas ganharam poder no país.

Em seguida, ela puxou o assunto Lava Jato. “A partir de um determinado momento houve a utilização escrachada da Lava Jato para mudar a eleição”, pontuou, lembrando da capa da revista Veja que circulou nas vésperas da eleição de 2014. A revista trazia na capa uma foto dela e de Lula, acompanhada da frase: “Eles sabiam”. No Rio Grande do Sul, a publicação circulou em um pacote junto com o jornal Zero Hora. “Sem prova, sem nada, com acusação de um corruptor que depois sumiu. Sempre fizeram isso”.

Dilma defendeu punição a todos os “corruptores”, mas que não atinjam empresas e partidos. “Não é possível law fare, que é a utilização da lei como forma de luta política. Temos de enfrentar todas as acusações, quem não enfrenta é porque tem ou medo ou culpa. Eu quero dizer pra vocês que eu não tenho medo, nem culpa. Eu respondo qualquer uma”.

Polarização e Lula 2018

Sobre polarização entre esquerda e direita no Brasil, especialmente depois de 2013, Dilma disse que “não acredita na ideologização do povo brasileiro”. “Acho que isso é uma falsa questão”, afirmou ela. A ex-presidente disse ver a polarização no Brasil como “histórica e episódica”. “Quando há um processo de impeachment sem crime de responsabilidade, cria um paradigma de ruptura. A gente vê isso quando começa a surgir brigas entre Legislativo e Judiciário, entre um representante do Ministério Público e outro da mais alta Corte do Judiciário”, citou ela, lembrando as acusações trocadas nos jornais recentemente, entre o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

Falando em alternativas, Dilma afirmou ainda que “tem medo do parlamentarismo”, por achar que “não temos condição histórica de sustentar essa questão”. Para ela, o Brasil só conseguirá sair da crise política quando recuperar a soberania popular e com sua “única fonte de legitimação”: o voto. “Não é porque as pessoas são mal intencionadas que não conversam, é que tem barreiras imensas. Só supera essas barreiras com a força de uma eleição”.

Para 2018, ela defendeu a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva e não falou sobre pretensões próprias. “Me preocupa que prendam o Lula e que tirem o Lula da parada”, disse. “Não acho que Lula tem que ganhar ou perder, acho que tem que concorrer. Perder eleição é do jogo, não é vergonha. Só quem tem padrão de cabeça extremamente autoritário começa a falar de impeachment antes da eleição. Isso eu estou falando de uma coisa que aconteceu. Não dá pra melar a regra do jogo depois que ele ocorreu”.

A ex-presidente voltou a usar outro termo que de sua fala na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, há uma semana: o encontro marcado com a democracia em 2018. Mas dessa vez, veio com um agravo de alerta. “Ele é inexorável. A possiblidade [que nos preocupa] é ele ser transferido, é haver transformações nas regras do jogo enquanto ele está sendo jogado”.

Diretas já

Dilma foi categórica: “Precisamos de eleições diretas”. A fala veio quando dizia que é necessário que se construa legitimidade no processo político e que, o único jeito de superar a crise atual, é desenvolver. Ela se manifestou contra os chamados “pacto por cima”, que seriam tradicionais da maneira brasileira de conduzir transições.

“Brasil é chegado num pacto por cima. Fizemos no Segundo Império, na República, na passagem da ditadura pra democracia, mas eles esgotaram. Por que esgotaram? No meu impeachment, houve um deputado que votou a favor de um torturador, da ditadura e da tortura. Por que isso ocorreu? No pacto, anistiamos o torturador. Tortura em qualquer lugar do mundo é crime imprescritível. Quando é possível que num Senado (sic), um representante público fale à favor da ditadura, isso é possível porque não julgamos os torturadores. Há que ter pacto por baixo, que mobilize a participação popular, a sociedade civil, os movimentos. Não apenas entre os políticos. Não envolvendo aqueles que sempre conversam, mas que haja participação da população”.

Dilma também avaliou que o golpe contra seu governo se aproveitou de uma crise que já estava em curso no mundo, mas que teria batido especialmente no Brasil. Ela citou o neoliberal Milton Friedman – para quem, quando a crise acontece dependemos das escolhas à disposição – e falou da “oportuna” sugestão do “Ponte para o Futuro”, o programa de soluções apresentado pelo PMDB quando ainda estavam em seu governo. “É assim, até que o politicamente possível se torne o politicamente inevitável”, disse ela. O último, ela afirma, só foi garantido com o impeachment.

Democracia

Dilma lembrou rapidamente de seu passado na resistência contra a ditadura civil-militar de 1964. Os dias do regime, que “viveu na carne” e por isso sabia: “Nós temos de garantir todos os combates com a democracia preservada. Ela é fundamental pra nós. Ela é o lado certo da História”.

A ex-presidente e ex-guerrilheira seguiu: “Eu sei perfeitamente a diferença entre golpe parlamentar e ditadura. E sei perfeitamente que é possível violar a democracia de dentro dela. (…) Mas eu acredito no Brasil”.

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