O sol da liberdade e o esgoto da estupidez

A chamada luta eterna entre o Bem e o Mal pode ser traduzida, em termos concretos, como a luta entre a Liberdade e a Repressão

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A ideia de liberdade norteou não só a minha formação pessoal como também dominou os anos de minha juventude por ter sido a experiência fundamental de minha geração. O questionamento de tudo que encontrávamos diante de nós, enquanto crescíamos, foi a resposta ao desafio libertário. Comportamento compulsivo, moral tradicional, submissão a velhos padrões estéticos, políticos e religiosos, conformismo generalizado, tudo foi contestado pela visão libertária que caracterizou a melhor parte de nossa geração.

A liberdade está sempre se fazendo, nunca deixa de conquistar-se. É, portanto, sinônimo de independência pois, como diz Heidegger, "a liberdade equivale a ter liberdade, a ser livre de". O homem é livre quando independe, em suas decisões, de qualquer coação, seja externa ou interna, ou seja "de qualquer coação simbolicamente absoluta, natural ou histórica e cultural". É preciso que conquistemos e realizemos a liberdade pois é na sua vigência que o homem se faz homem. A liberdade é conquista porque só existe como empenho de libertação.

O lema libertário de Aleister Crowley – "faze o que tu queres será o todo da lei" – não proclama a permissividade ignorante nem o capricho egocêntrico mas o domínio da vontade sobre a repressão que é o oposto da liberdade. Vontade deve ser entendida no sentido de Nietzsche – vontade de poder pessoal, como a entende Carlos Castaneda. "Amor é a lei, amor sob vontade", diz Crowley. Só a vontade assegura a conquista da liberdade.

O existencialismo de Jean-Paul Sartre proclama que "estamos condenados a ser livres". Nosso destino é a realização plena de nossa liberdade essencial em face da sedução viscosa de sua negação – que Eric Fromm define como "medo", o medo à liberdade. As consequências práticas dessa situação ontológica são decisivas. Temos de enfrentar os inimigos da liberdade onde estiverem. Os antagonistas se apresentam de maneira indisfarçável. Comportamento compulsivo, moral tradicional, submissão a velhos padrões estéticos, políticos e religiosos, em suma: a farsa trágica da organização mundana.

A chamada luta eterna entre o Bem e o Mal pode ser traduzida, em termos concretos, como a luta entre a Liberdade e a Repressão. O despertar para essa tomada de consciência vem de Freud, ainda no século 19. Conforme Norman O. Brown explica, uma só palavra resume a compreensão do pensamento freudiano: repressão. "Sob a nova perspectiva freudiana, a essência da sociedade é a repressão do individuo, e a essência do individuo é a repressão de si mesmo", trata-se de uma "doença chamada homem". Essa bête noir se manifesta na política, nas atividades públicas, na moral e nos chamados bons costumes, e até em nossas relações pessoais e afetivas.

A dialética entre liberdade e repressão não atingiu uma síntese satisfatória porque os principais obstáculos são internos. As pressões psíquicas são mais obstinadas do que a prisão e a tortura. A libertação da mente é prioritária. É preciso alcançar um estado superior da consciência.

Já que falamos do sol da liberdade, vamos agora ao esgoto da estupidez.

Para manter a ditadura da repressão, seus partidários, na tentativa de solapar o pensamento livre, não hesitam, por exemplo, em recorrer ao deboche e à cafajestada explícita que sempre indicam um estado inferior da consciência. Um exemplo chocante são os comentários postados em sites e blogs que discutem política, como este 247, por reacionários desnorteados que formam a massa mobilizada pela direita. Eles não hesitam em apelar para a linguagem chula e a obscenidade explícita cujo objeto preferencial é, quase sempre, para usar uma palavra simples, o cu dos adversários, exibindo invariavelmente uma reveladora fixação anal. "Vai ter o cu arrombado no presídio", "a vara do justiceiro para arrebentar o cu do corrupto" e outras expressões do mesmo nível.

É verdade que muitos esquerdistas também utilizam expressões chulas em seus comentários mas um simples levantamento estatístico mostraria que são mais raros e menos furiosos dos que os feitos por seus adversários direitistas. Acho que só um exame psicanalítico qualificado poderia explicar, ou tentar explicar, essa fixação da direita na analidade. Tal exame seria uma contribuição importante para os Estudos sobre Analidade, a quinta parte do livro Vida Contra Morte, de Norman O. Brown.

Desde que a homofobia é geralmente direitista, pelo menos aqui no Brasil, lembrei de uma experiência curiosa, realizada numa universidade norte-americana. A pesquisadora reuniu dois grupos de homens heterossexuais. O primeiro era composto de heterossexuais que aceitavam o homossexualismo dos outros sem problema e não tinham nenhuma reação adversa ao fato, aceitavam-no como algo natural. O segundo grupo era formado por heterossexuais violentamente homofóbicos, ou seja, do tipo clássico, agressivos e intolerantes.

Os componentes dos dois grupos foram ligados a um aparelho destinado a captar suas reações fisiológicas enquanto assistiam a um filme com cenas de sexo homossexual explícito, entre dois ou mais homens.

Nenhum dos participantes do primeiro grupo manifestou a menor reação ao que assistia. Entretanto, a maioria dos participantes do segundo grupo, os homofóbicos, ficaram excitados com as cenas de sexo do filme e experimentavam ereções ostensivas, indisfarçáveis.

A conclusão da pesquisadora não deixava dúvidas: a homofobia era desmascarada como a tentativa neurótica de uma dissimulação, uma reação irracional contra o impulso homossexual. Como dizem muitos homossexuais, a homofobia é o armário em que tentam se esconder muitos homossexuais enrustidos.

Permito-me, finalmente, externar minha própria conclusão. O deboche, a chulice e a cafajestagem são o refúgio daqueles que, antes de tudo, temem a liberdade e, por isso, a odeiam. Como disse Jules Romain: "estar na direita é ter medo do que existe".

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