‘O que aconteceu no ES pode se espalhar pelo País não só na segurança’

Deputado Givaldo Vieira (PT-ES), vice-governador do Espírito Santo entre 2011 e 2014, acredita que houve "omissão" e "negligência" do governo federal em tratar a crise de segurança no Estado, por demorar a enviar ajuda; Michel Temer, diz ele, "estava preocupado com outras coisas, como em emplacar seu ministro da Justiça no STF e proteger seus auxiliares"; "A crise que eclodiu aqui no Espírito Santo na área da segurança é uma face mais visível, mais dura, mais assustadora do que está por vir em todo o País em função dessa onda de política de recessão", acredita Vieira, que fala em "sucateamento do serviço público" após duras medidas de ajuste fiscal; confira a entrevista ao 247

Deputado Givaldo Vieira (PT-ES), vice-governador do Espírito Santo entre 2011 e 2014, acredita que houve "omissão" e "negligência" do governo federal em tratar a crise de segurança no Estado, por demorar a enviar ajuda; Michel Temer, diz ele, "estava preocupado com outras coisas, como em emplacar seu ministro da Justiça no STF e proteger seus auxiliares"; "A crise que eclodiu aqui no Espírito Santo na área da segurança é uma face mais visível, mais dura, mais assustadora do que está por vir em todo o País em função dessa onda de política de recessão", acredita Vieira, que fala em "sucateamento do serviço público" após duras medidas de ajuste fiscal; confira a entrevista ao 247
Deputado Givaldo Vieira (PT-ES), vice-governador do Espírito Santo entre 2011 e 2014, acredita que houve "omissão" e "negligência" do governo federal em tratar a crise de segurança no Estado, por demorar a enviar ajuda; Michel Temer, diz ele, "estava preocupado com outras coisas, como em emplacar seu ministro da Justiça no STF e proteger seus auxiliares"; "A crise que eclodiu aqui no Espírito Santo na área da segurança é uma face mais visível, mais dura, mais assustadora do que está por vir em todo o País em função dessa onda de política de recessão", acredita Vieira, que fala em "sucateamento do serviço público" após duras medidas de ajuste fiscal; confira a entrevista ao 247 (Foto: Gisele Federicce)
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Por Gisele Federicce, 247 – Um movimento iniciado por esposas de policiais militares no Espírito Santo, reivindicando 20% de reajuste salarial imediato e 23% escalonado, resultou em oito dias sem policiamento nas ruas, registro de 147 homicídios, restrição de circulação de ônibus e fechamento e prejuízo do comércio na última semana.

Na tarde deste sábado 11, 875 PMs retornaram ao trabalho. O governo federal enviou 300 homens da Força Nacional para comandar a segurança durante a ausência da polícia local – 200 chegaram na segunda-feira 6 e outros 100, na quarta 8. Segundo o governo federal, mais de 3 mil homens atuam em todo o Espírito Santo.

Na sexta-feira 10, uma reunião de mais de dez horas terminou sem acordo entre secretários do governo e mulheres do movimento. Neste domingo 12, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse que a crise no Estado está "superada", apesar de a greve da PM continuar.

O deputado federal Givaldo Vieira (PT-ES), ex-vice-governador do Espírito Santo na gestão de Renato Casagrande (PT), entre 2011 e 2014, conversou com o 247 por telefone neste domingo 12 e apontou erros do atual governo, de Paulo Hartung (PMDB), na gestão da crise, além de ter feito críticas ao governo federal.

O deputado propôs uma comissão externa na Câmara para acompanhar o caso e possivelmente intermediar um acordo entre integrantes do movimento e autoridades do Estado. No momento de colocar em votação, porém, deputados do próprio Espírito Santo consideraram que isso seria uma politização do problema e a proposta não entrou em pauta.

Confira a entrevista:

Que erros o governo do Espírito Santo pode ter cometido na condução da crise?

Acho que o governo cometeu alguns erros. Primeiro, no aspecto da previsão e do preparo para lidar com esse movimento. Já havia notícias espalhadas pelas redes sociais na semana anterior ao início do movimento e certamente o serviço de inteligência do governo já tinha informações de que isso seria iniciado. Então, eu acho que o governo deveria ter se preparado melhor para uma situação dessa gravidade.

O movimento foi subestimado, de certo forma?

Foi subestimado.

O outro erro foi que o movimento começou no sábado e coincidiu com a ausência do governador, naturalmente por uma situação de saúde, que é compreensível, mas nesse momento começou a se dar falta da PM nas ruas e a própria falta do governador aqui no Estado. E os interlocutores do governo simplesmente disseram: 'Não negociamos com um movimento dessa natureza'. Então nós tivemos durante o fim de semana já uma situação totalmente descontrolada sem nenhuma iniciativa, sem diálogo.

A terceira questão é que o governo demorou muito a pedir ajuda. O movimento começou no sábado (4) de madrugada, e somente durante o dia da segunda-feira (6), quando a situação já estava caótica, foi que o governo do Estado pediu ao governo federal a ajuda de tropas federais.

Quarto erro que eu considero foi persistir na negativa do diálogo. O governo do Estado persistiu até a quinta-feira (9), quando depois de muitos apelos, abriu um comitê de negociação, mas que efetivamente não conseguiu avançar. Então eu acho que o governo do Estado cometeu pelo menos esses erros graves.

Neste sábado 11, o secretário de Segurança do Espírito Santo, André Garcia, declarou que é difícil lidar com um movimento "sem liderança". Considera este um argumento plausível?

Naturalmente é um movimento difícil de lidar com ele, porque existiam associações, mas ele era protagonizado por um conjunto de mulheres, de esposas de policiais. E há uma desconexão entre diversas lideranças, mas o governo tem que estar sempre preparado para lidar com esses movimentos mais complexos e que envolvem lideranças mais difusas. Não é uma justificativa.

O senhor concorda com a análise de que o ajuste fiscal no Estado tenha prejudicado os serviços públicos e contribuído para a atual situação na segurança?

Concordo. A crise que eclodiu aqui no Espírito Santo na área da segurança é uma face mais visível, mais dura, mais assustadora do que está por vir em todo o País em função dessa onda de política de recessão, de ajuste fiscal, de cortes, que vão levando categorias de servidores públicos a uma situação de grande opressão, não só pelos salários, mas pelas condições de trabalho. O que aconteceu no Estado pode se espalhar pelo País não só na área da segurança. Na medida em que a PEC 55 vai consolidando seus efeitos, na medida em que se efetivar a reforma da previdência da forma como está pautada, a reforma trabalhista, a partir desse conjunto de efeitos negativos sobre a população, os trabalhadores, os servidores públicos, o serviço público como um todo, nós poderemos viver num País com uma grande onda de reações violentas, que pode colocar o País num ambiente de guerra civil, de descontrole, por conta dessa política de ajuste fiscal exagerado, de cortes, que vai jogar as pessoas na pobreza e vem sucateando o serviço público.

O senhor comentou sobre ausência de autoridade no Estado, por conta da licença do governador por motivo de saúde. O senhor considera um grande impacto na gestão da crise a ausência também do ministro da Justiça?

Com certeza, o Espírito Santo está ardendo em chamas, colocou a população acuada, dentro de duas casas, enquanto o governo Temer, sua única preocupação tem sido emplacar seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, no Supremo e manobras para proteger seus auxiliares, como no caso do Moreira Franco, e o presidente sequer deu uma declaração contundente, uma solidariedade direta ao povo capixaba.

Fiz uma denúncia na tribuna da Câmara na quinta-feira acusando o governo federal de ter tratado com desprezo o caso do Espírito Santo. Eu comparei com uma outra situação que aconteceu em outubro do ano passado, que foi a greve da polícia em Pernambuco. O Estado pediu ajuda federal, e o ministro da Defesa, Raul Jungmann, que é de Pernambuco, mandou imediatamente para lá 3.500 soldados. A guerra nem chegou a ser deflagrada, e o contingente ficou lá por alguns dias. No caso do Espírito Santo, eles demoraram muito a dar uma resposta, foram enviando tropas a conta gotas, em um número inexpressivo, o que com certeza provocou o sacrifício de vidas e prejuízos psicológicas das pessoas, apavoradas, não funciona nada no Estado. Depois de muita insistência nossa, eles mandaram 80 homens da Força Natural do Rio na segunda à noite. Depois de muita insistência também mobilizaram cerca de 220 homens do Exército local, que foram para as ruas, e na terça-feira chegou um grupamento de 120 de Brasília e somente na quarta à noite chegaram 600 soldados, quando o Espírito Santo ficou então com um total de 900 soldados. Hoje fala-se que temos 3.130 homens em todo o Estado. Mas como a polícia está completamente ausente, é um número é insuficiente. E demoraram muito pra dar a resposta. Houve omissão, negligência. Não era o Estado do ministro da Defesa. Isso custou gravíssimos prejuízos aos capixabas. Isso foi um atentado ao Espírito Santo, atentado contra o Brasil e alimenta a possibilidade de um movimento nacional. Os impactos podem ser incalculáveis.

O que representa novamente – depois do que fez com a crise dos presídios – a demora de Michel Temer em se manifestar sobre o assunto?

Representa esse descaso com o problema. Só depois de tudo em chamas aqui, com a situação extremamente grave, ele fez uma declaração tardia, que não teve nenhum resultado efetivo.

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